terça-feira, 20 de outubro de 2026

O debate eleitoral e a miséria exposta, por Carlos Andreazza

O Estado de S. Paulo

A atividade política havida no Brasil é rasteira. A campanha eleitoral, rasteira. Rasteiros a serem os próximos quatro anos. Causalidade. Uma condenação. Serão anos de depressão aguda; de exaustão terminal, talvez com alguma chance de termos chances em 2030. (O esquema vigente, o tal polarizado, dá sinais de esgotamento na sociedade, embora sejamos mestres em desaproveitar chances.)

Será necessário sobreviver – andar de lado – até lá, qualquer que seja o produto das urnas. (O cronista não compara os candidatos, problemas diferentes, carregadores individuais para crises específicas.) Sobre o presente projetado no amanhã: o que pauta o debate hoje condiciona o porvir. O debate está num lugar distante daquelas que seriam as prioridades deste País.

Teremos instabilidade permanente, parquíssimas as condições para reformismos de natureza estrutural. A gastança de capital político terá outros destinos... Falta humildade, desprovidos os concorrentes dos meios para compreender as razões por que venceram – Lula em 2022, Flávio Bolsonaro no primeiro turno de 2026: venceram porque menos rejeitados que o adversário da vez.

Será gastar esperança em vão supor que transcorreria sob os pressupostos do diálogo o encontro eleitoral tardio entre candidatos que competem acirradamente para que o outro seja o mais desprezado. O debate eleitoral rasteiro esteve – está – à altura da atividade política havida no Brasil. O debate eleitoral na TV concentra a expressão de uma doença para além da prioridade aos cortes de redes sociais: a atividade política governada por grupos que inadmitem ouvir o outro; que não consideram legítima a existência do outro.

Qual debate será travado, se um não reconhece o outro como adversário? O debate que afasta. O debate que, entre dois muito rejeitados, faz crescer a rejeição à eleição – ao comparecimento às urnas. O debate que contrata o aumento da abstenção. Aqui, não tendo Lula conseguido se distinguir como presidente da República, parece ser Bolsonaro o beneficiário do empate na lama.

Será muito fácil culpar a forma – o espaço para que os candidatos discutissem e circulassem livremente no palco – pelo que protagonizaram os finalistas na tela da Band. No Brasil, atribui-se à forma – às regras para indicar ministro do Supremo, por exemplo – o problema, em vez de se lhe enfrentar o uso pervertido. A questão está nos usuários da forma. No que as pessoas fazem com as regras, com a oportunidade, com a cancha e com o tempo.

A questão está no modo como corrompem a forma, devendo o eleitor cobrar que tenham recursos para debater por 30 minutos. A forma não aproveitada comunica a miséria, devendo o eleitor cobrar que os disputantes sejam ao menos capazes de formular-desenvolver a acusação que farão ao outro, em vez de se revezar na repetição cuspida de nomes – Luchsinger, Vorcaro, Careca, Lulinha, irmãozinho.

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