domingo, 18 de outubro de 2026

A luta contra o desmatamento, por Míriam Leitão

O Globo

O menor número de desmatamento foi possível após o governo Lula superar a terra arrasada que recebeu de Jair Bolsonaro na área ambiental

A queda do desmatamento na Amazônia ao menor número nos 38 anos em que o INPE faz o monitoramento é uma vitória cuja dimensão só se entende através de uma viagem no tempo. Não poderia ser colhida se não houvesse uma decisão do governo seguida zelosamente por todas as equipes dos órgãos públicos envolvidos na missão. O presidente Lula repete o feito dos primeiros dois mandatos em que também derrubou fortemente o desmatamento na Amazônia. Dessa vez, há outra boa notícia a comemorar. O Cerrado, o bioma que vem sendo mais atacado, também teve o seu melhor número.

A Amazônia começou a ser monitorada pelo INPE em 1988, usando os dados coletados pelos satélites que cruzam nossos céus. Era o governo José Sarney, o desmatamento havia aumentado muito e o ambientalista Chico Mendes havia sido assassinado. A resposta do governo foi criar o Ibama, lançar um programa chamado Nossa Natureza e pedir ao Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais para iniciar o monitoramento. Os primeiros movimentos dessa supervisão foram difíceis, quase épicos. A tecnologia na época era rudimentar perto da que temos hoje.

Várias vezes, os desmatadores testaram governos. Os bons governos reagiram defendendo a lei e o meio ambiente. No começo da primeira gestão Fernando Henrique, a destruição da Amazônia atingiu o pior número da história, 29 mil km². A reação de FHC foi aprovar a Lei de Crimes Ambientais e elevar a reserva legal da Amazônia para 80%. A taxa caiu nos anos seguintes, depois voltou a subir. No início do primeiro governo Lula, o desmatamento teve novo pico, o segundo pior da história, 27 mil km². A resposta, comandada pela ministra Marina Silva, foi a criação de um plano que integrava vários ministérios, o PPCDAm. Por anos, a taxa caiu até atingir 4,5 mil km² em 2012. Oscilou e voltou a subir no governo Bolsonaro.

O melhor resumo da política ambiental de Jair Bolsonaro foi dado pelo então ministro do Meio Ambiente Ricardo Salles naquela trágica reunião de abril de 2020. O “vamos passar a boiada” era um crime duplo, porque o contexto era do início da pandemia, o país amedrontado, o governo omisso diante do que seria a maior tragédia sanitária do país com 700 mil mortos. Aquela reunião ministerial deveria ser para organizar a estratégia de enfrentar o vírus, mas não foi este o tema. Bolsonaro tinha uma preocupação: evitar que sua família fosse investigada, especialmente seu filho Flávio. Ele disse que demitiria um ministro se não fosse obedecido. O ministro Sergio Moro saiu denunciando a interferência na Polícia Federal. Hoje ele faz parte do bolsonarismo. O que Salles propôs naquela reunião foi aproveitar “que a atenção da imprensa está voltada exclusiva quase que exclusivamente pro Covid”, para fazer o desmonte da legislação ambiental. Eles realizaram o plano e passaram a boiada. A taxa de desmatamento na Amazônia subiu até 13 mil km² em 2021.

Quando Marina Silva assumiu novamente o Ministério do Meio Ambiente encontrou o próprio órgão devastado. Um sinal pequeno dessa devastação foi vista na secretaria-executiva. A mesa de reunião era tão pequena que João Paulo Capobianco decidiu medir. Tinha 80 centímetros. Dava para quatro cadeiras. Foi preciso consertar o desmonte praticado deliberadamente pelo governo Bolsonaro e trabalhar com muita determinação para chegar ao resultado divulgado na sexta-feira. O desmatamento caiu 71, 2% em quatro anos e atingiu o nível mais baixo da História a 3,3 mil km². Isso torna possível sonhar com o fim do desmatamento até 2030.

As decisões de Brasília, seja no executivo, seja no Congresso, têm consequências concretas na vida do país. São árvores que deixam de ser derrubadas, gases de efeito estufa que deixam de ser emitidos, é o país que fica mais forte para enfrentar a emergência climática.

Em fevereiro de 2023, perguntei a Capobianco, que hoje é o ministro do Meio Ambiente, qual havia sido a diferença entre assumir a pasta, em 2003 e em 2023. Ele disse que foi totalmente diferente. O governo Fernando Henrique deixou tudo preparado. “O secretário anterior me aguardava, a mesa estava coberta de processos, de encaminhamentos, havia trabalho em andamento. Desta vez, não houve transição, ninguém nos esperava, a mesa estava limpa, nada havia”. Em 2023, foi um recomeçar sobre terra arrasada. Por isso, a vitória anunciada na sexta, do menor desmatamento da história, é tão valiosa. Ela mostra que é possível vencer a destruição.

 

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