domingo, 18 de outubro de 2026

Debandada, por Dorrit Harazim

O Globo

Integrantes da bolha Trump se mudaram para o Xanadu fortificado, onde se sentem em segurança por viverem intramuros

Há quem goste de qualificar Stephen Miller como a éminence grise de Donald Trump. O epíteto não lhe faz justiça. Seu poder é mais vasto do que o do frade de batina cinza Leclerc du Tremblay, braço direito de Richelieu nos tempos de Luís XIII. Miller é o homem que transforma em política pública os impulsos mais incivilizados de Trump. Imprime sua ideologia raivosa com métodos de inquisidor, não aceita desculpas nem abre espaço a dissenso. É temido não pela fisionomia que lembra Joseph Goebbels, ministro da Propaganda da Alemanha nazista, mas por deter um poder de ação e persuasão imenso na Casa Branca. Não por acaso, escolheu a dedo um cargo que não quer dizer nada (e, portanto, pode significar tudo) e não exige ser sabatinado pelo Senado: vice-chefe de Gabinete para Políticas Públicas. Opera melhor nas sombras do que à luz do dia, e poucos no universo Make America Great Again (Maga) se aventuram a contrariá-lo.

Fora da bolha, a história é outra. Até outubro do ano passado, Stephen, sua mulher, Katie, e os quatro filhos pequenos moravam numa daquelas deliciosas mansões arborizadas de Arlington, na Virgínia, a não mais de 15 quilômetros da Casa Branca. Ali, a vizinhança democrata lhes pareceu hostil. Surgiram pichações no asfalto contra as mudanças da vida cívica implantadas por Trump. O incômodo da vizinhança com o excesso de agentes e seguranças nas redondezas (Miller é o único funcionário de segundo escalão com direito a guarda-costas do Serviço Secreto) acabou levando o casal a vender a propriedade.

— Éramos ótimos vizinhos, até aumentamos o valor dos terrenos da redondeza — contou Katie Miller no podcast Ruthless. — O lugar deixou de ser seguro para nossos filhos brincarem no gramado de casa.

Mudaram-se para uma instalação militar fortemente protegida, em Washington D.C. Ali, ocupam uma das residências historicamente reservadas a oficiais de alta patente, transformada numa espécie de assentamento Maga. O secretário da Defesa, Pete Hegseth, o secretário de Estado e conselheiro de Segurança Nacional, Marco Rubio, e outros integrantes da bolha Trump também se mudaram para esse Xanadu fortificado, onde se sentem em segurança por viverem intramuros.

— Agora as crianças estão tão felizes, podem brincar e correr em liberdade. Elas adoram ver os soldados, é uma experiência única na vida delas — festejou a senhora Miller.

Logo no início de seu segundo mandato, Trump havia declarado estado de emergência criminal na capital do país. Batizou a ação de “Dia da Libertação” e decretou a federalização da polícia municipal. Designou tropas da Guarda Nacional com fuzis M4 e blindados para erradicar a criminalidade que dizia ver em todas as esquinas da cidade — o contingente chegou a mobilizar 4.600 militares e deve marcar presença em Washington até o fim do mandato. A empreitada — que também conta com agentes do FBI, do ICE e de delegados federais — resultou em mais de 16 mil prisões até agora e trombeteia índices questionáveis de eficácia.

Ainda assim, os Millers, os Hegseths, os Rubios não se sentem seguros, ou não querem ser incomodados, a ponto de conviver com a população local, blindando-se da sociedade que acreditam conhecer e governar. Não é síndrome nova. Ela adquire facetas variadas, mas tem um denominador comum: o medo do conhecimento da realidade. A apoteose dessa síndrome já recebeu atenção neste espaço em 2009, por ocasião da inauguração da nova embaixada americana em Bagdá, capital do Iraque. Os Estados Unidos haviam invadido o país em 2003 sob falso pretexto e não conseguiam mais sair daquela terra islâmica de 48 milhões de árabes (80%) e curdos (20%).

Primeiro, demarcaram uma “Zona Verde” de 10 quilômetros em pleno centro de Bagdá e a transformaram em minicidade estanque e inviolável. Ali funcionavam órgãos do governo e embaixadas, entre outros. Cidadãos iraquianos comuns eram proibidos de acessar ou transitar pelo perímetro. Arame farpado, barreiras de concreto e tanques, revistas físicas minuciosas mesmo para credenciados faziam parte do controle. Mas nem isso bastou para que se sentissem seguros na cidade por eles ocupada. Ergueram, então, um mastodonte emparedado de 21 edificações às margens do Rio Tigre, dentro da tal Zona Verde, e lá criaram um mundo estanque e ficcional.

Idealizado para abrigar até 16 mil ocupantes (entre funcionários diplomáticos, equipe de segurança, administradores e pessoal terceirizado), o projeto previu restaurantes, cinemas, piscinas, campo de beisebol, shopping, escolas, usina elétrica e hidráulica à prova de morteiros e foguetes. Só não previu a marcha da História. Os Estados Unidos deixaram o Iraque em frangalhos, as instalações pantagruélicas não têm um décimo da ocupação imaginada, e até o posto de embaixador continua vago. A ver se as próximas eleições americanas apontarão para uma debandada trumpista.

 

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