sexta-feira, 9 de outubro de 2026

A sina do Rio, por Bernardo Mello Franco

O Globo

Após devassa em esquemas de corrupção, PL volta ao Palácio Guanabara com Douglas Ruas

Depois de ter cinco governadores presos e dois cassados, o Rio de Janeiro terá um novo governador investigado antes mesmo de tomar posse.

Ao anular os votos de Anthony Garotinho, o Tribunal Superior Eleitoral abriu caminho para declarar a vitória de Douglas Ruas no primeiro turno. O bolsonarista é alvo de procedimento que apura supostas práticas de peculato, lavagem de dinheiro, fraudes licitatórias e organização criminosa.

A investigação foi aberta em julho pelo procurador-geral de Justiça, Antonio José Campos Moreira, conforme noticiou o colunista Lauro Jardim. Sua origem foi uma denúncia de conflito de interesses e enriquecimento ilícito em obras do governo estadual, no período em que Ruas era secretário da gestão Cláudio Castro.

O rolo ainda envolve a compra de material de construção numa pedreira do deputado Altineu Côrtes, presidente estadual do PL. Todos negam irregularidades, e o governador eleito diz acreditar que o caso será arquivado por falta de provas.

Deputado estadual de primeiro mandato, Ruas era um ilustre desconhecido da maioria dos fluminenses até poucos meses atrás. Foi instado a concorrer ao governo quando o candidato que apoiava, Rodrigo Bacellar, foi preso sob acusação de atuar em favor do Comando Vermelho. O PL também teve que trocar os candidatos ao Senado por motivos de força maior. Márcio Canella foi preso com um fuzil no carro, e Castro passou a receber visitas regulares da Polícia Federal.

Em entrevista à CBN, o marqueteiro de Ruas disse ter investido numa fórmula associada ao PT: “construir a narrativa a partir da periferia” e apresentar o cliente como defensor dos “mais humildes”. Pode ser, mas a mágica não funcionaria sem colar a imagem do candidato à da família Bolsonaro, num estado cada vez mais inclinado à direita.

O desfecho da eleição parece confirmar a sina do Rio após seis meses de gestão interina de Ricardo Couto. Sem rabo preso com a baixa política fluminense, o desembargador promoveu uma devassa no Palácio Guanabara. Desmontou esquemas de corrupção, reorganizou a máquina e demitiu mais de 7 mil fantasmas. Por decisão do eleitor, o grupo responsável pelo descalabro voltará ao poder em janeiro.

 

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