O Globo
É necessário fugir daquelas posições que
levam à radicalização da direita
A vantagem de Flávio Bolsonaro no primeiro
turno colocou a esquerda em modo desespero. Mais uma vez, vemos a difusão de
campanhas para virar voto e tentar reverter em duas semanas o que deveria ter
sido construído em oito anos.
A esquerda tem duas tarefas diferentes e concomitantes: para o bem do país, precisa fugir daquelas posições que levam à radicalização da direita e, para sua própria identidade e sobrevivência, se colocar de maneira distinta — responder aos problemas colocados pela direita, mas sem se descaracterizar caminhando para o centro. A partir desta semana, farei uma série de colunas sobre o que é preciso para construir uma nova esquerda.
Começo falando da necessidade de abandonar o
progressismo moral que defende lutar pelos direitos das mulheres, dos negros e
da população LGBT+ por meio da normatização da linguagem, da condenação moral,
da exclusão social e da coerção institucional. Obviamente, a esquerda não deve
deixar de lutar por esses direitos, mas precisa inventar novas formas de lutar
por eles.
O progressismo moral é tão claramente
impopular que a campanha de Lula optou por deixá-lo de lado, passando a
enfatizar as políticas materiais que favorecem a classe trabalhadora. Mas sua
centralidade na agenda cotidiana da esquerda é tamanha que dois meses de
campanha são incapazes de dissociar uma coisa da outra.
Ele tenta impor à sociedade regras de
linguagem e convívio social esotéricas, que só vigoram de fato em pequenos
círculos progressistas e são amplamente desconhecidas fora deles — coisas como
linguagem inclusiva, figuras de linguagem consideradas racistas ou formas de
tratamento consideradas opressivas. Mesmo sendo esotéricas, quem viola essas
normas é condenado moralmente como misógino, racista ou homofóbico e tratado
como pária que deveria ser excluído do convívio social. Embora tenham sido
gestadas na pequena ilha progressista, elas são ditadas para a sociedade por
meio de poderosas instituições como os meios de comunicação, o entretenimento e
as artes, as escolas e as universidades.
Mais recentemente, essas regras foram também
incorporadas ao Direito, e o progressismo moral quer agora pôr na cadeia e
retirar das redes sociais quem manifeste comportamentos ou discursos
desviantes. Em resumo, o progressismo moral desistiu de persuadir a sociedade
de suas causas e quer impor sua posição pela coerção. Temas sobre os quais a
opinião pública ainda está longe de ter chegado a consenso — como o acesso a
banheiros por pessoas trans — deixam de ser tratados como controvérsias
públicas em curso e passam a ser enquadrados como exigências fundamentais de
direitos humanos, com sanções institucionais e penais para quem desafiá-las.
Qualquer um que acompanha a direita sabe que
o ódio à “cultura do cancelamento” e ao “politicamente correto” está entre os
principais motores da radicalização conservadora. O progressismo moral, porém,
prefere não escutar a sociedade que diz rechaçar racismo, machismo e homofobia
e que gostaria de melhorar suas condutas e instituições, mas que não aceita ser
tratada com estigma, censura e cadeia. Ele ignora essa boa vontade declarada e
trata a resistência a seus métodos como expressão da persistência do racismo e
do patriarcado — uma confirmação da força subjacente do mal que precisa ser
combatido com o dobro do mesmo remédio.
Desamparada, a sociedade passa a dar atenção
e voto ao único grupo que se dispõe a escutar as suas queixas e a oferecer
respostas. Quando os Pavanatos, os Nikolas e os Paulos Figueiredos começam a
ganhar audiência e voto, a esquerda começa a achar não apenas que misoginia e
racismo são estruturas persistentes, mas que a sociedade vai se revelando como
realmente é: fascista. A esquerda então declara guerra contra o povo comum — o
mesmo povo com quem, agora, diz querer conversar para virar voto.

Amo a direita e a esquerda,somos todos irmãos,fiquem na paz.
ResponderExcluirExcelente coluna.
ResponderExcluirMuito boa análise!
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