Revista Será?
O historiador, cientista político e escritor
português João Pereira Coutinho publicou pela editora Três Estrelas um livro
fortemente interessante. Intrigante, na verdade, e desde o título: As ideias conservadoras explicadas a
reacionários e revolucionários (2014).
Bem resumidamente, Coutinho defende que o mundo moderno, nascido da Revolução Francesa, pariu três grandes ideologias: a conservadora, a reacionária e a revolucionária. O que as distingue? O conservadorismo, em essência, afirma que o mundo está em movimento, que a mudança é a forma de existir da modernidade; porém, considera que estas mudanças devem se fazer de forma lenta. A ideologia reacionária, ao contrário, se opõe à mudança e prega o retorno ao passado idealizado. No outro extremo, surgem as ideias revolucionárias, que querem “fazer do passado uma tábua rasa”.
Essas ideologias assumiram feições próprias
em momentos distintos e sociedades diferentes. De forma específica, a ideologia
conservadora caracteriza o que denominamos hodiernamente de direita, formada
por cidadãos e políticos que defendem a manutenção de velhos costumes, mas
aceitam o regime democrático como algo imperfeito; porém, reconhecem que é o
que de melhor inventamos na política. Os reacionários se confundem com o que
hoje denominamos de extrema-direita, que recusa os tempos modernos, a
democracia liberal e a igualdade entre homens e mulheres perante a lei. Na sua
expressão mais radical, querem voltar ao passado, restaurar a monarquia e a
supremacia branca. E os revolucionários? Sumiram, derrotados ao longo de pouco
mais de meio século que nos antecederam, com a derrota da URSS e a adesão da
China à economia de mercado. Deram lugar a reformistas.
Portanto, a hegemonia da onda de direita
sinalizada por alguns analistas já se realizou, no mundo e no Brasil. O
problema é que esta onda está sendo estressada pelos reacionários, ou seja,
pela extrema-direita.
As eleições brasileiras representam muito
este movimento. Quem venceu nas eleições parlamentares não foi a direita, mas a
extrema-direita, representada basicamente pelo PL. Assim, nas eleições
presidenciais, colocam-se frente a frente um reformista, que é o Lula, e um
líder da extrema-direita, o Flávio Bolsonaro. Aliás, se fossemos utilizar a
expressão de Chico de Oliveira, um conservador reformista e um fascista.
O filho do ex-presidente venceu o primeiro
turno, não porque a maioria de seus eleitores concorde com suas ideias, mas
porque estavam cansados e insatisfeitos com as entregas do governo Lula.
Queriam mudar. Não votaram em Flávio Bolsonaro, mas pelo fim da hegemonia
petista, que foi mal exercida desde o governo Dilma.
No segundo turno, as duas proposições ideológicas
se confrontam de forma mais clara. E, com a maioria no Parlamento, o líder
bolsonarista terá as condições de realizar suas propostas, com a provável
extinção de muitos dos direitos construídos ao longo de nossa história recente.
E, com mais um ano, seu poder crescerá enormemente com o controle do STF.
Teremos um quase imperador. E o que será do Brasil? Não sabemos.
É contra esse risco que a sociedade
brasileira se deu conta neste segundo turno, saiu às ruas, e ocupou as redes
sociais de maneira antes inimaginável. De forma estupenda, diria. Não é tanto
um apoio ao governo Lula e menos ainda ao PT. É uma reação, como um grito,
contra o risco que representa um extremista vencer com o poder que terá. Reação
alimentada, é verdade, com as medidas tomadas mais recentemente por Lula:
eliminou o imposto de renda dos que ganham pouco, resolveu a dívida de grande
parte dos empreendedores, retirou famílias inteiras do sofrimento do vício nos
jogos e, finalmente, conseguiu aprovar no senado a lei que institui 40 horas de
trabalho semanais no lugar de 48. Pode-se afirmar que são medidas populistas,
contudo, estimulam as pessoas a mudarem de voto ou ir as urnas.
Como diz um de nossos analistas mais
conceituados: o Lula está no jogo, e o que antes nunca aconteceu pode vir a
acontecer: o candidato que ocupou o segundo lugar no primeiro turno ganhar as
eleições. E, se assim for, não estaremos no melhor dos mundos, mas teremos
evitado o pior. O que não é pouco. E é o que provavelmente acontecerá se a onda
vermelha persistir. Mas precisa persistir e se alargar, incorporar novos
contingentes. Se isso ocorrer, será uma vitória fantástica. Com repercussões no
futuro e no mundo. O humanismo terá sido resgatado.
*Sociólogo, doutor em sociologia, professor
associado II da Universidade de Brasília, ex- diretor do Centro de
Desenvolvimento Sustentável/UnB (2007/2011)

O livro de Coutinho é ótimo. Aliás, este autor mereceria mais postagens por aqui, pois sua coluna na Folha é uma das melhores do jornal.
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