domingo, 18 de outubro de 2026

A democracia e suas vicissitudes, por João Rego*

Revista Será?

 – Uma mensagem aos democratas indecisos

Já falei sobre o que a democracia moderna representa para a humanidade. É a expressão civilizatória suprema que o ser humano, em meio aos seus conflitos, conseguiu alcançar ao longo de milênios de história, marcados por guerras, chacinas e genocídios.

A partir do século XVIII, com os pensadores do Iluminismo, o pensamento político-filosófico construiu o veio principal por onde as nações, com suas diversas formas de governo, começaram a caminhar em direção aos modelos modernos de sociedade democrática.

Embora, no século XX, ainda tenhamos experimentado duas terríveis guerras mundiais, que deixaram um rastro de dezenas de milhões de mortos, entre eles os milhões de vítimas do Holocausto planejado e executado pelo nazismo, também testemunhamos os crimes do stalinismo — duas das principais expressões do totalitarismo que deixou profundas cicatrizes no século passado.

A democracia se impõe como um anteparo civilizatório a essa barbárie, que ainda nos assusta como um fantasma do terror que o ser humano é capaz de infligir a outro ser humano.

É certo que a vida em sociedade — e não existe vida humana fora dela — é estruturalmente marcada pela existência de conflitos. Mas é no ambiente democrático, na tentativa de solucionar tais conflitos pela via da lei, do diálogo e da persuasão no campo das ideias, que se constrói um sentido civilizatório capaz de nos distanciar da barbárie latente em cada ser humano, em cada grupo social, em cada família.

Somos, por nossa própria natureza, constituídos por pulsões, e é por meio da linguagem que acedemos à cultura e à civilização. É isso que nos distingue dos demais animais.

Porém, essa força pulsional latente não permanece inativa. Ela tenta, incessantemente, romper a tênue camada civilizatória que nos sustenta como sociedade regida pelo Estado e pelas leis. As guerras, as manifestações de violência extrema e a agressão de um ser humano contra outro são expressões dessa ruptura do tecido civilizatório.

Não é preciso fazer um doutorado em sociologia ou ciência política para perceber isso. Basta acompanhar as notícias dos crimes em nosso cotidiano. Estão aí, aos milhares, os exemplos que invadem nossas telas.

Do drone que mata ao feminicídio, com mais método ou mais paixão, são expressões e evidências dessa força pulsional latente que vem acompanhando nossa caminhada desde a pré-história.

O perigo extremo surge quando o Estado passa a ser sobredeterminado por ideologias fechadas e radicais, como ocorreu com o nazismo, o fascismo e o comunismo em sua experiência totalitária stalinista.

A partir desse momento, a liberdade de pensamento se extingue, o diálogo e o respeito à rica e valiosa diversidade humana são esmagados, e a tolerância, fulcro dos valores democráticos, é substituída pelo ódio ao outro, àquele que pensa e cultiva valores diferentes dos rígidos dogmas das ideologias radicais.

Essas forças obscuras podem encontrar suas motivações tanto na política quanto na religião. Quando essas duas vertentes se entrelaçam sob o domínio do fanatismo, é o inferno na Terra. A história está repleta de guerras travadas sob bandeiras religiosas.

É importante lembrar que essas forças pulsionais, mobilizadas por suas ideologias, continuam presentes em nossas vidas. Em muitas nações, em pleno século XXI — o século da informação, da tecnologia e do acesso ao conhecimento —, movimentos autoritários já conquistaram o poder por meios constitucionais e passaram a ameaçar a democracia por dentro.

São expressões desse fenômeno movimentos da extrema-direita e experiências autoritárias da extrema-esquerda, como na Venezuela. Nos Estados Unidos, o trumpismo também revela tendências preocupantes de erosão das instituições democráticas.

Aproximando um pouco mais as lentes para esta semana que antecede o segundo turno das eleições, quando escolheremos o próximo presidente da República, temos o bolsonarismo, que considero uma forma tosca de fascismo e que já demonstrou seus propósitos de extinguir nossa jovem democracia por meio de uma tentativa de golpe de Estado.

Por mais que Flávio Bolsonaro procure transmitir uma imagem mais tênue e moderada do bolsonarismo, não podemos ser ingênuos a ponto de ignorar sua vinculação política e familiar com o pai, condenado pela tentativa de golpe de Estado. Vejo em sua candidatura a possibilidade de retorno ao poder de um projeto político movido também pelo ressentimento e pelo desejo de revanche.

Lula, apesar de seus traços populistas, tem, de fato, realizado políticas de inclusão social, buscando atenuar as desigualdades estruturais que flagelam nossa nação e aprofundar os benefícios da democracia para todos.

A diferença entre as duas escolhas é, portanto, de uma distância oceânica.

E não creio que os milhões de eleitores que votaram em Flávio Bolsonaro sejam, necessariamente, bolsonaristas. Entretanto, o resultado das urnas também fortaleceu, no Congresso Nacional, forças políticas identificadas com esse movimento.

De um lado, vejo o risco de fortalecimento de um projeto neofascista, com suas articulações e subserviências internacionais, especialmente diante da influência de Donald Trump, presidente da nação mais poderosa do mundo, que já demonstra suas pretensões de ampliar a influência norte-americana sobre a América Latina.

Do outro, a possibilidade de fortalecimento e aprofundamento da nossa democracia, com políticas públicas voltadas às classes sociais mais vulneráveis, além da defesa da nossa soberania nacional.

Não creio que uma reflexão tão longa possa converter o voto de um bolsonarista convicto, pois seu espírito já se encontra capturado por suas crenças políticas.

Volto-me, portanto, para aquela eleitora e aquele eleitor que não têm simpatia por nenhum dos candidatos e pretendem anular seu voto.

Numa disputa tão acirrada, sua decisão tem enorme importância. O voto nulo não será computado para nenhum dos candidatos, mas a escolha de participar efetivamente da decisão poderá influenciar o destino político do país.

“Quem tem ouvidos para ouvir, que ouça. – Mateus 13:9”

*Engenheiro, mestre em Ciência Política e possui formação em psicanálise pelo movimento lacaniano. Atuou em diversos cargos públicos estaduais e municipais em Pernambuco, contribuindo significativamente para o desenvolvimento regional.

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