Folha de S. Paulo
O Brasil precisa de mudanças, mas não as que
asfixiem nossa democracia
Nosso edifício institucional ficará
vulnerável se o sistema de freio e contrapesos for neutralizado
"Todo homem investido no poder é tentado
a dele abusar (…) para viver em liberdade é necessário que o poder freie o
poder". A máxima de Montesquieu deveria servir, ao menos para aqueles que
se creem liberais, com um alerta sobre o que está em jogo na eleição do próximo
domingo.
A promessa de Flávio Bolsonaro de mudar a Constituição para "democratizar o país" teria gerado menos apreensão não fosse o alinhamento de três elementos: a origem e o histórico antidemocrático do clã político a que pertence; o crescimento da direita não liberal na composição do Congresso Nacional e dos governos de Estado; o dramático declínio da autoridade do Supremo, que, para piorar, terá sua maioria recomposta pelo próximo mandatário.
Para agravar a situação, se eleito, Bolsonaro
governará em um contexto internacional em que as instituições liberais e
democráticas estão sendo submetidas a imensas pressões e a um deliberado
processo de erosão por políticos extremistas. Em resumo, será um governo sem
contenção, que disporá de ampla discricionariedade para moldar a política e as
instituições brasileiras em função de seus interesses e concepções de mundo.
O Brasil já adotou a mais democrática de suas
constituições, em 1988. A atual Constituição foi uma clara reação da sociedade
brasileira a um passado de autoritarismo e injustiça que marcou a nossa
história. Somente no século 20, o Brasil experimentou dois longos períodos de
exceção. Um de natureza militar e outro de matiz populista. Em comum, ambas as
ditaduras promoveram a demolição do sistema de freios e contrapesos.
Subordinaram o Congresso Nacional e o Supremo Tribunal Federal; restringiram e
violaram direitos, especialmente dos seus inimigos; manipularam o processo
eleitoral para se perpetuar no poder.
A Constituição de 1988 devolveu aos cidadãos
o direito de escolherem periodicamente seus governantes, além das liberdades
essenciais à vida democrática. Adotou um robusto sistema de freios e
contrapesos, de forma a dificultar a concentração de poderes numa só pessoa,
facção ou partido. Reconheceu um amplo rol de direitos, voltados a corrigir
históricas injustiças que estruturaram nossa sociedade. Para proteger esses
valores, limitou por meio de cláusulas pétreas o poder de maiorias eventuais
que, em momentos de fúria ou irracionalidade, podem ficar tentadas a abrir mão
das próprias condições que habilitam democracia.
Esse complexo edifício institucional, no
entanto, ficará vulnerável se um mesmo grupo ou facção política tiver
oportunidade objetiva de neutralizar o sistema de freio e contrapesos. Com
isso, não sofrerá restrições ao manipular o processo eleitoral, violar direitos
ou promover a erosão do próprio Estado de Direito.
Como demonstram as experiências de Venezuela, Rússia, Hungria, El Salvador,
Turquia ou Índia, o declínio da democracia não decorre mais apenas de golpes,
como o tentado por Jair Bolsonaro após ser derrotado nas urnas, mas também de
sucessivos processos de mudança constitucional e legal, que levam à subversão
da própria natureza liberal e democrática da Constituição.
Esses processos de erosão institucional se
aprofundam, sobretudo, quando temos um segundo mandato de líderes ou grupos
autoritários. A mudança de regras e estruturas institucionais, além da ocupação
das instituições com pessoas leais e dispostas a tudo para aprofundar e
prolongar o exercício do poder, toma tempo.
O Brasil precisa de mudanças, mas não
daquelas que asfixiem nossa democracia constitucional.
*Professor da FGV Direito SP, mestre em
direito pela Universidade Columbia (EUA) e doutor em ciência política pela USP.
Autor de "Constituição e sua Reserva de Justiça" (Martins Fontes,
2023)

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