sábado, 17 de outubro de 2026

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O futuro nas ruas

Por CartaCapital

Um movimento alentador, independentemente do resultado 

Dominadas por zumbis verde-amarelos desde 2013, as ruas brasileiras estão novamente em disputa. O susto das urnas no primeiro turno teve o efeito positivo de tirar da letargia milhões de cidadãos, atraídos pela disposição dos mais jovens. “Os ideais estão se organizando de maneira espontânea”, resume Gabriel de Oliveira, coordenador do DCE na Universidade Federal de Pernambuco, em entrevista à página 20 a João Victor Sampaio e Kamille Soumaili, ambos universitários como o entrevistado e movidos pela crença no jornalismo, fragilizado e imprescindível. Se o miasma de 1964 exala dos esgotos do bolsonarismo, excitado com a possibilidade de vitória, e se transforma em múltiplas agressões, como se depreende da reportagem de Maurício Thuswohl à página 14, o neutralizador tem sido irradiado por um movimento que, à revelia do apparatchik petista e dos doutos marqueteiros, deu outro vigor e sentido à campanha à reeleição do presidente Lula. Protagonistas da resistência ao golpe do século passado, à custa de vidas e expurgos, os estudantes assumem, de novo, a tarefa de servir de anteparo aos beleguins que se arvoram no direito de sufocar os direitos civis em nome da “liberdade”, caso Flávio Bolsonaro venha a ser eleito em 25 de outubro.

A manifestação do domingo 11, espalhada por dez quarteirões da Avenida Paulista, é a síntese das passeatas em diferentes cidades do País. Há, de fato, algo de novo no ar. As cabeças brancas, os militantes de outrora e de costume, agora dividem espaço com uma juventude de regiões, cores e realidades diversas. A urgência reconectou a campanha petista a uma porção do Brasil que não aceita mais ser tutelada. Tem, ao contrário, ânsia de participar das decisões que afetam o seu cotidiano. Animal político, o presidente percebeu a mudança dos ventos e tem estimulado os jovens a trocar a apatia pela atuação partidária. É um passo em uma longa caminhada. Caso reverta o resultado e conquiste um quarto mandato, Lula dependerá como nunca da mobilização popular. O mesmo vale para o campo progressista. Chega de apelar às massas de quatro em quatro anos – e de lamuriar se essa mesma massa não responder ao chamado eleitoreiro. Sem as ruas, a esperança não vencerá o medo. No domingo 25 ou em algum ponto do futuro.

Publicado na edição n° 1435 de CartaCapital, em 21 de outubro de 2026.

O Brasil rachado e empatado

Por Revista Será?

O Brasil está politicamente fraturado, dividido numa polarização cristalizada entre o lulismo e o bolsonarismo que apontam para dois futuros completamente diferentes em quase todas as áreas – respeito às instituições democráticas, independência da política externa, conservação do meio ambiente e qualidade das políticas sociais – como atestam as posições e a história política do Presidente Lula da Silva e do Senador Flávio Bolsonaro. A menos de dez dias das eleições, o resultado eleitoral está absolutamente indefinido, com um persistente empate técnico, a leve vantagem de Flávio ameaçada pela melhoria recente do desempenho de Lula, especialmente entre os jovens. Depois do susto com o resultado do primeiro turno, a militância de esquerda e centro-esquerda saiu às ruas numa grande mobilização, que parece já ter atraído parcela de eleitores independentes.

A campanha de Flávio, ao contrário, priorizou a busca de adesão e apoio de lideranças – Ronaldo Caiado, Romeu Zema e Augusto Cury, que disputaram o primeiro turno, e Michel Temer – e de partidos políticos formando uma frente com o Republicanos, o União Brasil, o PP, o Novo e o Podemos, além da maioria dos diretórios do MDB.  O resultado das duas estratégias é imprevisível: a mobilização da militância impressiona e atrai eleitores, enquanto a atuação dos partidos com capilaridade pode ir direto ao eleitor independente e indeciso e aos conservadores que se abstiveram no primeiro turno. A pesquisa Quaest mostra, contudo, que os eleitores que não votaram ou anularam o voto no primeiro turno têm uma preferência maior por Lula (43%) que por Flávio (38%).

A campanha tem sido muito pobre no debate de ideias e no confronto de propostas, deixando de explicitar as enormes diferenças políticas entre os candidatos, numa eleição caracterizada pela rejeição e pelo medo. De acordo com a pesquisa citada, 54% dos entrevistados não votam em Flávio em nenhuma hipótese e 53% rejeitam igualmente o presidente Lula; além disso, 43% dos eleitores têm tanto medo da continuidade do governo Lula quanto da volta dos Bolsonaros ao poder. O risco para a democracia é o principal receio que o eleitorado tem de uma eventual vitória de Flávio, lembrando, com razão, dos discursos e da tentativa de golpe de Estado liderado por Jair Bolsonaro.

Para aumentar o medo e a rejeição ao adversário, a campanha de Lula tem se concentrado na desqualificação do Senador, citando a sua ligação com milicianos e a lembrança da desastrosa passagem de Jair Bolsonaro pelo poder. No outro lado, Flávio gasta o tempo em se defender (tentando reduzir o medo que desperta no eleitorado) e na exploração do cotidiano duro dos brasileiros diante da carestia e da violência, na expectativa de elevação do receio dos eleitores com a continuidade do governo Lula.

Na última semana de campanha, o presidente Lula deve avançar na mobilização da militância, nas ruas e nas redes sociais, e vai ter dois trunfos importantes para conquistar corações e mentes: o programa lançado esta semana de apoio às MEIs e a aprovação da redução da jornada de trabalho. Flávio depende do engajamento das lideranças e partidos que declararam apoio. Embora 9% dos entrevistados digam, na pesquisa, que ainda podem mudar o voto, o percentual de votos brancos, nulos e abstenções caiu para apenas 9% dos eleitores. O espaço para avançar é bem restrito. Mas, num empate técnico, qualquer movimento pode definir a vitória ou a derrota. Os debates entre os dois candidatos, com temas que vão, finalmente, obrigar Lula e Flávio a explicitarem e defenderem posições e programas, podem decidir as eleições. Talvez menos pelo conteúdo das propostas e mais pela demonstração de competência, conhecimento da realidade brasileira e da capacidade de convencimento dos brasileiros.

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