Correio Braziliense
Ficção e verdade se entrelaçam em versões
contraditórias, estressando a audiência que fica confusa sem saber no que
acreditar
A campanha eleitoral transformou-se em um repositório de desinformação. Em vez do momento ser usado como palco para esclarecimentos de propostas, gerando as discussões naturais a respeito de temas relevantes para a sociedade, o que vemos é um festival de obras de ficção. Seria engraçado se não fosse trágico, na medida em que os discursos das campanhas têm potencial, sem exagero, de contaminar a percepção das gerações futuras.
O perigo começa no registro que as pessoas
fazem em suas memórias. Essa armazenagem é sempre diferente de uma pessoa para
outra por ser fruto da percepção de cada um. Nenhum par de olhos ou ouvidos
capta da mesma forma os acontecimentos e muito menos interpreta, entende e
armazena dados e informações da mesma forma. A exposição às múltiplas versões
do mesmo fato cria lembranças que, não raro, são memórias imprecisas a respeito
dos acontecimentos. E, para completar, a memória também sofre flutuações em função
do momento em que ela é articulada, em que ela está sendo expressa. As
preocupações do momento constituem um elemento de estruturação das lembranças.
Na campanha eleitoral, ora vivenciada por
todos nós, uma boa parte dos fatos e eventos relacionados pelos candidatos gera
inúmeras versões que acabam por confundir o eleitor. Ficção e verdade se
entrelaçam em versões contraditórias, estressando a audiência que fica confusa
sem saber no que acreditar.
Em face dessa nuvem de discursos, que voam
pela mente das pessoas e que colidem sem fornecer suporte para se chegar a uma
conclusão razoável, a opção do eleitor, quase que automática, é o caminho da
simplificação. Simplificar implica em reduzir ideias, descartando elementos
importantes para aprofundar a compreensão dos fatos.
Dessa forma, as pessoas passam a entender o
mundo ao seu redor a partir de um prisma bastante particular, que é conhecido
como pós-verdade. Assim, os acontecimentos têm pouca — ou, em alguns casos,
nenhuma — influência sobre o raciocínio para formar reflexões.
Esse conjunto de conclusões rasas e sem
substância será incorporado à memória sem causar qualquer dúvida em quem a
armazena. Michel Pollack, estudioso do tema, explica que nossa lembrança dos
eventos é feita de maneira flexível, sofrendo influência do contexto em que se
deram e dos traumas associados a elas. Portanto, verdade e memória estão
dissociadas.
Assim, cada um se entrincheira atrás de
opiniões rasas, que formam universos particulares de entendimento, onde
coexistem diversas verdades — que se sustentam mais nas emoções e opiniões do
que na reflexão sobre os acontecimentos. É a aplicação prática da fórmula “essa
é a minha opinião”, ferramenta-chave para encerrar qualquer debate nos tempos
que correm.
O contexto atual, de tsunami desinformativo,
cria o ambiente ideal para a formação de “verdades” sem nenhuma base que as
sustente. E essas (des)informações armazenadas como verdadeiras formarão a
memória das pessoas a respeito dos acontecimentos de agora.
O que restará desse embate estéril onde
sobram versões e as certezas são escassas? Um repositório de desinformação,
cristalizado como referência, que continuará a causar danos por outras
gerações. A desinformação plantada hoje afetará gerações futuras.
*Fernando Neves — mestre em comunicação pela Unip e professor de
Jornalismo na FAM

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