domingo, 11 de outubro de 2026

Campanha eleitoral, repositório de desinformação, por Fernando Neves*

Correio Braziliense

Ficção e verdade se entrelaçam em versões contraditórias, estressando a audiência que fica confusa sem saber no que acreditar

A campanha eleitoral transformou-se em um repositório de desinformação. Em vez do momento ser usado como palco para esclarecimentos de propostas, gerando as discussões naturais a respeito de temas relevantes para a sociedade, o que vemos é um festival de obras de ficção. Seria engraçado se não fosse trágico, na medida em que os discursos das campanhas têm potencial, sem exagero, de contaminar a percepção das gerações futuras.

O perigo começa no registro que as pessoas fazem em suas memórias. Essa armazenagem é sempre diferente de uma pessoa para outra por ser fruto da percepção de cada um. Nenhum par de olhos ou ouvidos capta da mesma forma os acontecimentos e muito menos interpreta, entende e armazena dados e informações da mesma forma. A exposição às múltiplas versões do mesmo fato cria lembranças que, não raro, são memórias imprecisas a respeito dos acontecimentos. E, para completar, a memória também sofre flutuações em função do momento em que ela é articulada, em que ela está sendo expressa. As preocupações do momento constituem um elemento de estruturação das lembranças.

Na campanha eleitoral, ora vivenciada por todos nós, uma boa parte dos fatos e eventos relacionados pelos candidatos gera inúmeras versões que acabam por confundir o eleitor. Ficção e verdade se entrelaçam em versões contraditórias, estressando a audiência que fica confusa sem saber no que acreditar.

Em face dessa nuvem de discursos, que voam pela mente das pessoas e que colidem sem fornecer suporte para se chegar a uma conclusão razoável, a opção do eleitor, quase que automática, é o caminho da simplificação. Simplificar implica em reduzir ideias, descartando elementos importantes para aprofundar a compreensão dos fatos.

Dessa forma, as pessoas passam a entender o mundo ao seu redor a partir de um prisma bastante particular, que é conhecido como pós-verdade. Assim, os acontecimentos têm pouca — ou, em alguns casos, nenhuma — influência sobre o raciocínio para formar reflexões.

Esse conjunto de conclusões rasas e sem substância será incorporado à memória sem causar qualquer dúvida em quem a armazena. Michel Pollack, estudioso do tema, explica que nossa lembrança dos eventos é feita de maneira flexível, sofrendo influência do contexto em que se deram e dos traumas associados a elas. Portanto, verdade e memória estão dissociadas.

Assim, cada um se entrincheira atrás de opiniões rasas, que formam universos particulares de entendimento, onde coexistem diversas verdades — que se sustentam mais nas emoções e opiniões do que na reflexão sobre os acontecimentos. É a aplicação prática da fórmula “essa é a minha opinião”, ferramenta-chave para encerrar qualquer debate nos tempos que correm.

O contexto atual, de tsunami desinformativo, cria o ambiente ideal para a formação de “verdades” sem nenhuma base que as sustente. E essas (des)informações armazenadas como verdadeiras formarão a memória das pessoas a respeito dos acontecimentos de agora.

O que restará desse embate estéril onde sobram versões e as certezas são escassas? Um repositório de desinformação, cristalizado como referência, que continuará a causar danos por outras gerações. A desinformação plantada hoje afetará gerações futuras.

*Fernando Neves — mestre em comunicação pela Unip e professor de Jornalismo na FAM

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