sexta-feira, 23 de outubro de 2026

Candidatos preparam estelionato eleitoral, por Raquel Landim

O Estado de S. Paulo

Seja qual for o resultado das eleições de domingo, o País se prepara para um estelionato eleitoral ou para uma crise econômica em 2027. Não é catastrofismo. Nem o presidente e candidato à reeleição, Luiz Inácio Lula da Silva, nem o candidato do PL, Flávio Bolsonaro, apresentaram até agora propostas concretas para lidar com a economia.

Flávio negou todos os ajustes necessários para reduzir a dívida pública: desindexação do salário mínimo, mudança nos pisos de saúde e educação, reforma da Previdência, entre outras medidas. Chegou até a se comprometer com a escala 6x1, que, num primeiro momento, vai afetar a produtividade da economia.

No debate promovido pela Band e pelo Estadão, o candidato do PL disse que só o fato de se tornar presidente vai liberar recursos, porque os juros de longo prazo vão cair. Flávio disse que vai combater a corrupção para conseguir mais recursos – uma promessa insólita, dado seu histórico. Prometeu um Ministério da Prosperidade sem dizer quanto custaria. Pode até ser que sua eleição provoque um alívio nos mercados, mas será temporário. Logo a conta vai chegar.

Lula estabeleceu um ritmo desenfreado de gastos para tentar vencer, já que está atrás nas pesquisas eleitorais: aumento de 15% do Bolsa Família, renovações sucessivas da subvenção à importação de combustíveis, compra de dívidas por meio do novo Desenrola, recursos para os microempreendedores e até mesmo distribuição de canetas emagrecedoras pelo SUS, entre muitas outras medidas.

Prometeu até uma PEC para garantir passe livre nos fins de semana, que pretende pagar com o dinheiro das emendas parlamentares. Faltou combinar com o Congresso, que dificilmente vai querer abrir mão desses recursos. Muitas emendas têm destinação específica.

A ausência de propostas de austeridade fiscal por parte dos dois candidatos se explica pela disputa mais acirrada da história do País. A diferença é de um a dois pontos porcentuais, dependendo da pesquisa. Ninguém quer correr o risco de desagradar ao eleitor e perder votos.

O que nos leva a um impasse. As equipes econômicas de Flávio e Lula não são ingênuas e sabem o que precisa ser feito para conter a dívida pública e evitar seus efeitos deletérios sobre os juros, o câmbio e a inflação. O Brasil precisa de um novo ajuste fiscal logo no início do próximo mandato.

Ou os técnicos já estão preparando pacotes para anunciar assim que o pleito terminar, o que configuraria um estelionato eleitoral, diante do que os candidatos prometeram ou esconderam dos eleitores, ou pretendem deixar tudo como está, com ajustes graduais e cosméticos, que não vão resolver o problema do País.

Se prevalecer a segunda alternativa, quem vai pagar a conta de uma dívida pública explosiva será, principalmente, a população mais pobre, com mais inflação. •

 

Nenhum comentário:

Postar um comentário