O Estado de S. Paulo
Seja qual for o resultado das eleições de
domingo, o País se prepara para um estelionato eleitoral ou para uma crise
econômica em 2027. Não é catastrofismo. Nem o presidente e candidato à
reeleição, Luiz Inácio Lula da Silva, nem o candidato do PL, Flávio Bolsonaro,
apresentaram até agora propostas concretas para lidar com a economia.
Flávio negou todos os ajustes necessários para reduzir a dívida pública: desindexação do salário mínimo, mudança nos pisos de saúde e educação, reforma da Previdência, entre outras medidas. Chegou até a se comprometer com a escala 6x1, que, num primeiro momento, vai afetar a produtividade da economia.
No debate promovido pela Band e pelo Estadão,
o candidato do PL disse que só o fato de se tornar presidente vai liberar
recursos, porque os juros de longo prazo vão cair. Flávio disse que vai
combater a corrupção para conseguir mais recursos – uma promessa insólita, dado
seu histórico. Prometeu um Ministério da Prosperidade sem dizer quanto
custaria. Pode até ser que sua eleição provoque um alívio nos mercados, mas
será temporário. Logo a conta vai chegar.
Lula estabeleceu um ritmo desenfreado de gastos
para tentar vencer, já que está atrás nas pesquisas eleitorais: aumento de 15%
do Bolsa Família, renovações sucessivas da subvenção à importação de
combustíveis, compra de dívidas por meio do novo Desenrola, recursos para os
microempreendedores e até mesmo distribuição de canetas emagrecedoras pelo SUS,
entre muitas outras medidas.
Prometeu até uma PEC para garantir passe
livre nos fins de semana, que pretende pagar com o dinheiro das emendas
parlamentares. Faltou combinar com o Congresso, que dificilmente vai querer
abrir mão desses recursos. Muitas emendas têm destinação específica.
A ausência de propostas de austeridade fiscal
por parte dos dois candidatos se explica pela disputa mais acirrada da história
do País. A diferença é de um a dois pontos porcentuais, dependendo da pesquisa.
Ninguém quer correr o risco de desagradar ao eleitor e perder votos.
O que nos leva a um impasse. As equipes
econômicas de Flávio e Lula não são ingênuas e sabem o que precisa ser feito
para conter a dívida pública e evitar seus efeitos deletérios sobre os juros, o
câmbio e a inflação. O Brasil precisa de um novo ajuste fiscal logo no início
do próximo mandato.
Ou os técnicos já estão preparando pacotes
para anunciar assim que o pleito terminar, o que configuraria um estelionato
eleitoral, diante do que os candidatos prometeram ou esconderam dos eleitores,
ou pretendem deixar tudo como está, com ajustes graduais e cosméticos, que não
vão resolver o problema do País.
Se prevalecer a segunda alternativa, quem vai
pagar a conta de uma dívida pública explosiva será, principalmente, a população
mais pobre, com mais inflação. •

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