sexta-feira, 23 de outubro de 2026

Brasil e o ‘efeito Orloff’, por Luiz Fernando de Paula*

O Estado de S. Paulo

No debate sobre política econômica, mais importante do que procurar modelos a serem copiados é compreender as especificidades de cada economia

O“efeito Orloff” é uma expressão usada no Brasil para sugerir que a experiência econômica de um país – especialmente a Argentina – poderia antecipar o que aconteceria depois por aqui. A origem está na antiga propaganda da vodca Orloff, cujo slogan era: “Eu sou você amanhã”.

É frequente, no debate econômico brasileiro, que algum analista critique a política econômica do governo e vaticine: “O Brasil vai se tornar uma Argentina!”. Essa comparação, porém, ignora diferenças estruturais importantes entre as duas economias.

Embora Brasil e Argentina tenham enfrentado profundas crises nos anos 1980, em grande medida associadas à crise da dívida externa, suas trajetórias macroeconômicas foram bastante distintas.

A Argentina experimentou um processo inflacionário muito mais agudo, que culminou na hiperinflação de 1989-1990. Este processo, combinado com uma ampla abertura financeira externa, estimulou a dolarização da economia e contribuiu para a atrofia do sistema financeiro doméstico – cujos efeitos ainda se fazem sentir. Para enfrentar a hiperinflação, implementou em abril de 1991 o Plano de Convertibilidade, que estabeleceu, em lei, a paridade de um peso por um dólar, que viria a colapsar em dezembro de 2001, após sucessivos choques externos.

O Brasil também enfrentou elevadíssimas taxas de inflação dos anos 1980 até 1994, mas não passou pelo mesmo processo de dolarização. A existência de uma moeda indexada permitiu preservar a poupança financeira em ativos denominados em moeda doméstica. Essa característica, somada a uma situação externa relativamente mais favorável, contribuiu para que o País pudesse implementar, com o Plano Real, uma bem-sucedida estratégia de estabilização baseada em uma âncora cambial mais flexível.

As diferenças permanecem evidentes atualmente. Entre 2017 e 2025, o crescimento médio do PIB no Brasil foi de aproximadamente 2,0% ao ano, enquanto na Argentina foi de 0,7%. Em 2025, a inflação fechou em 4,3% no Brasil, ante 31,5% na Argentina. Em junho de 2026, a taxa de desemprego no Brasil era de 5,6%, enquanto na Argentina era de 7,8%. A situação brasileira também era mais favorável em termos de pobreza.

A diferença é ainda mais clara quando se observam alguns indicadores estruturais. As reservas internacionais brasileiras correspondem atualmente a cerca de 13% do Produto Interno Bruto (PIB), ante aproximadamente 5% na Argentina. O sistema financeiro brasileiro também é muito mais desenvolvido: o crédito doméstico ao setor privado equivale a cerca de 75% do PIB, ante 17% na Argentina. Além disso, o Brasil dispõe de um amplo mercado de dívida pública em moeda doméstica. A Argentina, ao contrário, apresenta maior vulnerabilidade externa, um mercado de dívida pública federal com predominância de emissões em moeda estrangeira e um sistema financeiro atrofiado.

Foi nesse contexto de profunda instabilidade que Javier Milei assumiu a Presidência, em dezembro de 2023, quando a inflação acumulada naquele ano havia alcançado 211,4%. Seu governo adotou uma política de choque, baseada em forte ajuste fiscal, corte de subsídios e gastos públicos, interrupção do financiamento monetário do Tesouro pelo Banco Central, uma grande desvalorização inicial do peso, seguida de um regime cambial a la crawling peg, além da correção de preços administrados e da redução de controles cambiais e de preços.

A inflação caiu significativamente desde então, ainda que se mantenha elevada. A política de Milei tem sido de “matar o doente para curar a doença”, com aumento acelerado da taxa de desemprego e da pobreza, ao mesmo tempo em que o custo de vida se mantém elevado. Ademais, o país encontrase frequentemente em dificuldades para pagar sua dívida externa, em contraste com o Brasil, onde o acúmulo de reservas cambiais é bem superior à dívida externa pública.

Nesse contexto, a afirmação recente de Daniella Marques, coordenadora do programa econômico do candidato Flávio Bolsonaro, de que a Argentina seria um ótimo exemplo a ser seguido suscita a seguinte questão: até que ponto seria desejável transplantar para o Brasil as políticas adotadas por Milei?

A resposta passa necessariamente pelas diferenças estruturais entre as duas economias destacadas acima. Políticas econômicas não produzem os mesmos resultados quando aplicadas em contextos distintos. O Brasil dispõe de uma estrutura financeira, uma posição externa e uma capacidade de financiamento em moeda doméstica muito diferentes das da Argentina. Por isso, falar agora em um “efeito Orloff” é pouco apropriado.

Mais importante: diante do elevado endividamento de empresas e famílias no Brasil, um fortíssimo ajuste fiscal em 2027 provocaria uma recessão aguda e desnecessária, tendo em vista o nível controlado de inflação. O resultado poderia ser uma forte contração econômica, possivelmente mais profunda do que a observada em 2015.

No debate sobre política econômica, portanto, mais importante do que procurar modelos a serem simplesmente copiados é compreender as especificidades de cada economia. •

*PROFESSOR DE ECONOMIA DO IE/UFRJ

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