Revista Será?
Desculpem meus amigos acadêmicos, filósofos,
analistas políticos, intelectuais e jornalistas. A semana é de celebrar. Os
jornalistas são os únicos que têm desculpas de não o fazerem por razões
profissionais. Às vezes até penso que esses personagens não dormem.
Antes de fazer cenários e conjecturas sobre o
quarto mandato de Lula, que não vai ser fácil, deve-se celebrar o salto que
demos. Conseguimos evitar um governo golpista, corrupto como poucos e
subserviente. A natureza agradece. E os que sofrem de insegurança alimentar
também.
Celebrar é essencial, sobretudo, pelo feito realizado, quando a vitória foi alcançada não apenas por um homem ou dois, por um ou dois partidos, por um grupo de mulheres ou de jovens, por uma região ou outra, mas por um trabalho de milhões que se engajaram nas redes, saíram às ruas e se dirigiram a familiares, amigos, colegas e vizinhos para convencer os que não votaram no primeiro turno a votar em Lula, assim como trabalharam junto aos que votaram nulo ou branco. Porém, isso não era suficiente e milhões de pessoas foram mais longe: convenceram milhões de eleitores ou eleitoras a mudarem de voto, fazer aqueles e aquelas que votaram no candidato do PL votarem no Lula.
Depois iremos nos debruçar sobre os desafios,
os riscos e as dificuldades do novo governo, o que fazer para mudar a forma de
governar. E mais do que isso, enfrentar o desafio de transformar a esquerda em
uma força viva, sintonizada com as mudanças do tempo e dos desejos e aspirações
das pessoas.
A vitória de Lula não foi importante apenas
para o Brasil, mas para o mundo inteiro. Foi um sinal claro de que é possível
resistir ao avanço da extrema-direita, ao avanço daqueles que não acreditam nas
mudanças climáticas, que destroem a natureza, que não acreditam na ciência, que
desprezam as mulheres, os pretos e, no Norte, desrespeitam os latinos,
africanos e asiáticos. Foi um alento de esperança aos democratas e reformistas
no continente latino-americano depois das vitórias recentes da direita no
Paraguai, Argentina, Chile, Bolívia, Peru, Equador e Colômbia.
O mundo homenageou o Brasil pelo feito de ter
virado uma eleição na qual tudo indicava que a extrema-direita seria vitoriosa.
Muitos jornais estamparam na primeira página. Cito os que consultei: L’Humanité, Libération, Le
Monde, Financial Times, The New York Times, The Guardian, The
Independent, La Vanguardia, La Nación, Clarín. São unânimes em
declarar a surpresa da vitória que parecia impossível.
Flávio Bolsonaro ganhou as eleições no
primeiro turno com uma diferença de 2,2 milhões de votos. E recebeu o apoio dos
candidatos Augusto Jorge Cury, Ronaldo Caiado e Romeu Zema Neto que tiveram,
respectivamente, 3,4 milhões de votos, 2,6 milhões e 300 mil. Juntos, estes
três candidatos presidenciais somaram mais de 6 milhões de votos. Imaginava-se,
assim, que Lula não teria chances. Para vencer precisava ganhar votos entre os
que se abstiveram, os que votaram nulo ou branco, e não seria suficiente. Era
necessário angariar votos mesmo entre aqueles que votaram no candidato do PL.
O contexto era mais que desfavorável, era
hostil à vitória do Lula, com os presidentes do TSE, ministros indicados por
Jair Bolsonaro para o STF, que se comportavam, como era esperado, com
parcialidade. Esses senhores tentaram retirar do ar plataformas pró-Lula ou
cercear a difusão de mensagens dos eleitores do Presidente, com a colaboração
da Meta.
Neste contexto, a vitória de Lula era um
desafio estrondoso. A história eleitoral do país não conhecia feito desta
natureza. E o candidato do PL e seus aliados estavam certos da vitória. Já
discutiam quais ministros comporiam o governo, quais decretos (fala-se em mais
de uma centena) deveriam ser assinados nos primeiros dias, quais medidas
radicais, de grande visibilidade, deveriam ser adotadas como a transição do
programa Bolsa Família, a privatização do Banco do Brasil e da Petrobras, a
criação do Ministério da Prosperidade e o corte de 250 bilhões. Erraram,
adotaram a postura que popularmente chama-se de “subir nos tamancos”, calçar
“salto alto”.
Para ganhar com uma diferença de 4,4 milhões
de votos, foi necessário ao Lula angariar no segundo turno 10.376.694 de votos
a mais, enquanto seu adversário conseguiu obter apenas 3.721.538 votos. Lula
ampliou seus votos em todo o País, ganhou em Minas Gerais, onde havia perdido
no primeiro turno e, sobretudo, cresceu no Nordeste (obtendo mais 2.955.848
votos), além de reduzir a vantagem do adversário em todos os estados. Chegou
mesmo a vencer em 211 municípios que havia perdido no primeiro turno.
Foi ressuscitada uma militância de norte a
sul do país composta de jovens e idosos, homens e mulheres, ricos e pobres, brancos,
pretos e mestiços de todas as matizes. Foi emocionante ver velhinhos e
velhinhas movendo-se com ajuda de filhos e netos para votar em Lula, pessoas
simples, descalças, provindas dos rincões mais distantes fazendo o mesmo. Foi
uma massa imensa, que depois da vitória fez uma grande festa. Militância
majoritariamente fora de partidos políticos e mesmo desconfiada com a política
e os políticos.
Se o PT e seus assessores, assim como o
Exército de Lula, imaginarem que a eles se deve a vitória, estarão enganados.
Foi um feito da sociedade civil, dos milhões de pessoas que saíram em busca de
voto em todo o território nacional, sobretudo jovens, movidos por duas ordens
de razões. A primeira referia-se ao medo das medidas que vitorioso, o Flávio
Bolsonaro iria implantar: temia-se pela perda de direitos adquiridos como o
reajuste do salário mínimo acima da inflação ou o reajuste do funcionalismo
público e aposentados segundo os índices inflacionários, ou direitos em vias de
serem adquiridos como a semana de 5 dias de trabalho e dois de descanso. Havia
também o receio de que programas sociais relevantes como o Bolsa Família, Minha
Casa, Minha Vida, Farmácia Popular ou recentes, como o Pé-de-Meia fossem
extintos. A segunda ordem de razões refere-se ao conhecimento de outras facetas
do Flávio Bolsonaro que centenas ou milhares de pessoas começaram a divulgar
nas redes sociais: homenageador de milicianos, defensor da ditadura militar,
corrupto envolvido em maracutaias investigadas pela Polícia Federal,
frequentador de bacanais com grandes empresários, “puxa-saco” de Trump,
negacionista das mudanças climáticas, e desrespeitoso com as mulheres, os
nordestinos e os nortistas. Para muitos, o filho do Jair ameaçava a democracia
e a soberania nacional. Surgia como um playboy, mentiroso, preconceituoso,
grosseiro e corrupto. Os debates contribuíram para o desenho desta imagem.
Verdadeira ou não, o fato é que uma outra
imagem do filho do ex-presidente Bolsonaro foi aos poucos sendo abraçada por
milhões de eleitores, inclusive alguns que nele tinham votado. Temos que
celebrar, mas sabendo que grande parte dos eleitores que deram a vitória a Lula
votaram contra Bolsonaro, não votaram por nenhum projeto de sociedade, pois
este foi um grande ausente em toda a campanha eleitoral. Ter consciência desse
fato é fundamental para se pensar o novo governo, com o desafio enorme de
reinventar-se, dar esperança ao povo, restabelecer a confiança nas instituições
democráticas, criar uma nova liderança. Lula, com mais de 80anos, será capaz de
reinventar-se? Perguntas que teremos que enfrentar. Mas isso, para mim, será
assunto das semanas seguintes.
*Sociólogo, doutor em sociologia, professor associado II da Universidade de Brasília, ex- diretor do Centro de Desenvolvimento Sustentável/UnB (2007/2011).

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