sábado, 31 de outubro de 2026

Celebrar é preciso, por Elimar Nascimento*

Revista Será?

Desculpem meus amigos acadêmicos, filósofos, analistas políticos, intelectuais e jornalistas. A semana é de celebrar. Os jornalistas são os únicos que têm desculpas de não o fazerem por razões profissionais. Às vezes até penso que esses personagens não dormem.

Antes de fazer cenários e conjecturas sobre o quarto mandato de Lula, que não vai ser fácil, deve-se celebrar o salto que demos. Conseguimos evitar um governo golpista, corrupto como poucos e subserviente. A natureza agradece. E os que sofrem de insegurança alimentar também.

Celebrar é essencial, sobretudo, pelo feito realizado, quando a vitória foi alcançada não apenas por um homem ou dois, por um ou dois partidos, por um grupo de mulheres ou de jovens, por uma região ou outra, mas por um trabalho de milhões que se engajaram nas redes, saíram às ruas e se dirigiram a familiares, amigos, colegas e vizinhos para convencer os que não votaram no primeiro turno a votar em Lula, assim como trabalharam junto aos que votaram nulo ou branco. Porém, isso não era suficiente e milhões de pessoas foram mais longe: convenceram milhões de eleitores ou eleitoras a mudarem de voto, fazer aqueles e aquelas que votaram no candidato do PL votarem no Lula.

Depois iremos nos debruçar sobre os desafios, os riscos e as dificuldades do novo governo, o que fazer para mudar a forma de governar. E mais do que isso, enfrentar o desafio de transformar a esquerda em uma força viva, sintonizada com as mudanças do tempo e dos desejos e aspirações das pessoas.

A vitória de Lula não foi importante apenas para o Brasil, mas para o mundo inteiro. Foi um sinal claro de que é possível resistir ao avanço da extrema-direita, ao avanço daqueles que não acreditam nas mudanças climáticas, que destroem a natureza, que não acreditam na ciência, que desprezam as mulheres, os pretos e, no Norte, desrespeitam os latinos, africanos e asiáticos. Foi um alento de esperança aos democratas e reformistas no continente latino-americano depois das vitórias recentes da direita no Paraguai, Argentina, Chile, Bolívia, Peru, Equador e Colômbia.

O mundo homenageou o Brasil pelo feito de ter virado uma eleição na qual tudo indicava que a extrema-direita seria vitoriosa. Muitos jornais estamparam na primeira página. Cito os que consultei: L’Humanité, Libération, Le Monde, Financial Times, The New York Times, The Guardian, The Independent, La Vanguardia, La Nación, Clarín. São unânimes em declarar a surpresa da vitória que parecia impossível.

Flávio Bolsonaro ganhou as eleições no primeiro turno com uma diferença de 2,2 milhões de votos. E recebeu o apoio dos candidatos Augusto Jorge Cury, Ronaldo Caiado e Romeu Zema Neto que tiveram, respectivamente, 3,4 milhões de votos, 2,6 milhões e 300 mil. Juntos, estes três candidatos presidenciais somaram mais de 6 milhões de votos. Imaginava-se, assim, que Lula não teria chances. Para vencer precisava ganhar votos entre os que se abstiveram, os que votaram nulo ou branco, e não seria suficiente. Era necessário angariar votos mesmo entre aqueles que votaram no candidato do PL.

O contexto era mais que desfavorável, era hostil à vitória do Lula, com os presidentes do TSE, ministros indicados por Jair Bolsonaro para o STF, que se comportavam, como era esperado, com parcialidade. Esses senhores tentaram retirar do ar plataformas pró-Lula ou cercear a difusão de mensagens dos eleitores do Presidente, com a colaboração da Meta.

Neste contexto, a vitória de Lula era um desafio estrondoso. A história eleitoral do país não conhecia feito desta natureza. E o candidato do PL e seus aliados estavam certos da vitória. Já discutiam quais ministros comporiam o governo, quais decretos (fala-se em mais de uma centena) deveriam ser assinados nos primeiros dias, quais medidas radicais, de grande visibilidade, deveriam ser adotadas como a transição do programa Bolsa Família, a privatização do Banco do Brasil e da Petrobras, a criação do Ministério da Prosperidade e o corte de 250 bilhões. Erraram, adotaram a postura que popularmente chama-se de “subir nos tamancos”, calçar “salto alto”.

Para ganhar com uma diferença de 4,4 milhões de votos, foi necessário ao Lula angariar no segundo turno 10.376.694 de votos a mais, enquanto seu adversário conseguiu obter apenas 3.721.538 votos. Lula ampliou seus votos em todo o País, ganhou em Minas Gerais, onde havia perdido no primeiro turno e, sobretudo, cresceu no Nordeste (obtendo mais 2.955.848 votos), além de reduzir a vantagem do adversário em todos os estados. Chegou mesmo a vencer em 211 municípios que havia perdido no primeiro turno.

Foi ressuscitada uma militância de norte a sul do país composta de jovens e idosos, homens e mulheres, ricos e pobres, brancos, pretos e mestiços de todas as matizes. Foi emocionante ver velhinhos e velhinhas movendo-se com ajuda de filhos e netos para votar em Lula, pessoas simples, descalças, provindas dos rincões mais distantes fazendo o mesmo. Foi uma massa imensa, que depois da vitória fez uma grande festa. Militância majoritariamente fora de partidos políticos e mesmo desconfiada com a política e os políticos.

Se o PT e seus assessores, assim como o Exército de Lula, imaginarem que a eles se deve a vitória, estarão enganados. Foi um feito da sociedade civil, dos milhões de pessoas que saíram em busca de voto em todo o território nacional, sobretudo jovens, movidos por duas ordens de razões. A primeira referia-se ao medo das medidas que vitorioso, o Flávio Bolsonaro iria implantar: temia-se pela perda de direitos adquiridos como o reajuste do salário mínimo acima da inflação ou o reajuste do funcionalismo público e aposentados segundo os índices inflacionários, ou direitos em vias de serem adquiridos como a semana de 5 dias de trabalho e dois de descanso. Havia também o receio de que programas sociais relevantes como o Bolsa Família, Minha Casa, Minha Vida, Farmácia Popular ou recentes, como o Pé-de-Meia fossem extintos. A segunda ordem de razões refere-se ao conhecimento de outras facetas do Flávio Bolsonaro que centenas ou milhares de pessoas começaram a divulgar nas redes sociais: homenageador de milicianos, defensor da ditadura militar, corrupto envolvido em maracutaias investigadas pela Polícia Federal, frequentador de bacanais com grandes empresários, “puxa-saco” de Trump, negacionista das mudanças climáticas, e desrespeitoso com as mulheres, os nordestinos e os nortistas. Para muitos, o filho do Jair ameaçava a democracia e a soberania nacional. Surgia como um playboy, mentiroso, preconceituoso, grosseiro e corrupto. Os debates contribuíram para o desenho desta imagem.

Verdadeira ou não, o fato é que uma outra imagem do filho do ex-presidente Bolsonaro foi aos poucos sendo abraçada por milhões de eleitores, inclusive alguns que nele tinham votado. Temos que celebrar, mas sabendo que grande parte dos eleitores que deram a vitória a Lula votaram contra Bolsonaro, não votaram por nenhum projeto de sociedade, pois este foi um grande ausente em toda a campanha eleitoral. Ter consciência desse fato é fundamental para se pensar o novo governo, com o desafio enorme de reinventar-se, dar esperança ao povo, restabelecer a confiança nas instituições democráticas, criar uma nova liderança. Lula, com mais de 80anos, será capaz de reinventar-se? Perguntas que teremos que enfrentar. Mas isso, para mim, será assunto das semanas seguintes.

*Sociólogo, doutor em sociologia, professor associado II da Universidade de Brasília, ex- diretor do Centro de Desenvolvimento Sustentável/UnB (2007/2011).

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