sábado, 31 de outubro de 2026

O que uma boa eleição nos ensina? Por Juliana Diniz*

O Povo (CE)

Acreditando na política, participando ativamente das eleições, o brasileiro decidiu dedicar tempo e energia para a defesa de uma ideia de Brasil. Uma energia que atravessou os dois campos, cada um pleiteando o seu projeto de preferência

A democracia brasileira sai mais forte das eleições de 2026, e me refiro ao que boa parte da sociedade exercitou, compreendeu e reivindicou nos últimos meses. Vale a pena refletirmos sobre esses aprendizados de amadurecimento político.

Em primeiro lugar, eu ressaltaria a defesa forte da Constituição de 1988. Um dos pontos mais relevantes do debate vivenciado entre os dois turnos se deu em torno da proposta do candidato Flávio Bolsonaro de mudar a constituição. Sabemos que nenhuma constituição é eterna, mas a reação popular à possibilidade de uma mutilação da identidade constitucional foi digna de nota e obrigou o candidato a se explicar.

Falamos dos dispositivos relativos à ordem social, que contemplam, entre outros pontos, o mínimo obrigatório de despesa com educação e saúde, além da proteção ao trabalho. O brasileiro parece entender, mais do que nunca, que sua carta magna foi fruto de um trabalho constituinte minucioso, de qualidade, que se deu num período em que o país se comprometeu em pactuar um projeto de futuro baseado na solidariedade. Se atravessamos tantas crises e desafios nas últimas décadas sem caos institucional profundo, foi graças ao desenho de sistema que a constituição nos legou e que tem se mostrado muito resistente.

Um outro ponto importante foi a percepção, veiculada na imprensa e levada aos tribunais, da interferência indevida de uma empresa privada no processo eleitoral brasileiro, através de uma arma contemporânea poderosa: o algoritmo das redes sociais. Não podemos dizer que o Brasil continua ingênuo quanto aos riscos que uma sociedade corre por ficar tão vulnerável a interesses privados nem sempre claros. Fica a percepção de que um marco regulatório das plataformas é urgente e deve ocupar nossa energia legislativa nos próximos meses.

Penso que a mais valiosa lição foi a recuperação de afetos mais positivos, ligados à ideia de futuro. É algo mais difuso, mas muito perceptível nas manifestações de massa nas ruas. Acreditando na política, participando ativamente das eleições, o brasileiro decidiu dedicar tempo e energia para a produção de um certo resultado, para a defesa de uma ideia de Brasil. Uma energia que atravessou os dois campos, cada um pleiteando o seu projeto de preferência.

Esse engajamento é prova de que a democracia brasileira é consolidada, que o povo se sente investido de legitimidade para ocupar as ruas, exercer o direito ao voto e influenciar as decisões. Só posso ver isso como algo positivo, e que tem servido de inspiração para todas as nações do mundo ocidental que repercutem as eleições brasileiras e sua história extraordinária. O futuro é um sonho a ser conquistado, e mais uma vez as eleições nos ensinaram isso.

*Doutora em Direito (USP) e professora da Universidade Federal do Ceará

Nenhum comentário:

Postar um comentário