O Povo (CE)
Acreditando na política, participando
ativamente das eleições, o brasileiro decidiu dedicar tempo e energia para a
defesa de uma ideia de Brasil. Uma energia que atravessou os dois campos, cada
um pleiteando o seu projeto de preferência
A democracia brasileira sai mais forte das eleições de 2026, e me refiro ao que boa parte da sociedade exercitou, compreendeu e reivindicou nos últimos meses. Vale a pena refletirmos sobre esses aprendizados de amadurecimento político.
Em primeiro lugar, eu ressaltaria a defesa forte da Constituição de 1988. Um dos pontos mais relevantes do debate vivenciado entre os dois turnos se deu em torno da proposta do candidato Flávio Bolsonaro de mudar a constituição. Sabemos que nenhuma constituição é eterna, mas a reação popular à possibilidade de uma mutilação da identidade constitucional foi digna de nota e obrigou o candidato a se explicar.
Falamos dos dispositivos relativos à ordem social, que contemplam,
entre outros pontos, o mínimo obrigatório de despesa com educação e saúde, além
da proteção ao trabalho. O brasileiro parece entender, mais do que nunca, que
sua carta magna foi fruto de um trabalho constituinte minucioso, de qualidade,
que se deu num período em que o país se comprometeu em pactuar um projeto de
futuro baseado na solidariedade. Se atravessamos tantas crises e desafios nas
últimas décadas sem caos institucional profundo, foi graças ao desenho de
sistema que a constituição nos legou e que tem se mostrado muito resistente.
Um outro ponto importante foi a percepção,
veiculada na imprensa e levada aos tribunais, da interferência indevida de uma
empresa privada no processo
eleitoral brasileiro, através de uma arma contemporânea
poderosa: o algoritmo das redes sociais. Não podemos dizer que o Brasil
continua ingênuo quanto aos riscos que uma sociedade corre por ficar tão
vulnerável a interesses privados nem sempre claros. Fica a percepção de que um
marco regulatório das plataformas é urgente e deve ocupar nossa energia
legislativa nos próximos meses.
Penso que a mais valiosa lição foi a
recuperação de afetos mais positivos, ligados à ideia de futuro. É algo mais difuso, mas muito
perceptível nas manifestações de massa nas ruas. Acreditando na política,
participando ativamente das eleições, o brasileiro decidiu dedicar tempo e
energia para a produção de um certo resultado, para a defesa de uma ideia de
Brasil. Uma energia que atravessou os dois campos, cada um pleiteando o seu
projeto de preferência.
Esse engajamento é prova de que a democracia
brasileira é consolidada, que o povo se sente investido de legitimidade para ocupar as ruas, exercer o
direito ao voto e influenciar as decisões. Só posso ver isso como algo
positivo, e que tem servido de inspiração para todas as nações do mundo
ocidental que repercutem as eleições brasileiras e sua história extraordinária.
O futuro é um sonho a ser conquistado, e mais uma vez as eleições nos ensinaram
isso.
*Doutora em Direito (USP) e professora da Universidade Federal do Ceará

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