sábado, 3 de outubro de 2026

Com a menor folga desde 2002, Lula põe a biografia em jogo, por Thaís Oyama

O Globo

O presidente tem dado sinais de que está disposto a descer aos pântanos da política para buscar os votos de que precisa

Em abril, o presidente Lula dizia não ter certeza se disputaria a reeleição. No fim daquele mês, seu ministro-chefe da Secretaria de Comunicação Social, Sidônio Palmeira, foi autorizado a testar potenciais substitutos em pesquisas. O entorno do presidente descrevia seu estado de alma: de forma alguma Lula encerraria a biografia com uma derrota para o filho de Jair Bolsonaro. Naquele momento, Flávio Bolsonaro — que havia tirado de campo a candidatura Tarcísio de Freitas, ao ser ungido em dezembro candidato a presidente pelo pai — surpreendia com o crescimento nas pesquisas, tecnicamente empatado com Lula nos dois turnos.

Seis meses e muitos escândalos depois — além de uma fieira de programas e bondades do governo —, o Datafolha mostrou na quinta-feira um novo empate técnico entre Lula e Flávio no segundo turno e uma vantagem reduzida do presidente no primeiro. Desde sua primeira vitória, em 2002, o petista nunca chegou às portas da eleição com tão pouca folga. Naquele ano, a poucos dias da votação, Lula estava a olímpicos 24 pontos à frente de José Serra; em 2006, confortáveis 16 à frente de Geraldo Alckmin; em 2022, tinha 14 sobre Jair Bolsonaro. Agora, são minguados 4 pontos sobre Flávio, em votos totais. Na disputa por seu quarto mandato, Lula chega à boca da urna menor do que nunca.

A situação não pode ser atribuída à estatura do adversário. Flávio é um político de segundo escalão que o sobrenome promoveu a presidenciável. Seu currículo é modesto nos feitos e pródigo nas suspeitas: de rachadinhas na Assembleia do Rio a lucros inconvincentes numa loja de chocolates e amizades com milicianos e matadores de aluguel. Desde o governo do pai, acrescentou à lista a compra de uma mansão no Lago Sul em Brasília, de valor aparentemente incompatível com seus ganhos, e um pedido de R$ 134 milhões ao ex-banqueiro e atual presidiário Daniel Vorcaro, o “irmão” universal da República.

Não existe grandeza no adversário, mas uma redução do mito Lula — na cédula pela sétima eleição presidencial, das dez realizadas desde a redemocratização. Pesquisas qualitativas da Quaest feitas com eleitores independentes que votaram em Lula em 2022 revelam perda de empolgação com o petista e desejo de renovação. Nos levantamentos quantitativos, tanto da Quaest quanto do instituto Ideia, mais da metade dos entrevistados diz considerar que o presidente não merece outro mandato. O próprio PT reconhece: o maior adversário de Lula é o desejo de mudança de eleitores que veem no presidente o símbolo da continuidade.

Premido por um aperto eleitoral nunca antes experimentado desde 2002, Lula tem dado sinais de que está disposto a descer aos pântanos da política para buscar os votos de que precisa para vencer. Em entrevista ao Canal Livre, disse, sem constrangimento, ter dúvidas se era mesmo falsa a falsa notícia de que Flávio retiraria de Nossa Senhora Aparecida o título de padroeira do Brasil. Seguiu em comícios explorando a mentira já desmentida, mesmo ao custo de jogar católicos contra evangélicos. Anteontem, sua campanha pediu ao TSE que o eleitor não pudesse ver na TV o lugar que ele deixou vazio no debate a que escolheu não comparecer.

A decisão da juíza Estela Aranha, indicada por Lula, de suspender uma regra que a própria campanha petista havia aceitado entrou para o rol dos casuísmos que ameaçam a legitimidade das Cortes e promete deixar sequelas para muito além do debate cancelado.

Com um provável segundo turno pela frente, Lula ainda terá de decidir até onde aceita ir para vencer o filho de Bolsonaro. Em abril, temia apequenar a biografia com uma derrota. Corre o risco de obter o mesmo resultado com uma vitória.

Um comentário:

  1. O Lula vai perder apesar de toda bajulação e salamaleque de vocês jornalistas da Grande mídia
    O povo não aguenta mais esse país degradado social moral e economicamente
    Fora Lula!!

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