sábado, 3 de outubro de 2026

Decisão será fácil porque eleitor sabe onde o calo aperta, por Flávia Oliveira

O Globo

Não parecia que, quatro anos depois, trama golpista exposta, investigada e julgada, estaríamos novamente diante do risco de ruptura

A esta altura, resta pouco a dizer sobre a corrida eleitoral, entre os Poderes, acidentada; entre os eleitores, entediante. O que faltou em transparência e aprofundamento de propostas sobrou em protagonismo do Supremo Tribunal Federal (STF), ora por atos dos próprios ministros, ora pela judicialização recorrente por candidatos e legendas. Renato Meirelles, presidente do Instituto Locomotiva, em artigo aqui no GLOBO, classificou o pleito deste 2026 como a eleição do cansaço. É sentimento expresso tanto no excesso de trabalho, dívida, perrengue, frustração quanto na escassez de encantamento pela política e, pior, pela democracia.

Não parecia que, quatro anos depois, trama golpista de Jair Bolsonaro exposta, investigada e julgada, estaríamos novamente diante do risco de ruptura. Estamos. Míriam Leitão tem alertado em voz e texto o tanto que a defesa do regime anda negligenciada, numa corrida eleitoral com bolsonarismo competitivo e interferência estrangeira à espreita. Sob influência de Eduardo Bolsonaro e aliados lá radicados há mais de ano, os Estados Unidos têm atuado pela capitulação do Brasil à cartilha trumpista. Além de duas rodadas de tarifaço sobre exportações, houve sanção a autoridades; classificação de PCC e CV como organizações terroristas; pressão sobre a Justiça e o processo eleitoral; duas dezenas de inaceitáveis exigências comerciais; restrição de visto à embaixadora do Brasil em Washington; e até investida contra o Pix.

É verdade que faltou debate no período oficial da campanha, a partir de meados de agosto. Nas últimas semanas, os candidatos ocuparam-se de ataques mútuos e ao STF; aprofundaram pouco ou nada os planos de governo; abusaram de frases feitas e ideias rasas. Mas, por aí, se diz que mal uma eleição termina, outra começa. Pode ser que a disputa presidencial, de tão antecipada, tenha deixado tempo para os eleitores pensarem. Quem sabe o desinteresse de agora não seja fruto da reflexão exaustiva de antes? Há exemplos aos montes. Fico com um, as bets.

Nesta semana, tanto Quaest quanto Datafolha trouxeram dados robustos sobre a restrição total às apostas on-line, imposta por Medida Provisória assinada pelo presidente da República, Luiz Inácio Lula da Silva, há uma semana. Difícil imaginar que, em poucos dias, tantos brasileiros tenham se posto contra as bets, mesmo com times popularíssimos, Flamengo à frente, assumindo em praça pública a própria ludopatia financeira. Seria o fim do futebol se perdessem os patrocínios. Ao Datafolha, 78% se declararam a favor da proibição; à Quaest, 62%. Nas duas pesquisas, os resultados foram assemelhados em todos os grupos analisados: gênero, faixa etária, religião, região, escolaridade, renda. Brasileiras e brasileiros, analisou Felipe Nunes, diretor da Quaest, não apenas já tinham opinião formada, mas deram sinais claros de que enxergar uma medida como certa não tem relação direta com o voto. Assim, é possível ser contra bets e não escolher o candidato a presidente que canetou a decisão.

À luz do caminhão de conversas e estudos e relatórios e vivências, não parece errado inferir que os eleitores chegam, nesta véspera do primeiro turno de uma campanha aquém do desejável, com opinião formada sobre tudo. Ou quase tudo. O brasileiro experimentou, em anos recentes, vendaval, chuvarada, calor extremo. Sabe, portanto, que a emergência climática é real. Tem consciência de que o desmatamento, se agravado, pode levar a Amazônia ao ponto de não retorno. Passa tempo demais em meios de transporte caros e de má qualidade. Vive em condições habitacionais precárias, paga caro por direitos tornados serviços (água, luz, internet, gás). Não há quem não vá ao mercado ou à feira.

Mulheres brasileiras sabem do perigo da multiplicação das armas de fogo em mãos civis. Mães já se deram conta dos riscos do território livre das redes sociais para crianças e adolescentes. Favelados perceberam que a política de confrontos nos territórios ceifa vidas, mas não reduz o crime. Nos lares de baixa renda, está claro que é justa a correção monetária para recompor o poder de compra do Bolsa Família, tal como a classe média aprovou a isenção de Imposto de Renda para quem ganha até R$ 5 mil. Trabalhadores, mesmo os autônomos, empreendedores por conta própria, compreendem que a jornada excessiva, sem folga, sequestra tempo da família, do descanso, do lazer. Católicos e macumbeiros aprenderam a reagir à intolerância de líderes evangélicos inimigos do Estado laico.

Todo mundo sabe onde o calo dói. Já deu para distinguir barbárie e civilização; necropolítica e bem viver; mentira e verdade; subordinação ou altivez. Amanhã, o Brasil vai às urnas escolher de que lado ficará. Bom voto.

 

 

 

2 comentários:

  1. Com a vitória do Flávio essa tal trama golpista será esmiuçada , investigada e vai se descobrir a grande trapaça jurídica feita para prender o Bolsonaro e os conservadores de direita
    Antes disso será dado anistia ao presidente Bolsonaro e as centenas de pessoas inocentes que estão presas injustamente sem o devido processo legal e direito às defesas
    A verdade será revelada e essa grande farsa do 8/1 vai ser exposta no mundo todo como grande golpe de Lula e o ST F contra a democracia brasileira

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  2. da mídia tradicional brasileira foi e é a principal aliada do governo No golpe de 2023e ajudou a sustentar essas mentiras

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