O Estado de S. Paulo
Proposta de perdão aos condenados se renova sob o signo do oportunismo em vez da Justiça
Como seria uma “política da justa memória”?
Essa preocupação moveu o filósofo Paul Ricoeur a uma reflexão sobre o saber
histórico, as manifestações da memória e o esquecimento, ou seja, como
representamos o passado. Eis um tema indissociável do presente: como recordar o
que se passou na última década?
Os erros e abusos da Operação Lava Jato criaram impunidade, mas não apagaram os crimes. O esquecimento e o abuso da memória levaram a Daniel Vorcaro, quando o caráter pedagógico da pena se transferiu à impunidade. Mudaram os personagens, mas a corrupção continua. E as suspeitas também: antes, tudo era dinheiro para campanha eleitoral; agora, é para filme.
Operação semelhante envolve a tentativa de
golpe em 2022. Generais dão como certo que tudo será anulado. Há quem ache
normal um filho querer tirar o pai da cadeia. Pode ser. E se o filho é
candidato à Presidência e o pai foi condenado pelo pior crime que se pode
cometer na República: aspirar à tirania? Um presidente pode muitas coisas, mas
não tudo. Ou não deveria.
O poder que submete a Justiça à exceção é o
que Carl Schmitt advogou em face da divisão social. Diante do “se eu quero,
posso e devo” resta aos súditos a servidão voluntária? É verdade que nenhum
fato da década está entre o injustificável, o imprescritível ou o imperdoável,
mas também não pode ser apagado.
Ricoeur, Hannah Arendt e outros exploraram as
similitudes entre o trabalho do juiz e do historiador – e do jornalista – com
testemunhos, documentos e a escrita. Eis uma tradição antiga: Shemá (ouve),
Israel! A oração é também memória, aquela do Êxodo, uma memória da qual tudo
depende, da qual deriva, ao mesmo tempo, a obrigação de escrever a verdade
sobre acontecimentos, que se renova no presente. Esse chamado reverbera nos
cronistas do pós-guerra.
Em artigo no Corriere della Sera, de 25 de
abril de 2001, o jornalista Enzo Biagi escreveu: “Há um tempo na vida em que
mais do que as esperanças contam as recordações; e não é preciso ter medo
disso”. Biagi tratava do tempo em que lutou contra a ocupação alemã, na 2.ª
Guerra. E concluiu: “É justo não reacender velhas paixões e rancores, mas sobre
princípios não se podem estabelecer tratativas”.
Fala-se em anistia como vontade imperial; e,
sem reconciliação, apagar o passado. Não há paz, só a força por cima da lei? Ou
teremos um acordo em que todos se salvam, até Vorcaro? Karl Jaspers dividiu em
quatro as modalidades da culpa: a criminal, a política, a moral, que é
individual e ligada às decisões e princípios éticos de cada um, e a metafísica,
a falta de solidariedade humana. O pai negava a vacina; o filho, o golpe.
Vivemos tempos difíceis. E, depois, voltará o sol?

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