quarta-feira, 21 de outubro de 2026

A Internacional Autoritária é a maior ameaça dos nossos tempos, por Rui Tavares

Folha de S. Paulo

Perigo do autoritarismo ainda é subestimado

Minha gratidão a todos os que fazem a luta gloriosa, sempre insatisfeitos, de coração nas mãos, com medo pela democracia

Tem já mais de uma década o debate entre aqueles que alertam para o perigo de uma deriva autoritária nas nossas democracias e quem considera que esse perigo está sendo exagerado. A minha posição nesse debate é clara: acho que o perigo do autoritarismo ainda é subestimado.

Uma coisa é o debate (interessante, mas em boa medida acadêmico) sobre se o novo autoritarismo pode ser comparado com o fascismo do século passado. Alguns puristas consideram que, enquanto não estiverem preenchidas todas as características do fascismo original, não se pode usar a palavra para a sua variante.

Trata-se de uma exigência impossível de atingir: nem no fascismo original todas as suas versões foram idênticas. Mais importante, porém, é entender: o que fariam os tiranos de cem anos atrás com as possibilidades de hoje?

É aí que chegamos à conclusão de que não estamos ainda suficientemente assustados. Os tiranos de cem anos atrás não tinham armas nucleares. Hoje vivemos esperando que Donald Trump e Vladimir Putin não sejam tão loucos quanto aparentam ser.

Os tiranos de cem anos atrás não tinham uma ferramenta de vigilância e controle tão completa quanto são as redes sociais e a internet nos dias de hoje. E a verdade é que nada se consegue fazer atualmente, incluindo lutar contra os autoritários, sem usar as redes sociais e nos expormos aos seus donos, que são eles próprios autoritários ou aliados de autoritários.

Os tiranos de cem anos atrás não dispunham ainda da possibilidade de dominar a inteligência artificial. Hoje veem essa possibilidade ao virar da esquina.

Restou-nos, enfim, quando mais nada dava certo, esperar que os tiranos morressem de morte natural. Há uns anos, contudo, um microfone apanhou uma conversa entre Putin e Xi Jinping sobre a possibilidade de prolongar drasticamente a vida humana. Se lá chegarmos podemos ter a certeza de que os primeiros beneficiários não vão ser os pobres nem os cidadãos comuns, mas os autoproclamados "homens fortes" (e, de fato, quase todos homens) das oligarquias, da alta finança e do poder.

Finalmente, temos de encarar uma realidade: os nossos autoritários estão bem mais unidos do que os tiranos de cem anos atrás. Não interessa qual a ideologia, a nação ou o credo, a cola que os une é a sua profunda e total corrupção.

De Trump a Putin, passando por Binyamin Netanyahu e por todos os seus imitadores pelo mundo fora, com destaque para a América Latina, não há um que não esteja impregnado de um total despudor na hora da roubalheira.

Mais ainda, essa obsessão comum leva-os a coordenarem-se e apoiarem-se mutuamente. Por isso os democratas estão divididos em muitas correntes —sociais-democratas, liberais, ecologistas, progressistas vários— mas os autoritários fazem todos parte da mesma Internacional, mesmo que ela não seja assumida.

Por isso a luta contra a Internacional Autoritária é a luta das nossas vidas, em cada país onde ela se trava. Ela obriga-nos a votar pelo mal menor, a sair para a rua com quem não concordamos e a improvisar para resistir nas redes. Sempre insatisfeitos, de coração nas mãos, com medo pela democracia.

Mas é uma luta gloriosa. A minha gratidão a todos os que a fazem, aí também onde me leem.

 

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