terça-feira, 20 de outubro de 2026

Mentiras do bolsonarismo na economia, por Míriam Leitão

O Globo

Flávio Bolsonaro copia propostas de Lula e diz que fará muito mais. Mas nas reuniões com a Faria Lima, promete tudo o oposto

Na economia, essa campanha virou uma disputa de quem faz mais populismo fiscal. Flávio Bolsonaro copia as proposta de Lula e aumenta ainda mais as despesas. Lula prometeu que o Tesouro compraria dívidas velhas dos endividados exigindo dos credores um desconto. Flávio pegou carona na proposta e disse que vai comprar também, mas vai congelar a dívida restante das pessoas físicas por seis meses, e, das pessoas jurídicas, por um ano. Qual a diferença entre os dois caminhos econômicos? Lula está fazendo propostas elaboradas por sua equipe, depois de estudos. Pode-se discordar, mas tem lógica. Flávio Bolsonaro está copiando tudo o que Lula anuncia, elevando as ofertas numa espécie de leilão de populismo.

As propostas de Lula são expansionistas. As de Flávio são uma cópia improvisada das de Lula e ainda mais expansionistas. Só que ele está prometendo ao mercado financeiro um corte de gastos de R$ 200 bilhões. Outra diferença é que Lula apresentou um saco de bondades com a intenção de cumprir. E isso se vê até pela delimitação mais precisa da população alvo da política pública. Flávio Bolsonaro está propondo sem ter feito os estudos prévios porque está pegando carona no que o seu oponente disse.

Lula propôs a compra de carteiras das dívidas, mas estabeleceu métodos e limites. Serão dívidas bancárias e não bancárias de até 10 mil reais no valor original. As dívidas atingidas pelo programa são as de mais de dois anos e de menos de quatro anos e meio. O Tesouro vai fazer um leilão para que os credores ofereçam descontos, mas avisará que quer pelo menos 90% de desconto. Com essa delimitação, o universo de dívidas será de R$ 150 bilhões e o custo total deve ficar em torno de R$ 15 bilhões.

Flávio Bolsonaro repetiu Lula no debate da Band e disse que ele também vai comprar a dívida. Mas fará mais. Vai congelar a dívida remanescente.“Você não vai pagar boleto nenhum, seis meses congelado, sua dívida parada e você que é pessoa jurídica esse prazo é de um ano, um ano sem pagar os boletos das suas dívidas atrasadas”. Ficará uma parte para ser paga. “A sua parcela que você pagava R$ 100, R$ 200, vai chegar a R$ 20 e a R$ 30”. Mas isso será refinanciado pela Caixa.

Essa proposta é evidentemente mentirosa, além de confusa. Como Flávio Bolsonaro não delimita nada, o valor ou o tempo da dívida, a conta vai ao infinito. A proposta genérica é para atrair todos os endividados. O montante da dívida total em atraso é R$ 592 bilhões e o universo dos endividados é de 84 milhões de pessoas.

Ao mercado, ele garante que cortará R$ 200 bilhões no primeiro ano. Em certos momentos, diz que o dinheiro virá da redução dos supersalários. O governo Lula propôs esse corte e o Congresso se recusou a analisar a proposta. O Judiciário entrou para diminuir os exageros, mas na prática elevou o teto. Mesmo se fosse o limite anteriormente fixado, e fosse possível acabar da noite para o dia, o governo não conseguiria economizar nem 10% do que está prometendo.

Flávio Bolsonaro disse no debate da Band o seguinte: “O simples fato de Flávio Bolsonaro virar do primeiro para o segundo turno na frente, a taxa de juros futuros já caiu 2%. Com essa dívida que o atual governo está deixando de R$ 11 trilhões, se você fizer uma conta rápida, com Flávio Bolsonaro presidente da República, muito rapidamente você já vai ter um espaço no orçamento de R$ 200 bilhões. Sabe o que eu vou fazer com isso? Eu vou ajudar você a pagar a sua dívida”.

Isso é uma heresia econômica e monetária. Não se usa a “economia” com o custo menor da dívida pública para ampliar gastos. Se Lula falasse algo assim seria crucificado na Faria Lima.

A estratégia de Flávio é a seguinte: fugir das perguntas pela tangente, repetir à exaustão propostas na segurança pública que não resolvem o problema mas parecem efetivas, partir para o ataque quando é confrontado com os muitos indícios de corrupção dele e da família Bolsonaro, copiar todas as propostas econômicas de Lula, dizendo que fará o mesmo e muito mais. Nas reuniões, a portas fechadas no mercado financeiro, ele diz o oposto do que diz em público. É manipulação populista.

Criando confusão nos debates, nas entrevistas e nas postagens, Flávio Bolsonaro escapa da pior questão que pesa sobre ele: o risco real que ele representa para a democracia, por tudo o que já disse e por tudo que o bolsonarismo sempre defendeu.

 

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