Folha de S. Paulo
Campanha de 2010 também teve questão
religiosa oportunista; 2026 é muito pior
Selvageria que tira carne e medula do osso
das instituições é a nova regra do jogo
A eleição para presidente de 2010 teve
"guerra santa". Era um indício de que o caldo político começava a
azedar. A gente não sabia então que se tratava do começo do caminho para o fim
da picada.
Uma campanha odienta, início de desarranjo econômico, mudança institucional quase parando e corrupções eram problemas, mas talvez transitórios —até para um pessimista. A "guerra santa" de 2026 é aspecto menor do buraco em que nos metemos.
Dilma
Rousseff (PT)
foi chamada de "abortista" na campanha de 2010. Anos antes, dissera
que a interrupção voluntária da gravidez era assunto de saúde pública. A
campanha de José Serra
(PSDB)
se valeu do rótulo que ajudou a carimbar na adversária.
Sacerdotes católicos distribuíam panfletos ou
faziam sermões contra o aborto. Havia correntes de e-mails sobre o assunto.
Perto do que se vê hoje, parecia até querela teológica.
A campanha de Dilma na TV passou a ressaltar
a "formação moral e religiosa" dela. Serra fazia caminhada com padres
e beijava terços. No segundo turno, Dilma e Serra foram a Aparecida. Serra
dizia que o PSDB não inventara a "questão religiosa" na eleição; que
o governo do PT havia criado suspeitas ao aprovar o Terceiro Plano Nacional de
Direitos Humanos (de 2009), prato cheio para conservadores e oportunistas, além
de cheio de disparates de fato.
Na "guerra santa" de 2026, uma
mentira diz que Flávio
Bolsonaro (PL)
apoiaria um projeto para
tirar de Nossa Senhora Aparecida o título de padroeira do Brasil. No
mais, é verdade que rumores exploram o fato de que certos grupos evangélicos,
alguns aliados do bolsonarismo, fazem campanha contra a igreja católica e suas
formas de culto (e contra o candomblé e a umbanda também). Lulistas são
acusados de instigar conflito religioso a fim de tirar voto do adversário,
assim como bolsonaristas. É verdade.
O comentarismo observa a suposta ironia da
situação, de bolsonaristas "provarem do próprio veneno" das "fake news"
—é verdade. Condena lulistas dizendo que não existem "fake news" do
bem —é verdade. Mas é parte pequena da verdade saber quem prova qual veneno ou
começou a usar gás mostarda nas trincheiras. O que não implica dizer que a
balança da desrazão está equilibrada. Jair Bolsonaro colocou Deus
acima de tudo no seu mote político, fez da propaganda e da mentira
digitais o núcleo de seu movimento político. Presidente, dizia que haveria
eleição apenas de acordo com sua vontade e tentou um golpe.
Importante é que o padrão da disputa política
se tornou o vale-tudo. Quem ignorar
as novas regras do jogo se arrisca a perder a eleição, voto do
Supremo ou as graças podres do Congresso. Não se trata de dizer que
"bonzinhos" apenas reagem, essa conversa infantil. Trata-se de
atitude que transforma instituições em esqueleto sem carne e sem medula. Daqui
a pouco, pode ser que nem mais esqueleto exista.
O vale-tudo foi a tônica da República até a
Constituição de 1988. Sempre haverá quem queira esticar a corda. Mas, com boa
vontade, se pode dizer que houve alguma contenção de 1992 (impeachment de
Collor) a 2014.
Vale-tudo haverá até que a selvageria perca
eficácia, o que é difícil de acontecer sem reconstrução política. Isto é,
forças sociais que criem ou influenciem movimentos e partidos políticos que
reajam ao projeto de destruição institucional e democrática, o que não está no
horizonte. "Guerra santa" é pouco. É outro sintoma de coisa muito
pior.
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