segunda-feira, 26 de outubro de 2026

Horizonte de ruptura, por Eduardo Sombini

Folha de S. Paulo

Para autor, a revolução digital impõe mudança profunda na democracia que tornará o Legislativo em parte obsoleto

Cientista político aponta crise do presidencialismo de coalizão e defende refundação da República; leia trechos

Em um artigo publicado em 1988, Sérgio Abranches cunhou o termo presidencialismo de coalizão para nomear o sistema político-partidário brasileiro —um regime sem paralelo no mundo, de acordo com o pesquisador.

Abranches argumentou que, em um cenário com um grande número de partidos e em que nenhum deles obtém maioria no Congresso Nacional, o presidente precisa negociar com forças políticas muito heterogêneas e sem enraizamento ideológico para conseguir governar. Cargos e emendas parlamentares passam a ser as principais armas à disposição do chefe do Executivo.

No livro "Presidencialismo de Coalizão" (Companhia das Letras), lançado em 2018, ele analisa a evolução do regime político do país desde a Constituição de 1988, análise que agora alcança, com a publicação de uma edição revista e ampliada da obra, os governos Jair Bolsonaro e Lula 3.

Neste episódio, Abranches discute os contornos da crise atual do sistema político-partidário brasileiro, indicando uma ruptura nas eleições de 2018 e o aprofundamento da crise em 2022.

O autor discute o crescimento da instabilidade nas relações entre a Presidência e o Congresso desde o impeachment de Dilma Rousseff (PT)—ele diz que, se antes as coalizões eram móveis, elas se tornaram líquidas— e o risco de o país ficar ingovernável sem um redesenho das instituições e do próprio funcionamento da sua democracia.

Abranches também aborda o que chama de mentalidade da casa-grande entranhada na sociedade brasileira e do pêndulo entre democracia e autoritarismo que marca a história do país, temas que ele debate em outro livro recém-lançado, "A Terceira Margem do Ipiranga".

Leia abaixo os trechos principais da entrevista.

As origens da crise do presidencialismo de coalizão

A crise começa no impeachment de Dilma. A saída do MDB do governo para a conspiração pelo impeachment fez uma diferença muito grande, porque o MDB sempre foi um pivô de estabilização das coalizões do PT —da mesma forma que o PFL foi das coalizões de Fernando Henrique Cardoso.

Michel Temer transferiu uma parte do poder de decisão para o Congresso porque tinha medo de sofrer impeachment. Jair Bolsonaro não quis fazer coalizão ou governar com um arranjo partidário e acabou caindo refém do orçamento secreto de Arthur Lira, que absorveu poderes do presidente sobre a execução do orçamento. Isso se cristalizou ao longo do tempo. Foi essa a primeira origem.

A segunda foi porque as eleições de 2018 e de 2022 praticamente destruíram o poder de aglutinação no Congresso do Democratas, que desapareceu no União Brasil e se descaracterizou completamente, e do MDB. Houve crescimento dos partidos do centrão e, dado que o PSDB também desapareceu e saiu do eixo presidencial, substituição pelo PL, que foi para a extrema direita. Houve uma mudança radical nas condições —eu diria estruturais— para o presidencialismo de coalizão funcionar.

Novas relações entre Congresso e Presidência

Historicamente, o Brasil não tem partidos ideológicos ou programáticos nem o sistema eleitoral faz com que os partidos tenham que apresentar programas para valer. No parlamentarismo, o programa é fundamental, porque orienta a formação do governo e, se o Parlamento considerar que o primeiro-ministro não está seguindo o programa, ele cai. No presidencialismo, não tem um mecanismo desse.

O presidente, para poder formar uma coalizão, precisa de outros instrumentos: cargos e orçamento. Cargos para prestígio e poder para disputar as eleições nos redutos eleitorais e dinheiro para irrigar os redutos eleitorais. Se o Congresso passa a ter poder e recursos suficientes para isso, passa a prescindir do presidente. O incentivo para fazer parte da coalizão e, sobretudo, para ser leal diminui muito fortemente. Com isso, o presidente fica sem capacidade de fazer funcionar a sua coalizão no Congresso.

Retrocesso do regime democrático

Acho que retrocedemos. Se a gente olhar o presidencialismo de coalizão de 1994 até o final do primeiro mandato de Dilma, ele funcionou muito bem. Mesmo assim, a judicialização da política aumentou. À medida que começam as fricções e as dificuldades, a judicialização aumenta exponencialmente. A gente está no auge da judicialização. Isso leva o Supremo a uma politização que acaba tendo consequências negativas para ele.

Neste momento, acho que a crise é grave e que, se a gente continuar nesse diapasão —ou pior, se começar a mexer nos instrumentos democráticos para afrouxá-los e fazer com que o presidente possa ter mais poder autocrático—, estamos caminhando para uma destruição do modelo político que fez com que o regime democrático fosse bem-sucedido a partir da redemocratização de 1988.

Um governo espremido

Quando você tem a coalizão móvel, se o presidente negocia bem, consegue resolver o problema. Foi o que aconteceu nos primeiros governos Lula e no governo FHC. A capacidade de articulação presidencial era alta e funcionou. No caso de Dilma, era mais difícil. Ela tinha maior dificuldade para levar adiante essa articulação.

No Lula 3, teve esse problema. Ele ficou com menos recursos para poder manejar a coalizão —os incentivos e os instrumentos que os politólogos chamam de "toolkit" (caixa de ferramentas) do presidente. Ao mesmo tempo, ele se isolou muito. Acho que Lula achou que tudo já estava garantido. Ele fez um ministério muito do PT, e os partidos do centrão que ele levou para o ministério não conseguiam fazer com que os seus pares no Congresso acompanhassem a vontade do presidente.

Ele ficou espremido, mas também se isolou. Pode ter sido uma reação ao fato de não ter mais conversa no Legislativo, mas ele fez um governo muito fechado e articulou pouco com o Congresso —ou porque não quis ou porque teve dificuldade demais e desistiu.

Instabilidade e radicalização

Os antigos PFL e PMDB estavam acostumados a não ter a maior bancada e a ter o partido-âncora, do presidente, com a maior bancada. Mas eles tinham bancadas poderosas e conseguiam fazer o papel de pivô.

[Em caso de vitória de Lula], com esse MDB diminuto e dividido —porque pouco mais da metade dos diretórios foi para Flávio e a outra ficou com Lula—, não tem muita ponte. Ele vai ter que conquistar isso através de partidos como o PSD, que ainda tem muita gente que seria simpática a participar de uma coalizão de governo com Lula. Mas ele vai ter uma oposição radical demais, muito fechada e muito forte, o que gera instabilidade.

O PT também fez uma bancada grande, a segunda maior, e tem capacidade de fazer uma oposição forte. Mas a facilidade que Flávio terá [se vencer] para trazer para si o centrão vai fazer com que a oposição do PT com a esquerda não seja muito eficaz. Ele vai ter a liberdade para fazer a radicalização e as mudanças que quiser.

Entre a oligarquia e a autocracia

O PL tem dois grupos: o menor é um grupo de velhos políticos que aderiram à extrema direita —os oligarcas que já dominavam outros partidos e foram para o PL— e a maior parte são políticos novos, genuinamente de ultradireita. O problema é que o PL, por conta desse mínimo hibridismo, consegue falar com outros partidos.

Acho que essa coisa da direita e da extrema direita não é uma invenção e não surgiu agora. A eleição de Jair Bolsonaro autorizou uma porção de gente enrustida, que ficava no subterrâneo da política, a sair e defender causas muito de direita, além de muita gente na sociedade contrariada com os avanços civilizatórios que o Brasil teve. É um fenômeno novo, no sentido de que havia um certo constrangimento na política brasileira a esses arroubos ultrarradicais.

Durante muito tempo, Jair Bolsonaro foi considerado uma figura menor e meio anedótica, como teve outras. Só que esse Enéas conseguiu se eleger presidente, fazer uma base de apoio muito fiel e está apoiando o filho. É uma vertente de política que o Brasil nunca tinha tido —tinha tido uma ditadura militar, com aqueles políticos que foram cooptados pelos militares na Arena.

Alguns herdeiros desses políticos estão no PL agora. Tem uma linha de continuidade com o autoritarismo, e a genética deles não está impregnada do DNA da democracia.

A mentalidade da casa-grande

Comecei esse raciocínio pela tentativa de golpe de Bolsonaro e pelas mudanças que o mundo está passando com a revolução digital. Queria saber por que que o Brasil tem essa propensão ao autoritarismo depois de ter passado por tanto trauma e por ter lutado pela democratização de forma muito intensa.

Acho que todos os momentos de mudança de regime no Brasil, todos entremeados de reações autocráticas contra os avanços que eram feitos a cada momento, mostram uma pulsão autoritária entranhada na nossa história. A gente consegue ver que esses interregnos autoritários são o ressurgimento da mentalidade da casa-grande.

A casa-grande, a instituição privada que deu origem à nação brasileira, constituía todas as relações sociais de poder —estavam ali e subordinadas ao seu senhor. Quando ela desaparece na Abolição, essas relações se transformam em uma mentalidade que passa a ser contrabandeada para as novas instituições para que esses interesses persistam.

Por trás de toda essa evolução, está o que eu chamo de lavoura arcaica: o agro muito reacionário, a despeito de um pedaço ser internacionalizado e tecnologizado. Apesar disso, ele sustenta as pulsões autoritárias e os comportamentos contra a abertura da sociedade.

A terceira margem

Durante todo o período sob o domínio tanto da casa-grande quanto da mentalidade da casa-grande, a terceira margem, a parte discriminada e bloqueada de participar, nunca se conformou. Ela sempre resistiu e se rebelou. Por outro lado, sempre encontrou incluídos aliados poderosos para que houvesse abertura na sociedade.

Com a ditadura militar, a mentalidade da casa-grande se exacerbou. Isso fez com que o movimento de rejeição a essa mentalidade fosse mais forte, tanto que a Constituição foi muito revolucionária. Depois de 1988, foram feitos novos avanços, o que provocou uma reação muito forte da população que sente que perde com essa abertura para os outros.

Essa história do Brasil que vai entre o polo autoritário e o polo democrático tem raízes estruturais. Vamos continuar nesse embate até que o Brasil se firme como uma sociedade democrática. Acho que não tem muito espaço para que os regimes autocráticos vivam muito tempo neste momento de mudanças muito fortes da sociedade digital, porque vão acabar descontentando mais gente que contentam. Vamos continuar nesse pêndulo histórico rumo a uma democracia mais forte e estável.

Experimentos para lidar com a crise

A gente precisa de soluções de transição. Por exemplo, tem um descompasso forte entre o que uma parte dos jovens aprenderam e o que será demandado no novo mundo digital. Eles precisam de um período de reaprendizado e tem que ter alguma solução para eles não ficarem desprotegidos. Tem uma parte que vai ter que ser para sempre: os mais velhos que não consigam se adaptar à nova sociedade.

A política tem que ser mais seletiva e transitória, mais de curto prazo para criar pontes para facilitar o caminho dessas pessoas na direção da sociedade digital. Não é fácil de fazer, mas é necessário porque muita gente vai precisar e o Estado não tem capacidade de atender todos o tempo todo. Ele tem que saber a quem atender a cada momento de emergência nessa transição. É o formato da decisão e a forma de olhar para a sociedade, não mais como grandes blocos homogêneos —pobreza, classe média etc.—, mas blocos que estão em momentos diferentes nessa mudança rápida da sociedade analógica para a digital.

Raiva e ressentimento

Ainda não tem tido avanço. Os problemas mudam, mas a natureza deles continua. Um exemplo da conjuntura atual: por que a avaliação de Lula está tão baixa se o desemprego e a inflação estão baixos? Tem um descompasso entre o que está acontecendo na economia e a sensação de desconforto da população com os preços. Uma boa parte da preleção raivosa da campanha de Flávio é sobre os preços. As pessoas estão ressentidas e com raiva porque tiveram uma expectativa que foi frustrada. Isso é bem explorado pela direita.

Quando a extrema direita está no poder, apesar de toda a repressão que faz, essa insatisfação vai virar contra ela porque ela não vai conseguir dar soluções para esse processo de mudança e cumprir essa promessa. Nenhum governo hoje no mundo consegue agradar suficientemente a sua população para ter garantida a reeleição. É por isso que tem tido tanta alternância no poder e que até os governos de direita, como o de Viktor Orbán, caem. A insatisfação vai aumentando e, a partir de um momento, fica incontrolável.

Um cenário de ruptura

Nem toda ruptura é negativa. Vamos ter muita mudança em todas as áreas da sociedade com a revolução digital. Essas mudanças vão afetar também o sistema político e a forma de representação. Os parlamentos vão ficar obsoletos em parte. Vamos ter que imaginar novas formas democráticas na sociedade digital.

Os regimes políticos vão sofrer ruptura no sentido de que eles vão parar de funcionar bem e vão ter que ser reformados. Estamos falando de transição profunda, estrutural. Estamos falando de crise, porque, durante um período, a velha ordem ainda funciona, mas vai funcionando cada vez pior, e a nova ainda não está suficientemente madura. Você não consegue resolver isso bem, você consegue ir mitigando. Por isso, falo em medidas de transição: são medidas de mitigação desse estresse provocado por alguns anos de crise enquanto as novas soluções não começam a aparecer.

Os governos ficam tentando velhas soluções que também não vão funcionar, e você precisa ter algum tipo de mecanismo de mitigação dessas crises. Não pode ser o Judiciário, porque o Judiciário julga com o passado. É uma sociedade que está se movendo para a frente, mas o caminho é muito penoso e muito cheio de problemas. A gente não sabe muito como lidar com eles.

Uma refundação da República

Essa refundação significa trazer para a política novos atores, que tenham mais percepção e mais sensibilidade em relação ao que está acontecendo no chão da sociedade, começando a liberar o sistema político de grupos que estão associados a setores muito específicos. Isso é típico das democracias que se institucionalizam: os parlamentares passam a ter uma base, a se reeleger com essa base e não olham para o resto.

Não é só a sociedade dando solução de baixo para cima. Acho que é preciso ter isso, mas também que aqueles que pensam mais na engenharia política das coisas, em criar processos decisórios e em formular políticas públicas comecem a olhar para essa transição e os seus problemas e para o futuro. Como vamos construir sistemas políticos democráticos que sejam compatíveis com a sociedade digital, que não tornem o sistema político completamente desconexo da sociedade, provocando crises ainda maiores que sabe-se lá aonde vão chegar?

Tem um movimento meio inevitável: descentralização do poder nas sociedades, quer dizer, nas cidades. É mais fácil resolver esses problemas específicos mais próximo do chão da sociedade e de grupos menores que pensando a população inteira. O processo de descentralização talvez seja um movimento necessário para a democracia sobreviver a essa transição.

A digitalização da democracia

A ideia da democracia deliberativa nunca funcionou. Sempre foi tecnologicamente inviável fazer as pessoas participarem de debates, e querer que a decisão final fique na mão da massa é não entender como a democracia funciona. A democracia precisa de filtros que vão apurando essas decisões para que sejam minimamente viáveis e não sejam totalmente contra as outras partes da sociedade —tem que proteger as minorias.

Consigo ver várias camadas de processos decisórios e de participação que vão do digital até a representação política, mas uma representação política que também vai se formar no digital. Vi uma matéria olhando a bancada digital pelo lado negativo, mas vejo pelo outro lado: gente que fez pouca campanha de comício na rua e pouco contato face a face com os eleitores, mas conseguiu arregimentar apoios significativos pela via digital.

Se essa bancada digital é verdadeira e esse embrião vinga, a gente pode imaginar a digitalização entrando na representação parlamentar. Com isso, ela vai criando os mecanismos de forma mais espontânea, que deverão no futuro ser mais bem institucionalizados para fazer essa estrutura digital da democracia.

Isso leva muito mais diretamente essa ideia da consulta popular para dentro da decisão do Congresso. Vai enriquecer o debate parlamentar e dar a ele mais instrumentos para que ele, de fato, cumpra a vontade popular e não apenas a vontade de financiadores ou de pequenos grupos de eleitores que conseguem eleger os seus deputados.

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