Folha de S. Paulo
Desequilíbrio
cada vez maior de poder e responsabilidade vem tornando o sistema disfuncional
Congresso
administra recursos bilionários sem sofrer pressão do eleitorado e sem
responder por seus atos
[Resumo] Resultado
das eleições para o Congresso deve acentuar
distorções graves na política brasileira. Há mais de uma década o Legislativo
ampliou consideravelmente suas atribuições, controlando o Orçamento público com
emendas parlamentares bilionárias e derrubando cada vez mais os vetos
presidenciais. Não responde, contudo, pelo resultado fiscal ou pela
implementação de projetos para o país, responsabilidades que recaem sobre a
figura enfraquecida do presidente da República, o que eleva e deturpa os custos
da barganha para o Executivo contar com apoio de congressistas em votações.
Texto a seguir apresenta propostas para ampliar governabilidade e distribuir de
forma mais justa bônus e ônus entre os Poderes.
O quadro que
emergiu das eleições mostra o seguinte panorama:
1) Partido mais
votado para a Câmara dos Deputados, o PL elegeu 121 parlamentares, em um universo de 513
vagas, ou seja, 24% do total.
2) Para montar uma
coalizão que forme uma maioria para aprovar reformas constitucionais (que
necessitam do voto favorável de no mínimo 308 deputados) é preciso juntar pelo
menos seis partidos.
3) No caso do Senado, a fragmentação se repete. O PL elegeu 19 senadores e terá também a maior bancada, 28 congressistas em um total de 81. Mudanças na Constituição dependerão do apoio de ao menos 49 congressistas, o que significa ter um bloco coeso de pelo menos quatro partidos.
O quadro se
complementa com a avaliação de que, para qualquer assunto relevante em que se
pense, há algum componente que poderá requerer a aprovação de uma PEC (proposta
de emenda constitucional).
Vai ser votado um
novo regime fiscal? Dependendo das características, exigirá mudar alguns
artigos da Constituição. Reforma administrativa? Algumas regras podem ser
modificadas com medidas infraconstitucionais, mas a tradição reformista sempre
enfatizou o papel chave das mudanças na própria Constituição.
E assim a
realidade se afasta do "nirvana" de qualquer presidente da República,
em que 257 deputados e 41 senadores seriam suficientes para permitir governar.
Um dos problemas
que o país precisa resolver é a crescente distância entre poder e
responsabilidade. O presidente continua sendo, para o eleitor, o rosto do
governo. Porém, o Congresso controla uma parcela crescente do orçamento,
desafia vetos presidenciais com frequência inédita e adquiriu uma autonomia que
não corresponde à imagem tradicional de um Legislativo dependente do Executivo.
Com o resultado
das eleições de 4 de outubro, a capacidade de o Legislativo deslocar o centro de
decisão política para si a partir de 2027 se tornou ainda maior.
Quem decide a
alocação dos recursos? Os parlamentares. Mas de quem é o ônus quando da soma de
aprovações inconsistentes emergem consequências indesejadas, sejam elas uma
produtividade rastejante, uma dívida pública explosiva e/ou pressões
inflacionárias? Do governante de plantão.
Enquanto o Executivo
sofre os ônus do desajuste fiscal, suportando as críticas da accountability
político-econômica, e o Judiciário mobiliza o debate público, o Legislativo se
blinda, confiando na cegueira do eleitorado. Essa é a verdadeira imunidade
parlamentar.
Como exigir
prestação de contas, se o eleitor nem sequer se lembra em quem votou nas
últimas eleições? Como tratar de responsabilidade política, se a população não
consegue citar três congressistas? Como cobrar coerência a um programa, se ele
não é discutido?
Acresça-se a isso
a mudança do "meio ambiente institucional" ocorrida ao longo dos
últimos 10 a 15 anos, em que a combinação de fundo partidário, financiamento
eleitoral e, principalmente, os recursos nababescos das emendas parlamentares
fez de cada congressista uma espécie de potentado árabe, diante de quem o
presidente, os ministros e os burocratas se ajoelham para saber se podem contar
com alguma benevolência nas votações, frequentemente com o espírito da barganha
política deturpado por negociações envolvidas no manto da opacidade.
No contexto
brasileiro, a chave do cofre já mudou de mãos há muito tempo. É o centrão, com
sua composição fluida, quem gere as emendas bilionárias, em um cenário marcado
pelo orçamento impositivo.
Neste ano, os
partidos políticos, que há muito perceberam o filão de administrar os recursos
sem sofrer a pressão do eleitorado, investiram pesadamente nas eleições para
congressistas. O desinteresse pelo Executivo, somado à dificuldade de formar
alianças estratégicas, levou ao cúmulo de faltar candidato a vice-presidente da
República.
Ao governo resta
uma caneta —sem tinta. A derrubada de vetos presidenciais pelo Congresso
Nacional, tradicionalmente excepcional, tem se tornado recorrente na última
década.
Em levantamento
baseado no Painel Galileu do Senado,
a rejeição de vetos, que ficou abaixo de 5% nas gestões Dilma (2011-2016) e em
torno de 15% no período Temer (2016-2018), chegou a 44% entre 2019 e 2022
(governo Bolsonaro) e a 49% dos vetos apreciados entre 2023 e 2025 (Lula 3).
Cabe a velha pergunta: onde isso vai parar?
Nem todo sistema
presidencialista sofre com a ingovernabilidade. Por vezes, governos com maior
grau de competência política são capazes de implementar sua agenda, valendo-se
de estratégias de composição. O espírito democrático se regozija de debates de
ideias e concessões recíprocas.
Não é o que tem se
verificado no Brasil. A famosa governabilidade custou administrações públicas
anabolizadas, o mensalão e emendas parlamentares intocáveis.
A tradicional
política de "pork barrel" (o uso de recursos públicos em obras ou
projetos localistas destinados por parlamentares para seus redutos eleitorais,
com o objetivo de obter apoio político e votos) parece um simples petisco para
um centrão que se torna ainda mais insaciável, no contexto de um Congresso cada
vez mais conservador.
Observe-se, a
propósito, a articulação pós-eleitoral para reconduzir o atual presidente da
Câmara, o deputado Hugo Motta (Republicanos-PB), como que sinalizando às
bancadas a mesma mensagem: "Aqui mando yo".
Todos sabemos que,
em 1988, por ocasião da aprovação da Constituição Cidadã, a Assembleia Nacional
Constituinte flertou com o sistema parlamentarista para, no final, ser
promulgada uma Constituição com "sabor" parlamentarista.
Manteve-se,
oficialmente, o sistema presidencialista, mas com um arranjo institucional
multipartidário e proporcional, que logo seria identificado como
"presidencialismo de coalizão".
Onde falha esse
sistema? Com o passar dos anos, as emendas parlamentares alteraram tanto o
custo de transação que a nova realidade elevou o sarrafo da habilidade política
exigível do presidente para a "orquestra" não desafinar a níveis
extremos.
Verbas são
aprovadas como se o dinheiro nascesse em árvore; o ministro da Fazenda de
plantão tenta se virar para financiar o desequilíbrio disso resultante; e o
Banco Central atua como "bombeiro de última instância", para evitar
que as pressões resultantes gerem mais inflação.
A questão é: aonde
esse arranjo nos leva? Daron Acemoglu e James A. Robinson, vencedores do Nobel
de Economia e autores do livro "Por que as Nações Fracassam",
ressaltam o papel das instituições para a evolução positiva ou negativa dos
países.
Sem entrar em
minúcias que de fato podem distinguir aspectos do caso brasileiro daqueles
enfatizados no livro, há uma correlação entre o desenho das instituições e a
velocidade do desenvolvimento de um país.
Nosso arranjo de
raízes profundas, que vem balizando governos de direita e de esquerda há três
décadas, contribui para um crescimento limitado, dívida pública crescente como
proporção do PIB e uma das taxas reais de juros mais elevadas do mundo.
Em 1995, quando
parecia que um novo horizonte se descortinava para o país após a estabilização,
a dívida líquida do setor público foi de 28% do PIB. Trinta e um anos depois,
ela já está em 69% do PIB. Enquanto isso, nessas três décadas, a produtividade
por homem ocupado se expandiu à raquítica taxa média de apenas 0,6% ao ano.
"Alô, Houston, temos um problema", não?
Instituições
fortes ou reformas estruturais não eximem os atores políticos de seu
protagonismo em implementar na prática os compromissos do próprio arranjo
constitucional. É a "vontade de Constituição" de que falava o jurista
alemão Konrad Hesse.
A crise no sistema
presidencialista atual não se resolve com um semipresidencialismo mal
desenhado, com um parlamentarismo já rejeitado pela população ou qualquer
solução que transfira ainda mais poder do Executivo para o Legislativo.
Se a hipertrofia
do Congresso Nacional pode achacar governos, que
diante disso sofrem de paralisia ou se rendem, anabolizá-lo só vai aumentar os
custos da barganha.
Mais do que
transformar um presidente que negocia permanentemente com seis ou sete partidos
em um primeiro-ministro que sobrevive negociando permanentemente com os mesmos
seis ou sete partidos, fazer prevalecer o espírito da Constituição repousa em incentivos
que reduzam a hipertrofia de qualquer dos poderes.
É urgente pensar
em reformas menos ambiciosas, porém viáveis, que restabeleçam um equilíbrio
funcional, redistribuindo os custos políticos e transacionais e, assim,
mitigando o que poderíamos denominar de "risco de impasse".
A combinação de
fragmentação partidária, sistema proporcional e fisiologismo ideológico desafia
a formação de coalizões firmes, mas há mudanças recentes que também reforçaram
a disfuncionalidade: emendas parlamentares e impositividade orçamentária; uso
mais recorrente da derrubada de vetos; fortalecimento das lideranças e
estruturas decisórias do Congresso etc.
Nas negociações da
Guerra Fria contra o inimigo comum, Henry Kissinger, que se dividia entre a
"grandeur de la France", o espírito imperial britânico e o desejo de
recuperação do prestígio alemão, costumava dizer, em tom de galhofa:
"Quando eu quero falar com a Europa, para que número devo ligar?".
Ajustando para as
diferenças de tempo e de lugar, para quem se deve ligar no Brasil?
Aqui, a
responsabilidade política recai desproporcionalmente sobre o chefe do
Executivo, ainda que o seu veto tenha sido derrubado, que a medida provisória
tenha expirado ou que emendas parlamentares tenham sangrado o Orçamento
público.
Em termos
econômicos, se a dívida pública aumenta, a produtividade empaca e a Selic não
pode cair abaixo de 11% ou 12% sob pena de a inflação aumentar, quem é o
responsável? O eleitor tende a julgar que é o presidente da República —na
realidade, contudo, os poderes dele são mais limitados do que supõe o cidadão
comum.
É bom que assim
seja. Como disse um dos "founding father" dos EUA, James Madison, "se
os anjos governassem os homens, nem controles externos nem internos sobre o
governo seriam necessários".
Os gritos do
extremismo ideológico exigem a contenção do poder. São muitos os casos em que
um Congresso ultraconservador supera os vetos de um Executivo enfraquecido, que
assim recorre ao Judiciário para a proteção de minorias.
No entanto,
precisamos chegar a uma situação na qual haja alguma harmonia entre os Poderes
Legislativo e o Executivo, de modo que a agenda proposta por este, baseada em
programa e discutida com a sociedade, possa ser aprovada, como fruto de uma
coalizão legislativa clara, após a negociação parlamentar que couber em cada
caso.
Acabarão então
esquisitices como um parlamentar ter discurso de oposição e cargos no governo,
inflacionando os custos da barganha pelo apoio em cada votação.
O jornalista
Carlos Alberto Sardenberg escreveu recentemente que "o Congresso, nos
últimos anos, descobriu uma forma original de governo: manda no Orçamento, mas
não responde pelo resultado fiscal".
É tentador, à luz
das anomalias citadas, cogitar que o país poderia optar pelo parlamentarismo. Embora
haja argumentos relevantes em sua defesa, há ao menos duas grandes questões que
se contrapõem a essa postulação.
A primeira é o
retrospecto: em sua curta experiência de vigência de cerca de 17 meses, entre
1961 e 1963, o parlamentarismo no Brasil viu serem empossados três
primeiros-ministros, antes de o país retomar o presidencialismo.
No contexto de
alta fragmentação partidária, haveria o risco de uma sucessão de governos e, no
limite, de Parlamentos, às custas de uma instabilidade jurídico-política grave
de longo prazo, prejudicando ainda mais a desejada procura de um horizonte de
previsibilidade para a tomada de decisões econômicas.
A segunda questão
é o processo de reforma. Tudo nesse assunto é polêmico. É constitucionalmente
possível alterar o sistema, passando de presidencialismo para parlamentarismo?
As correntes são muitas.
Nos extremos, há
quem, de um lado, defenda se tratar de cláusula pétrea, imutável, portanto, no
núcleo intangível da separação de Poderes; e, de outro, que bastaria uma PEC
para revisitar a matéria.
Entre os polos, a
consulta popular se apresenta estratégica para distribuir o custo político de
uma agenda que contém um inequívoco componente de autoempoderamento, já que o
próprio Parlamento aprovaria uma reforma que ampliaria significativamente a sua
centralidade no sistema político.
Além da elementar
legitimidade democrática, uma nova consulta se impõe por deferência à escolha
popular de 1993, aos princípios estruturantes da organização dos Poderes e
mesmo à decisão do constituinte originário de entregar ao eleitorado, e não ao
Congresso, a definição do sistema de governo.
O alinhamento
entre governo e maioria legislativa é a própria essência do sistema
parlamentarista. Justamente por isso, em democracias parlamentaristas maduras,
há outros contrapesos contramajoritários que assumem protagonismo, como uma
oposição institucionalizada, um Judiciário independente, o federalismo, regras
mais rígidas de alteração constitucional e uma imprensa livre.
Definitivamente,
não é esse o cenário que se descortina no Brasil de 2027, em que o impeachment
de ministros do Supremo Tribunal Federal figurou como prioridade da campanha
eleitoral do partido mais votado nas recentes eleições legislativas.
Na busca dos
incentivos adequados para mitigar os problemas do arranjo institucional atual,
sem ferir o princípio sagrado da independência de Poderes, entendemos que uma
"redistribuição de bônus e ônus" entre Executivo e Legislativo
deveria envolver, fundamentalmente, quatro proposições, aqui apresentadas para
debate:
1) Coalizões
explícitas e responsáveis.
A fim de evitar
coalizões opacas, episódicas e desprovidas de responsabilidade perante o
eleitor, a formação de uma coalizão governamental deveria estar associada à
divulgação formal —por parte do presidente da República e dos presidentes dos
partidos que fizerem parte da aliança— de uma agenda comum e à identificação
explícita das siglas que integram a base do governo.
A composição da
coalizão e sua agenda seriam comunicadas ao Congresso no início da gestão e
atualizadas sempre que houvesse a entrada ou saída de partidos.
2) Responsabilidade
fiscal compartilhada pelas emendas parlamentares.
Além da redução do
limite das emendas individuais de 2% para 1% da receita corrente líquida, o que
poderia representar uma contribuição imediata do Parlamento ao inevitável
esforço de ajuste fiscal a partir de 2027, propõe-se submeter o conjunto das
emendas de execução obrigatória a uma rastreabilidade maior e a regras de
contingenciamento compatíveis com as que incidem sobre as demais despesas.
3) Maioria
qualificada para superação do veto presidencial.
O poder
constitucional do Congresso de rejeitar vetos passaria a exigir maioria de três
quintos em cada casa (Câmara dos Deputados e Senado), e não mais maioria
simples. A medida mitiga riscos de a decisão resultar de uma composição
parlamentar circunstancial e reforça a responsabilidade compartilhada.
4) Prazo
obrigatório para deliberação sobre indicações.
As indicações para
agências reguladoras, Banco Central e demais cargos sujeitos à aprovação
legislativa continuariam submetidas ao Senado, mas seriam apreciadas em prazo
determinado, sob pena de trancamento de pauta, com preferência sobre outras
matérias, até deliberação.
Evita-se, assim,
que a postergação se transforme em instrumento permanente de barganha, ao mesmo
tempo em que se preserva o poder constitucional atribuído ao Senado.
Esse conjunto de
providências não elimina a negociação política. Democracias multipartidárias
governam por negociação. O objetivo é outro: reduzir a distância entre o
exercício do poder e a assunção de responsabilidade.
É preciso dar maior funcionalidade ao sistema político do país, ampliando as condições de governabilidade e permitindo uma distribuição mais justa entre os bônus e os ônus das decisões que cada Poder toma.
*Doutora
em direito econômico pela USP e advogada
*Economista
especialista em finanças públicas e Previdência Social. Autor, entre outros, do
livro "Tudo Sobre o Déficit Público: Um Guia Sobre o Maior Desafio do País
Para a Década de 2020" (Alta Books)

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