O Estado de S. Paulo
O Itamaraty, como instituição de Estado, está
ameaçado, qualquer que seja o resultado do segundo turno. Levando em conta as
políticas implementadas nos três mandatos do PT e no governo de Jair Bolsonaro,
as declarações durante a campanha eleitoral e de acordo com os programas dos
candidatos, são preocupantes as perspectivas para a política externa e para a
diplomacia nacional nos próximos quatro anos.
Do lado do lulismo, tudo indica que se repetirá a influência e o predomínio da ideologia e do partidarismo, deixando muitas vezes o interesse nacional em segundo plano. Com isso, continuará o esvaziamento do Itamaraty pela perda de espaço no âmbito da administração federal e pela deficiente formulação de políticas que respondam aos desafios do novo mundo e às prioridades nacionais.
Deverão continuar as dificuldades
orçamentárias (atraso de pagamento de salário e de obrigações no exterior) e
persistir o adiamento de reformas modernizantes e o papel das mulheres na
carreira. É previsível uma maior influência sindical com propostas radicais na
carreira, inclusive direito de greve, a persistência da intolerância com visões
distintas e perseguição ideológica e a possível criação do Conselho Nacional de
Política Externa proposto pelo MST e pelo PT.
Do lado do bolsonarismo, pode ser mais do
mesmo, com a primazia da ideologia e do partidarismo acima do interesse
nacional, com o continuado esvaziamento do Itamaraty, com a perda de espaço no
contexto da administração e com a dificuldade orçamentária. Já estão sendo
antecipadas transformações internas radicais (“promover faxina”) na
instituição, promovendo a modernização funcional, administrativa,
organizacional e profissional, baseada em ideias contrárias às práticas
nacionais. A proposta de criação de um grupo de trabalho com potência
estrangeira na transição e o alinhamento automático com os EUA e com Israel
podem ser antecipados, com o abandono da visão universalista da política
externa. A repetição da intolerância com visões distintas e perseguição
ideológica pode ser esperada.
O mundo mudou e o Brasil também mudou. A ordem internacional nos últimos tempos vem se caracterizando pela incerteza e insegurança. As transformações na economia global, as tensões entre os EUA e a China, a guerra da Rússia na Ucrânia, as consequências econômicas e comerciais da guerra EUA/Israel contra o Irã estão afetando todos os países.
Em resposta a esse desafio e incerteza, o
novo governo deveria ter como prioridade o restabelecimento do papel do
Itamaraty como principal assessor do presidente da República na formulação e
execução da política externa e na atuação, com autonomia, na coordenação
interna de políticas em todas as áreas de negociação internacional e regional.
Para modernizar e renovar a instituição seria
importante definir novo regime jurídico para o serviço externo, como “carreira
exclusiva de Estado”, ampliando a transparência e melhorando seus mecanismos de
gestão, preservando seu profissionalismo e propiciando maior espaço para as
mulheres nas posições de chefia. Seria importante buscar reforço orçamentário
para a execução da política externa e da gestão financeira com os pagamentos de
salários e de remoções para o exterior.
Em vista dos ataques dos EUA e da China ao
Brasil, o Itamaraty deveria responder, de imediato, aos desafios da negociação
do contencioso comercial com os EUA e a crise política e diplomática com
Washington. Deveria igualmente preocupar-se com a avalanche das exportações da
China no mercado brasileiro, afetando importantes setores da economia, o
emprego e a renda, com políticas de defesa comercial e apoio a uma reforçada
política industrial. Qualquer que seja o resultado, priorizar o relacionamento
político e comercial com os países vizinhos da América do Sul acima de
diferenças ideológicas e fortalecer o Mercosul, ameaçado por iniciativas
isoladas da Argentina e Uruguai. Em vista da possibilidade de medidas
restritivas na China e na Europa, dar ênfase às ações de promoção comercial
para a diversificação de mercado para os produtos agrícolas e a busca de novas
tecnologias e inovação.
O enfraquecimento do multilateralismo, o
fortalecimento do nacionalismo, as preocupações com o meio ambiente e a mudança
do clima, a nova geopolítica com contornos econômicos, sobretudo comerciais e
tecnológicos, são algumas das facetas da nova ordem internacional. Nesse
contexto, o Brasil ainda não encontrou os meios e modos para definir seu lugar
no mundo.
Os desafios que o Brasil terá de enfrentar
nos próximos anos forçarão uma mudança de atitude dos funcionários diplomáticos
e do governo como um todo para atender às demandas dos novos tempos. O futuro
governo tem urgência em definir uma política de segurança econômica para
defender o interesse nacional acima de ideologia e partidarismo.
O novo chanceler, político ou diplomata,
prestaria um grande serviço ao País se adotasse políticas na linha de um
pragmatismo responsável 2.0, com profissionalismo, sensatez, moderação e visão
estratégica de médio e longo prazo para uma diplomacia de resultados. E com a
manutenção de uma posição de independência, sem alinhamentos automáticos,
sempre buscando a defesa do interesse nacional.

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