terça-feira, 13 de outubro de 2026

Lula valorizou o salário mínimo, Flávio Bolsonaro vai congelá-lo? Por Michael França

Folha de S. Paulo

Petista gerou um aumento do poder de compra cerca de dez vezes maior que o registrado por Jair Bolsonaro

Candidato do PL promete repor a inflação, mas não assegura ganho real

Em 2026, o salário mínimo chegou a R$ 1.621, acumulando uma alta de 11,8% acima da elevação dos preços durante o governo Lula. Isso significa que os trabalhadores que o recebem tiveram um aumento em seu poder de compra.

A trajetória contrasta com a do governo de Jair Bolsonaro, cujos reajustes praticamente acompanharam a elevação dos preços, com ganho no poder de compra de apenas 1,2%.

O reajuste de 2019 ainda seguiu a regra antiga de valorização. Boa parte do 1,2% vem dessa alta herdada. Nos aumentos de 2020 a 2022, decididos pelo próprio governo Bolsonaro, o ganho real foi praticamente zero.

Se Jair Bolsonaro tivesse permanecido no poder e mantido a política de reajustes de seu governo, sem nenhum ganho do poder de compra, o salário mínimo chegaria a cerca de R$ 1.450 em 2026.

Seriam R$ 171 a menos por mês em comparação com o valor atual, uma diferença de cerca de R$ 2.200 ao ano, considerando o 13º salário.

Essa diferença também alcançaria os aposentados mais pobres, porque, no Brasil, nenhuma aposentadoria do INSS pode ser inferior ao salário mínimo. Assim, cada aumento do piso nacional também eleva automaticamente o valor das aposentadorias de quem recebe o mínimo.

Essas diferenças expressam escolhas políticas. Lula considera a valorização do salário mínimo um instrumento de distribuição de renda. Contudo, uma política pública pode aumentar o bem-estar dos mais pobres e, simultaneamente, produzir custos que afetam as condições de investimento e expansão da economia.

O primeiro custo recai sobre as empresas. O aumento eleva as despesas com funcionários que recebem o piso nacional, inclusive os encargos trabalhistas associados. Para negócios com margens de lucro reduzidas, especialmente pequenas empresas intensivas em mão de obra, isso pode dificultar novas contratações ou estimular aumentos de preços.

Por outro lado, o maior poder de compra dos trabalhadores também tende a ampliar as vendas, compensando parte desses custos.

O segundo custo recai sobre as contas públicas. Dado que o salário mínimo determina o valor de milhões de aposentadorias e benefícios sociais, cada reajuste aumenta automaticamente os gastos do governo. Esse mecanismo pressiona o Orçamento e, na ausência de receitas suficientes ou cortes em outras áreas, contribui para o crescimento da dívida pública.

Uma dívida crescente pode elevar a percepção de risco dos investidores, que passam a exigir juros maiores para emprestar dinheiro ao governo. Isso também encarece o crédito para as empresas, reduzindo o incentivo a novos investimentos.

Esse dilema entre valorização do salário mínimo e equilíbrio das contas públicas também estará presente no próximo governo. O plano de governo de Flávio Bolsonaro não apresenta nenhuma proposta para extinguir o piso nacional. Além disso, ele afirmou que não pretende desvincular o salário mínimo da inflação.

Contudo, garantir a reposição da inflação é diferente de assegurar ganhos reais. A experiência do governo de seu pai e a ausência de um compromisso explícito com a valorização do piso sugerem que, caso seja eleito, Flávio Bolsonaro poderá retomar uma política de reajustes que não amplia o poder de compra dos trabalhadores que recebem o piso nacional nem dos aposentados e pensionistas cujos benefícios estão vinculados a ele.

O texto é uma homenagem à música "Mais uma Vez", interpretada por Frejat.

 

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