Folha de S. Paulo
Petista gerou um aumento do poder de compra
cerca de dez vezes maior que o registrado por Jair Bolsonaro
Candidato do PL promete repor a inflação, mas
não assegura ganho real
Em 2026, o salário
mínimo chegou a R$ 1.621,
acumulando uma alta de 11,8%
acima da elevação dos preços durante o governo Lula.
Isso significa que os trabalhadores que o recebem tiveram um aumento em seu
poder de compra.
A trajetória contrasta com a do governo de Jair
Bolsonaro, cujos reajustes praticamente acompanharam a elevação dos
preços, com ganho no poder de compra de apenas 1,2%.
O reajuste de
2019 ainda seguiu a regra antiga de valorização. Boa parte do 1,2%
vem dessa alta herdada. Nos aumentos de 2020 a 2022, decididos pelo próprio
governo Bolsonaro, o ganho real foi praticamente zero.
Se Jair Bolsonaro tivesse permanecido no
poder e mantido a política de reajustes de seu governo, sem nenhum ganho do
poder de compra, o salário mínimo chegaria a cerca de R$ 1.450 em 2026.
Seriam R$ 171 a menos por mês em comparação com o valor atual, uma diferença de cerca de R$ 2.200 ao ano, considerando o 13º salário.
Essa diferença também alcançaria os
aposentados mais pobres, porque, no Brasil, nenhuma aposentadoria
do INSS
pode ser inferior ao salário mínimo. Assim, cada aumento do piso nacional
também eleva automaticamente o valor das aposentadorias de quem recebe o
mínimo.
Essas diferenças expressam escolhas
políticas. Lula considera a valorização do salário mínimo um instrumento de
distribuição de renda.
Contudo, uma política pública pode aumentar o bem-estar dos mais pobres e,
simultaneamente, produzir custos que afetam as condições de investimento e
expansão da economia.
O primeiro
custo recai sobre as empresas. O aumento eleva as despesas com
funcionários que recebem o piso nacional, inclusive os encargos trabalhistas
associados. Para negócios com margens de lucro reduzidas, especialmente
pequenas empresas intensivas em mão de obra, isso pode dificultar novas
contratações ou estimular aumentos de preços.
Por outro lado, o maior poder de compra dos
trabalhadores também tende a ampliar as vendas, compensando parte desses
custos.
O segundo custo recai sobre as contas
públicas. Dado que o salário mínimo determina o valor de milhões de
aposentadorias e benefícios sociais, cada reajuste aumenta automaticamente os
gastos do governo. Esse mecanismo pressiona o Orçamento e, na ausência de
receitas suficientes ou cortes em outras áreas, contribui para o crescimento da
dívida pública.
Uma dívida crescente pode elevar a percepção
de risco dos investidores, que passam a exigir juros
maiores para emprestar dinheiro ao governo. Isso também encarece o crédito para
as empresas, reduzindo o incentivo a novos investimentos.
Esse dilema entre valorização do salário
mínimo e equilíbrio das contas públicas também estará presente no próximo
governo. O plano de governo de Flávio
Bolsonaro não apresenta nenhuma proposta para extinguir o piso
nacional. Além disso, ele afirmou que não pretende desvincular o salário mínimo
da inflação.
Contudo, garantir a reposição da inflação é
diferente de assegurar ganhos reais. A experiência do governo de seu pai e a
ausência de um compromisso explícito com a valorização do piso sugerem que,
caso seja eleito, Flávio
Bolsonaro poderá retomar uma política de reajustes que não amplia o poder de
compra dos trabalhadores que recebem o piso nacional nem dos
aposentados e pensionistas cujos benefícios estão vinculados a ele.
O texto é uma homenagem à música "Mais
uma Vez", interpretada por Frejat.

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