sexta-feira, 23 de outubro de 2026

Armação ilimitada, por Bernardo Mello Franco

O Globo

Caso de suspeitos uniformizados em Piracicaba lembra manipulação do sequestro de Abilio Diniz

Aconteceu em Piracicaba, cidade do interior paulista onde Flávio Bolsonaro colheu 63% dos votos no primeiro turno. Policiais militares prenderam três jovens, incluindo um menor de idade, sob suspeita de tráfico de drogas. Antes de serem levados à delegacia, os três foram obrigados a vestir camisetas com o nome de Lula e a estrela do PT.

Parece 1989, mas ocorreu nesta quarta-feira, a quatro dias da eleição presidencial. Testemunhas ouvidas por diferentes órgãos de imprensa denunciaram a armação. De acordo com os relatos, nenhum dos suspeitos vestia roupas ou adereços políticos durante a abordagem. “Um estava todo de cinza, um de moletom azul e boné, e o outro estava de bermuda jeans e camiseta branca”, contou uma entrevistada.

A mãe do adolescente apreendido afirmou que um dos policiais deu um soco em sua outra filha, de 14 anos. A PM informou em nota que “os fatos serão analisados através de procedimentos apuratórios cabíveis”. Pelo histórico do governo do bolsonarista Tarcísio de Freitas, convém esperar sentado.

Há 37 anos, o segundo turno entre Lula e Fernando Collor concorreu pelas manchetes com o sequestro do empresário Abilio Diniz. Na véspera da eleição, a polícia de São Paulo cercou o cativeiro e disse ter apreendido material de propaganda do PT. A plantação ganhou o noticiário e deu o impulso final para a vitória da direita. A vítima do sequestro nunca comprou a lorota. Até o fim da vida, manteve relações amistosas com o candidato derrotado.

Na era da comunicação instantânea, as fake news ganharam alcance e velocidade. Ex-secretário de Tarcísio, o senador eleito Guilherme Derrite ajudou a amplificar a cascata. Até a tarde de ontem, o vídeo forjado contava mais de 9 milhões de exibições em seu perfil no Instagram. “Parabéns aos nossos policiais!”, comentou o aliado Flávio, com uma bandeirinha do Brasil. Diligente para censurar canais de WhatsApp, o presidente do TSE ainda não se manifestou sobre o caso.

Numa sociedade aprisionada em bolhas informacionais, até mentiras toscas, como a de uma gangue uniformizada com as cores de um partido, são capazes de influenciar o voto. O episódio também deveria servir de alerta sobre o risco de politização das forças de segurança — seja pela ação de governos, seja pelo fervor do guarda da esquina. Já aconteceu no passado recente.

 

Um comentário:

  1. Uma gangue que assalta UNIFORMIZADA... Só um canalha como Derrite pode "acreditar" nisto e dar visibilidade a esta nova MENTIRA!

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