Folha de S. Paulo
Dissociação entre condição econômica e
identidade política ficou clara no recado da urna
Esquerda parece não entender novos tempos;
onda de direita provoca mudança geracional
O recado das urnas, seja quem ganhe o segundo
turno, foi uma grande onda
de direita na direção da mudança de nomes tradicionais e do padrão de
representação política com jeito de século 20 dominante na redemocratização.
Nada disso é tão novo e nada disso flutua no ar. Há uma base material da sociedade em movimento que nos leva à hipótese, senão à evidência, de que presenciamos uma dissociação entre condição econômica e identidade política.
Para olhar com mais atenção o caso
brasileiro, já que o fenômeno da ultradireita é internacional, sigo as pegadas
de Rosana
Pinheiro-Machado, em artigo na Ilustríssima, no último dia 27, que nos fala
das "classes aspiracionais": segmentos populares que ampliaram seus
horizontes, aprenderam a desejar outros futuros e passaram a considerar que
merecem mais. Querem consumir melhor, ganhar dinheiro, ter autonomia, controlar
o próprio tempo e escapar da condição subalterna. Em boa medida, esse movimento
foi impulsionado pelas transformações sociais produzidas durante os governos
petistas.
Ocorre que as aspirações cresceram mais
rapidamente que as possibilidades de realizá-las, justamente quando o mundo do
trabalho se tornava mais precário, informal e submetido às plataformas e redes
sociais. Nesse ambiente, prosperou a promessa do empreendedorismo: ser dono de
si mesmo, ganhar dinheiro, deixar de obedecer ao patrão e tornar-se, na
expressão caricatural, "CEO de MEI".
Politicamente, não basta saber se alguém
conseguiu realizar suas aspirações. Importa entender a quem atribui sua
trajetória. Quem reconhece a presença do Estado na melhora de vida estabelece
com ele uma relação diferente de quem acredita ter conquistado tudo pelo
esforço individual, apesar de um Estado que só aparece para cobrar impostos,
criar dificuldades ou beneficiar quem, a seus olhos, se esforça menos.
Grande parcela dos trabalhadores continua
pobre ou vive com sensível insegurança econômica, mas já não se reconhece
necessariamente na imagem do trabalhador para a qual a esquerda aprendeu a
falar. É motorista de aplicativo, MEI, cabeleireira, entregador, pequeno
comerciante, vendedor pelas redes. Pode acumular dois ou três trabalhos e se
imaginar menos como integrante de uma classe do que como protagonista
individual de um projeto de ascensão.
Não basta o PT e Lula dizerem a essas
pessoas: sua
vida melhorou graças às nossas políticas. Para quem construiu sua
identidade em torno do esforço próprio, a frase pode soar menos como
reconhecimento do que como apropriação de seu mérito.
A direita encontrou uma linguagem poderosa
para esse universo. Valoriza o esforço do indivíduo que "se vira" e
promete libertá-lo dos obstáculos que impediriam sua ascensão. A esquerda
continua mais confortável ao falar de proteção, direitos e benefícios —valores
fundamentais, mas que não esgotam as aspirações desse novo trabalhador.
Sem desconsiderar a mixórdia que foi a
campanha de Lula, e eventuais futuros acertos, na moldura maior o desafio da
esquerda também é aprender a falar de autonomia, ambição, prosperidade e desejo
de subir na vida sem entregar esses valores à direita. A eleição não terminou,
mas não se sabe se haverá tempo e visão política para essa difícil virada.

a turma de jornalista desse blog nem esconde mais e se revela de esquerda com muito orgulho torcem ficam triste com o fracasso de Lula e amaldiçoou o governo e a perspectiva de vitória do Flávio Bolsonaro
ResponderExcluirÉ ridículo mas daqui duas semanas nós vamos ver essa turma começar a chorar perguntando aonde o Lula errou e eu respondo em tudo!
candidato corrupto ditatorial e mentiroso