sexta-feira, 9 de outubro de 2026

Lula e PT não sabem falar em autonomia e em prosperidade, por Marcos Augusto Gonçalves

Folha de S. Paulo

Dissociação entre condição econômica e identidade política ficou clara no recado da urna

Esquerda parece não entender novos tempos; onda de direita provoca mudança geracional

O recado das urnas, seja quem ganhe o segundo turno, foi uma grande onda de direita na direção da mudança de nomes tradicionais e do padrão de representação política com jeito de século 20 dominante na redemocratização.

Nada disso é tão novo e nada disso flutua no ar. Há uma base material da sociedade em movimento que nos leva à hipótese, senão à evidência, de que presenciamos uma dissociação entre condição econômica e identidade política.

Para olhar com mais atenção o caso brasileiro, já que o fenômeno da ultradireita é internacional, sigo as pegadas de Rosana Pinheiro-Machado, em artigo na Ilustríssima, no último dia 27, que nos fala das "classes aspiracionais": segmentos populares que ampliaram seus horizontes, aprenderam a desejar outros futuros e passaram a considerar que merecem mais. Querem consumir melhor, ganhar dinheiro, ter autonomia, controlar o próprio tempo e escapar da condição subalterna. Em boa medida, esse movimento foi impulsionado pelas transformações sociais produzidas durante os governos petistas.

Ocorre que as aspirações cresceram mais rapidamente que as possibilidades de realizá-las, justamente quando o mundo do trabalho se tornava mais precário, informal e submetido às plataformas e redes sociais. Nesse ambiente, prosperou a promessa do empreendedorismo: ser dono de si mesmo, ganhar dinheiro, deixar de obedecer ao patrão e tornar-se, na expressão caricatural, "CEO de MEI".

Politicamente, não basta saber se alguém conseguiu realizar suas aspirações. Importa entender a quem atribui sua trajetória. Quem reconhece a presença do Estado na melhora de vida estabelece com ele uma relação diferente de quem acredita ter conquistado tudo pelo esforço individual, apesar de um Estado que só aparece para cobrar impostos, criar dificuldades ou beneficiar quem, a seus olhos, se esforça menos.

Grande parcela dos trabalhadores continua pobre ou vive com sensível insegurança econômica, mas já não se reconhece necessariamente na imagem do trabalhador para a qual a esquerda aprendeu a falar. É motorista de aplicativo, MEI, cabeleireira, entregador, pequeno comerciante, vendedor pelas redes. Pode acumular dois ou três trabalhos e se imaginar menos como integrante de uma classe do que como protagonista individual de um projeto de ascensão.

Não basta o PT e Lula dizerem a essas pessoas: sua vida melhorou graças às nossas políticas. Para quem construiu sua identidade em torno do esforço próprio, a frase pode soar menos como reconhecimento do que como apropriação de seu mérito.

A direita encontrou uma linguagem poderosa para esse universo. Valoriza o esforço do indivíduo que "se vira" e promete libertá-lo dos obstáculos que impediriam sua ascensão. A esquerda continua mais confortável ao falar de proteção, direitos e benefícios —valores fundamentais, mas que não esgotam as aspirações desse novo trabalhador.

Sem desconsiderar a mixórdia que foi a campanha de Lula, e eventuais futuros acertos, na moldura maior o desafio da esquerda também é aprender a falar de autonomia, ambição, prosperidade e desejo de subir na vida sem entregar esses valores à direita. A eleição não terminou, mas não se sabe se haverá tempo e visão política para essa difícil virada.

 

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