O Correio Braziliense
As duas campanhas cantam vitória e tentam
capitalizar o debate nas redes sociais. Isso não conquista de votos. Para o
indeciso, o debate criou mais confusão do que esclarecimento
O primeiro confronto entre Luiz Inácio Lula da Silva e Flávio Bolsonaro,
domingo, na TV Bandeirantes, terminou com duas vitórias proclamadas pelas
respectivas torcidas e uma derrota evidente: a do debate público. Diante de um
país preocupado com violência, custo de vida, saúde e emprego, Flávio trabalhou
para nivelar a discussão por baixo, provocando o adversário; Lula escorregou na
casca de banana e foi para um confronto pessoal com acusações recíprocas de
corrupção. O indeciso que esperava esclarecer o voto no debate encontrou mais
motivos para hesitar.
Seu ponto fraco foi perder o comando da própria estratégia. Preparado para
defender realizações e discutir propostas, deixou-se arrastar para a troca de
ofensas. A expressão “malandro carioca” ofereceu munição desnecessária ao
adversário. A irritação e a aparência de cansaço, percebidas até por aliados,
reduziram a força de suas intervenções. Quando poderia aprofundar uma cobrança
incômoda, forçar Flávio a abrir os sigilos bancário e telefônico, aceitou
mudanças de assunto. Resumindo, conhecer mais a máquina pública não bastou para
controlar o confronto.
O que farão?
A repercussão negativa do debate ultrapassou as fronteiras. Os veículos
estrangeiros descrevem um encontro áspero, caótico e dominado por insultos.
Sobraram acusações e faltou comparação entre políticas públicas. Até a política
externa virou uma disputa entre amizades inconvenientes.
Entretanto, as duas campanhas encontraram passagens para cantar vitória e
capitalizar o debate nas redes sociais. Isso não demonstra conquista de votos.
Para o indeciso, o saldo foi mais confusão do que esclarecimento. A frustração
produzida pelo encontro precisa ser medida nas próximas pesquisas. O risco é
alimentar a abstenção e o voto nulo. Uma campanha concentrada em provar que o
outro é inaceitável pode convencer parte do público a rejeitar os dois.
Lula foi ao debate embalado pela pesquisa Vox Brasil, divulgada no domingo, que
registrou 51% dos votos válidos para o presidente e 49% para Flávio, dentro da
margem de erro. Já o PoderData/Aya divulgado na segunda-feira botou lenha na
fogueira de Flávio: apontou o senador com 52%, contra 48% de Lula. Ambas
mostram uma disputa aberta. As entrevistas ocorreram antes do debate; portanto,
nenhum desses resultados pode ser apresentado como consequência do desempenho
no palco. O retrato é de disputa aberta, com divergência entre levantamentos.
A semana final começa sob esse impacto. Flávio esteve em Marabá nesta
segunda-feira, com promessas de regularização fundiária, flexibilização
ambiental e endurecimento penal, e tinha agenda prevista em Manaus. Nesta
terça-feira, Lula prepara uma caminhada entre Juazeiro e Petrolina,
atravessando o São Francisco para mobilizar seu eleitorado nordestino. Nas
redes, lulistas procuram recuperar ausentes e conquistar votos; bolsonaristas
cobram engajamento dos aliados.
Os atos de rua disputarão espaço com os recortes do debate nas redes, enquanto
as equipes ajustam a preparação para o confronto da Globo, na sexta-feira. Lula
precisa recuperar a iniciativa sem aceitar cada provocação. Flávio precisa
demonstrar que sua candidatura oferece mais do que ataques. Até domingo, ambos
terão de responder à pergunta que está na cabeça dos eleitores indecisos: o que
pretendem fazer com o poder que disputarão nas urnas.

Nenhum comentário:
Postar um comentário