Correio Braziliense
Lula pode mobilizar apoio público para
aumentar o custo político da resistência parlamentar e melhorar suas condições
de negociação
Depois da vitória do presidente Lula no
domingo, a pergunta que fica é: como irá governar com um Legislativo dominado
pelo Centrão e pela extrema-direita? Será ele um “pato manco” ou será capaz de
fechar a sua biografia de forma triunfante? Difícil dizer com certeza, mas
podemos especular.
Desde os anos 1990 até 2014, o país vinha sendo governado por meio de uma composição governamental baseada na distribuição de ministérios e cargos entre os partidos e na execução de emendas orçamentárias de interesse dos parlamentares. A forma centralizada de funcionamento do Congresso em torno das lideranças partidárias permitia que o presidente negociasse a sua agenda com as bancadas partidárias, e não com os deputados individualmente. A iniciativa exclusiva do presidente em determinadas matérias, a solicitação de urgência legislativa e a possibilidade de editar medidas provisórias completavam o quadro, dando ao Poder Executivo a capacidade de pautar e acelerar a sua agenda no Congresso.
Além da manutenção de práticas tradicionais
do presidencialismo de coalizão — que não são necessariamente antirrepublicanas
—, o presidente deverá manter a coordenação que experimentou com os governadores
neste último mandato. Deverá também levar algumas disputas para o Judiciário,
como fez para contestar decisões do Legislativo e reabrir as negociações em
relação ao aumento do IOF em 2025 ou à desoneração da folha de pagamentos para
17 setores em 2024.
Na entrevista concedida após a apuração das
urnas, Lula deu um sinal importante ao dizer que tinha aprendido muito com esta
eleição e que iria mudar o jeito de governar, conversando diretamente com o
povo, muitas vezes por dia. Lula pode mobilizar apoio público para aumentar o
custo político da resistência parlamentar e melhorar suas condições de
negociação, como fez ao conclamar a juventude para que pressionasse o Congresso
a aprovar o fim da escala 6x1. Para isso, contará com seu “exército” de mais de
10 milhões de seguidores: o canal formado no WhatsApp, que ganhou escala
durante a mobilização pela virada eleitoral.
Não vai ser fácil, a gente sabe. Mas não se
pode menosprezar a capacidade de um gênio da política, que venceu quatro
eleições presidenciais, além de ter tido participação decisiva nas duas
eleições de Dilma Rousseff.
*Pedro Neiva — doutor em ciência política e professor adjunto da Universidade de Brasília (UnB)

Nenhum comentário:
Postar um comentário