quinta-feira, 15 de outubro de 2026

Marcha da insensatez, por William Waack

O Estado de S. Paulo

Tomando a frase emprestada do sociólogo e professor José Pastore, a tramitação do fim da escala 6x1 no Congresso é o triunfo da emoção eleitoral sobre a razão. Pois se faz sentido estabelecer na Constituição limites de horas trabalhadas por semana, não faz nenhum estipular ali como serão distribuídas.

O que surge do ponto de vista econômico como “irracional” (adotar medidas que parecem “melhorar” as coisas, mas vão provocar “piora” no prazo mais longo) é perfeitamente racional pelo cálculo político, hoje subordinado à noção de que só se combate populismo (lulopetismo, no caso) com populismo. Nisto o Brasil segue a tendência em várias “democracias liberais” – uma crise universal.

O desastre que elites empresariais apontam nessa tramitação é um desastre delas mesmas. Chega a ser constrangedor como os congressistas, especialmente no Senado, deram uma banana para “vozes de liderança” e seus alertas. Suas opiniões nem sequer foram consideradas.

Caciques políticos de qualquer coloração no Congresso vivem hoje nababescamente com dinheiro público. Mas não só. Elites dirigentes acostumaram-se a resolver de imediato seus problemas setoriais, acomodando-se a qualquer governo de plantão manifestando “esperança no futuro”, desde que seus interesses não fossem afetados. Consideraram que isso era fazer política.

A reforma tributária foi, nesse sentido, uma aula de antropologia política sobre o Brasil, no sentido do triunfo das partes sobre um todo que, a rigor, não está no horizonte prático de qualquer força política relevante. Nossa maçaroca ideológica torna impossível lidar com o País nos termos de “esquerda” contra “direita”, se por isso se pretende considerar visões de mundo antagônicas.

O denominador comum dos grandes grupos políticos é manter a maior proximidade possível da máquina e dos cofres públicos, dos quais pedaços são transformados em ferramentas na defesa de seus interesses setoriais ou paroquiais. Há um gráfico ilustrativo disso: é o que demonstra despesas públicas sempre subindo mais que receitas ao longo de mais da última década.

A maneira como o fim da 6x1 tramitou é uma comprovação até melancólica do que escreviam clássicos de ciência política brasileiros duas décadas atrás. Segundo os quais política com “P” maiúsculo morreu quando “consagrou-se a corporação como a reunião de indivíduos com interesses distintos dos demais e sem coisa alguma que os unisse uns aos outros, a não ser o mero interesse imediato” (Oliveiros Ferreira). Não há uma ideia de Brasil.

Isso foi escrito antes da revolução digital e algumas de suas consequências, que o profético Umberto Eco descreveu, em tom jocoso, como “empoderamento de imbecis”. A marcha da insensatez nunca foi imposta de fora para dentro de uma sociedade. •

 

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