O Estado de S. Paulo
Tomando a frase emprestada do sociólogo e
professor José Pastore, a tramitação do fim da escala 6x1 no Congresso é o
triunfo da emoção eleitoral sobre a razão. Pois se faz sentido estabelecer na
Constituição limites de horas trabalhadas por semana, não faz nenhum estipular
ali como serão distribuídas.
O que surge do ponto de vista econômico como
“irracional” (adotar medidas que parecem “melhorar” as coisas, mas vão provocar
“piora” no prazo mais longo) é perfeitamente racional pelo cálculo político,
hoje subordinado à noção de que só se combate populismo (lulopetismo, no caso)
com populismo. Nisto o Brasil segue a tendência em várias “democracias
liberais” – uma crise universal.
O desastre que elites empresariais apontam nessa tramitação é um desastre delas mesmas. Chega a ser constrangedor como os congressistas, especialmente no Senado, deram uma banana para “vozes de liderança” e seus alertas. Suas opiniões nem sequer foram consideradas.
Caciques políticos de qualquer coloração no
Congresso vivem hoje nababescamente com dinheiro público. Mas não só. Elites
dirigentes acostumaram-se a resolver de imediato seus problemas setoriais,
acomodando-se a qualquer governo de plantão manifestando “esperança no futuro”,
desde que seus interesses não fossem afetados. Consideraram que isso era fazer
política.
A reforma tributária foi, nesse sentido, uma
aula de antropologia política sobre o Brasil, no sentido do triunfo das partes
sobre um todo que, a rigor, não está no horizonte prático de qualquer força
política relevante. Nossa maçaroca ideológica torna impossível lidar com o País
nos termos de “esquerda” contra “direita”, se por isso se pretende considerar
visões de mundo antagônicas.
O denominador comum dos grandes grupos
políticos é manter a maior proximidade possível da máquina e dos cofres
públicos, dos quais pedaços são transformados em ferramentas na defesa de seus
interesses setoriais ou paroquiais. Há um gráfico ilustrativo disso: é o que
demonstra despesas públicas sempre subindo mais que receitas ao longo de mais
da última década.
A maneira como o fim da 6x1 tramitou é uma
comprovação até melancólica do que escreviam clássicos de ciência política
brasileiros duas décadas atrás. Segundo os quais política com “P” maiúsculo
morreu quando “consagrou-se a corporação como a reunião de indivíduos com
interesses distintos dos demais e sem coisa alguma que os unisse uns aos
outros, a não ser o mero interesse imediato” (Oliveiros Ferreira). Não há uma
ideia de Brasil.
Isso foi escrito antes da revolução digital e
algumas de suas consequências, que o profético Umberto Eco descreveu, em tom
jocoso, como “empoderamento de imbecis”. A marcha da insensatez nunca foi
imposta de fora para dentro de uma sociedade. •

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