O Globo
A eleição decide quem governará. O que
fizermos no dia seguinte decide se ainda saberemos viver juntos
O Brasil está cindido entre os que apoiam
Lula e os que apoiam Flávio Bolsonaro.
Seja quem for o vencedor na noite de 25 de outubro, a vitória será apertada, e
acordaremos no dia 26 divididos. Nosso primeiro problema, depois de aceitarmos
o resultado, será como reconstruir a coesão social, recuperando os laços de
solidariedade e cooperação que mantêm a sociedade brasileira de pé.
A campanha eleitoral transcorreu simultaneamente em duas pistas. Na pista secundária, protocolar, tivemos uma disputa programática: num lado, Flávio prometendo melhoria no custo de vida e mais segurança pública; no outro, Lula prometendo mais direitos e proteção social. A campanha, porém, não foi essencialmente programática.
O debate principal opôs identidades políticas
e medos cruzados. De um lado, a proteção social e o cuidado com os grupos
oprimidos, acompanhados do medo do autoritarismo, da intervenção estrangeira,
da devastação ambiental descontrolada e do desrespeito aos direitos humanos. Do
outro lado, a família e a ordem social, acompanhadas do medo da corrupção, do
crime organizado, da ideologia progressista e de barreiras sufocantes ao
empreendedorismo.
O Brasil perdeu a capacidade de enxergar e
trabalhar por seus consensos. Queremos simultaneamente programas sociais e
combate à criminalidade; queremos trabalhar por conta própria, mas com
direitos; queremos proteção ao meio ambiente, mas com regras ágeis e razoáveis;
queremos respeitar e proteger mulheres, negros e LGBTs, mas sem os maneirismos
e afetações da cultura progressista.
A polarização política, porém, nos obrigou a
escolher e a sacrificar metade dessa agenda para proteger a outra metade. No
final, perdemos todos. A divisão social nos empurra a escolher entre direitos
sociais e combate à corrupção: ou estamos com o partido que se empenha em criar
sistemas de proteção social ou estamos contra o partido associado ao mensalão e
ao petrolão.
As ameaças que vêm do campo adversário são
existenciais, ameaçam nossa identidade, nosso modo de vida e, no limite, nossa
segurança. A esquerda vê na direita o risco de corrosão democrática, de perda
de direitos sociais, de legitimação da violência contra LGBTs, de devastação
ambiental num período de mudanças climáticas. A direita vê na esquerda o risco
de criminalidade e corrupção desenfreadas, de opressão progressista ao modo de
vida conservador, de desarranjo econômico e venezuelização.
Por esse motivo, não é trivial o risco de não
aceitação do resultado das eleições. No começo da campanha, parecia que o risco
de não reconhecimento dos resultados das urnas viria sobretudo da direita. Em
2022, a direita lançou uma campanha contra a confiabilidade das urnas
eletrônicas e organizou acampamentos em quartéis pedindo intervenção militar.
Mais recentemente, Trump adotou a doutrina Donroe, que trata a América Latina
como sua zona de influência, e tentou enviar funcionários do Departamento de
Estado para avaliar a qualidade do processo eleitoral brasileiro. Parecia que
todo o risco vinha desse campo.
A ofensiva de Trump, porém, deixou a esquerda
em alerta. Foi com esse espírito desconfiado que a militância recebeu as
queixas da campanha de Lula contra a Meta, dona de WhatsApp, Instagram e Facebook. A
campanha apontou falhas nas plataformas e cobrou explicações, com razão. A Meta
ofereceu respostas à Justiça Eleitoral. Na maioria dos casos, a empresa
atribuiu os problemas a falhas técnicas gerais, sem direção política,
oferecendo explicações convincentes. Outras respostas dizem respeito ao
funcionamento interno de seus sistemas que ninguém de fora consegue verificar.
Em nenhum caso, surgiu indício de falha
profunda e sistemática capaz de desequilibrar a eleição. Mas é para essa
leitura que caminha parte da militância que passou a ver nos problemas
apontados um capítulo da interferência americana no processo eleitoral. Se esse
entendimento se consolidar, o risco de não reconhecimento do resultado, que
parecia vir da direita, pode ser hoje maior na esquerda.
Reconhecer o resultado, seja ele qual for,
não é uma deferência ao vencedor, mas condição para o exercício da democracia.
Feito isso, nossa missão é reconciliar o país, transformando o que hoje é uma
disputa existencial na competição entre adversários de boa-fé que atuam sobre
uma base de consensos sociais amplos.
A eleição decide quem governará. O que
fizermos no dia seguinte decide se ainda saberemos viver juntos.

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