Correio Braziliense
A disputa presidencial de 2026 sela o
esgotamento do bolsonarismo e abre a contagem regressiva para a sucessão de
Lula, exigindo renovação total nas urnas
A eleição presidencial, finalmente, chegou ao fim. Com uma virada inédita na disputa pelo Palácio do Planalto, temos hoje um cenário impensável uma semana atrás. Não pela vitória do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, afinal, as pesquisas mostravam um empate técnico, com uma grande mobilização petista nas ruas e nas redes sociais na reta final. Mas por termos o candidato derrotado optado por deixar o país para trás, com seus quase 60 milhões de votos, e adotar um tom golpista menos de 72 horas após a apuração das urnas.
Hoje, apenas cinco dias após as eleições,
ouso dizer que a disputa presidencial de 2026 marcou o fim de duas eras: o
lulismo e, principalmente, o bolsonarismo. Sobre Lula, o presidente terá mais
quatro anos pela frente. Com seus 81 anos completados nesta semana e sem a
possibilidade de disputar uma nova reeleição, a esquerda terá que encontrar um
nome para as eleições de 2030 em diante.
O PT e aliados passam por um nítido processo
de renovação. Velhos nomes saíram derrotados das urnas, mas há lideranças
importantes, inclusive jovens, capazes de assumir protagonismo. O desafio está
em transformar reconhecimento político em densidade eleitoral nacional. Isso
exige tempo, reorganização partidária e uma agenda capaz de dialogar com as
mudanças da sociedade brasileira.
No campo adversário, a decisão do senador
Flávio Bolsonaro de deixar o Brasil e divulgar uma carta de teor
antidemocrático representa mais um sinal de esgotamento do bolsonarismo. O pai
está em prisão domiciliar e com os direitos políticos suspensos. Outros dois
filhos buscaram refúgio nos Estados Unidos diante de possíveis consequências
judiciais.
Em uma democracia, quem se considera
injustiçado dispõe de instrumentos legais para demonstrar a inocência: defesa,
recursos, habeas corpus, imprensa e tribuna parlamentar. Pelo menos até 31 de
janeiro, quanto termina o mandato de senador, Flávio tinha todos os caminhos à
disposição. A escolha de sair do país, em vez de enfrentar as eventuais
acusações pelas vias institucionais, levanta dúvidas sobre a disposição de
respeitar as regras do estado de democrático de direito.
Michelle Bolsonaro aparece como possível
herdeira do capital eleitoral do marido e dos enteados. Há aliados que apostam
em uma emancipação política gradual, com uma carreira própria e menor dependência
do sobrenome. A tarefa, porém, será disputar espaço com outras lideranças da
direita, especialmente o governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas,
fortalecido pelo resultado eleitoral.
A partir de agora, deve ficar mais evidente
que direita e bolsonarismo não são sinônimos. Há espaço para uma corrente
conservadora que participe da disputa democrática sem depender da família
Bolsonaro ou de ataques às instituições. A questão é saber quem conseguirá
ocupar esse espaço. Entre os nomes mais jovens, Renan Santos e Kim Kataguiri se
colocam como opção, demonstram força nas redes sociais e também capacidade de articulação. A
dúvida é se vão se mostrar viáveis eleitoralmente.
O fim de uma era política raramente ocorre de
uma vez. Lula ainda terá quatro anos para organizar a sucessão, enquanto a
direita precisará decidir se continuará subordinada ao legado de Bolsonaro. As
eleições de 2026 caminham para entrar para a história como o fim de ciclos. O
que virá depois dependerá da capacidade de cada campo de renovar lideranças e
apresentar respostas aos problemas reais do país.

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