Correio Braziliense
A disposição para o contato abre uma
possibilidade de acomodação, mas convive com declarações que alimentam a
narrativa do candidato derrotado
A fuga de Flávio Bolsonaro para os Estados Unidos foi politicamente desastrosa aqui no Brasil. Derrotado nas urnas, o senador tinha condições de disputar o comando de uma oposição numerosa, com força no Congresso e nos estados. Ao deixar o país e divulgar uma carta na qual se proclamava "verdadeiro presidente eleito do Brasil", transformou esse patrimônio numa crise de credibilidade. O recuo, substituindo a expressão por "líder do Brasil", agravou o constrangimento. Sua iniciativa não encontrou sustentação entre seus próprios aliados nem teve respaldo da Casa Branca.
A carta pretendia conferir dimensão histórica
à saída do país. As comparações com personagens que enfrentaram ditaduras e
organizaram resistências no exílio procuravam converter um problema judicial em
missão política. Mas a autoproclamação produziu o efeito contrário. Em lugar de
estabelecer uma liderança incontestável, obrigou os apoiadores a escolher entre
acompanhar uma aventura ou preservar sua participação nas instituições
brasileiras. O governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas, e o próprio presidente
do PL, Valdemar Costa Neto, reconheceram a eleição de Lula com um "bola
pra frente".
Todos os integrantes do grupo político de
Flávio disseram ter sido surpreendidos pela fuga. Verdade ou não, depois vieram
as manifestações em defesa do resultado eleitoral. Rogério Marinho, coordenador
de sua campanha, tratou a carta como desabafo e reconheceu que faltavam provas
para sustentar a acusação de fraude. Tarcísio de Freitas defendeu o respeito às
urnas. O próprio PL reconheceu o resultado.
A tentativa de atribuir as versões
contraditórias da carta a problemas na utilização de inteligência artificial,
por Paulo Figueiredo, um dos mais radicais aliados de Flávio, só aumentou o
desgaste. O que acabou chegando à Casa Branca. Integrantes da administração
republicana consideraram inviável a pretensão de Flávio de apresentar-se como
presidente eleito e pressionaram pelo recuo. Há uma diferença entre acolher um
aliado e reconhecer um governo paralelo. A carta tentou atravessar essa
fronteira.
Entretanto, o episódio não está encerrado.
Segundo reportagem do New York Times, Jason Miller, funcionário da Casa Branca,
providenciou o avião utilizado pelo senador, em articulação com Eduardo
Bolsonaro. A entrada da família sob autorização migratória temporária teria
ocorrido por ordem de Donald Trump. A operação, portanto, teve participação de
integrantes do governo norte-americano.
Essa proteção assegura a Flávio condições
para continuar atuando do exterior, embora não lhe restitua automaticamente a
autoridade perdida entre os aliados. O bolsonarismo mantém expressão eleitoral,
organização e capacidade de mobilização. Sua fuga pode enfraquecer o candidato,
mas não deixou baratinada a oposição. Confundir essas duas coisas subestima a
oposição, que continuará explorando os conflitos com o Supremo e as
dificuldades econômicas enfrentadas pelo governo Lula.
Decantação
Trump age com ambiguidade: ainda não
reconheceu formalmente a vitória de Lula, continua desqualificando a eleição e
lança suspeitas sem apresentar provas. Ao mesmo tempo, declarou que pretende
conversar com o presidente brasileiro e parabenizá-lo. A disposição para o
contato abre uma possibilidade de acomodação, mas convive com declarações que
alimentam a narrativa do candidato derrotado.
A orientação do Itamaraty é não estressar a
relação ainda mais. Cobrar publicamente um reconhecimento poderia transformar a
hesitação de Trump numa disputa pessoal, oferecendo a Flávio a centralidade que
perdeu no Brasil. A legitimidade de Lula decorre das urnas e das instituições
brasileiras, daí o amplo apoio internacional que sua eleição obteve. O governo
pretende preservar as negociações comerciais, manter os canais diplomáticos e
dar tempo para que Washington absorva a derrota de seu aliado.
O termômetro das relações será o possível
encontro entre Mauro Vieira e Marco Rubio, à margem da reunião de chanceleres
do G20, em Atlanta. Até agora, não há confirmação de uma bilateral. Principal
interlocutor do bolsonarismo na administração Trump, Rubio representa a
vertente mais ideológica da política norte-americana para a América Latina e
sua aposta no fortalecimento da direita sul-americana. Uma conversa permitirá
avaliar quanto espaço haverá para o pragmatismo. Se a fuga de Flávio Bolsonaro
foi um fiasco político, o Itamaraty ainda opera para impedir que esse fracasso
seja convertido numa crise duradoura entre os dois países.
No Congresso, enquanto bolsonaristas e
petistas se digladiam, está em curso um realinhamento de forças operado pelo
Centrão. Na Câmara, Hugo Motta (Republicanos-PB) tenta manter o controle da
Casa e isola o PL, que tem a maior bancada. No Senado, uma luz amarela foi
acesa porque uma ala do PL resolveu tentar um acordo na eleição de Davi
Alcolumbre (União-AP) em troca da aprovação de um indulto para Jair Bolsonaro,
o que já foi criticado pelo senador eleito Rui Costa (PT-BA). Enquanto as
conversas rolam nos bastidores do Senado, governistas e bolsonaristas sobem o
tom dos ataques na Câmara. De um lado, o deputado André Janones (Rede-MG),
general do "Exército de Lula; de outro, Nikolas Ferreira (PL-MG), com sua
"Turma do Flávio".

O Brasil precisa de paz,chega de contenda.
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