O Estado de S. Paulo
Os dois candidatos prometem transformar as nossas riquezas naturais em prosperidade
O Brasil está prestes a escolher seu próximo
presidente num momento em que a economia mundial se reorganiza em torno de
grandes interesses estratégicos. A mídia tem colocado o Brasil como peça
importante no tabuleiro de Donald Trump. No ambiente em que os choques
econômicos devem continuar ocorrendo, tudo indica que viveremos uma ordem
internacional na qual as grandes potências seguirão impondo seus interesses.
O Brasil entra nesse jogo com vantagens consideráveis. Possui a segunda maior reserva mundial de terras raras, uma matriz elétrica renovável e recursos agrícolas, minerais e energéticos cobiçados internacionalmente. São ativos que podem adquirir ainda mais valor com a transição energética e a expansão das novas tecnologias.
Nesta reta final da corrida eleitoral, chama
a atenção que os dois candidatos dediquem mais tempo na troca de acusações e
pouco discutam suas propostas de como inserir o Brasil nesse ambiente com alto
grau de incerteza.
De forma sintética, pode ser percebido que as
duas propostas são quase antagônicas. Lula aposta na diversificação das
relações internacionais e na atuação do Estado para transformar as riquezas
naturais em desenvolvimento industrial, enfrentando os desafios da eficiência e
das restrições fiscais. Flávio Bolsonaro privilegia a aproximação com os
Estados Unidos e o investimento privado, buscando capital e tecnologia, mas com
o risco de reduzir a autonomia brasileira e seu poder de negociação diante das
grandes potências.
O Brasil precisa de capital, tecnologia e
acesso a mercados para transformar suas riquezas naturais em produtos de maior
valor agregado. Mas os interesses não são necessariamente coincidentes.
Aos Estados Unidos pode bastar garantir o
fornecimento de minerais estratégicos e reduzir sua dependência da China. Ao Brasil
interessa também processá-los, desenvolver tecnologia, criar empregos
qualificados e preservar outros mercados. Conciliar esses objetivos exige
contrapartidas concretas, que não estão asseguradas pela simples aproximação
política.
O desafio econômico do próximo governo,
portanto, não será apenas atrair investimentos estrangeiros. Será garantir que
a nova disputa mundial por recursos estratégicos se traduza em maior
produtividade, desenvolvimento tecnológico e renda para os brasileiros.
Lula e Bolsonaro prometem transformar nossas
riquezas naturais em prosperidade. Mas ter recursos estratégicos não basta: é
preciso saber negociá-los, agregar valor e garantir que os benefícios
permaneçam no País. Até agora, entre propostas e políticas anunciadas, faltam
demonstrações convincentes de como alcançar esses resultados. O Brasil tem o
que o mundo quer. Falta aos candidatos demonstrarem como farão para que essa
riqueza trabalhe a nosso favor.

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