sábado, 17 de outubro de 2026

O preço de nossas escolhas, por Fabio Gallo

O Estado de S. Paulo

Os dois candidatos prometem transformar as nossas riquezas naturais em prosperidade

O Brasil está prestes a escolher seu próximo presidente num momento em que a economia mundial se reorganiza em torno de grandes interesses estratégicos. A mídia tem colocado o Brasil como peça importante no tabuleiro de Donald Trump. No ambiente em que os choques econômicos devem continuar ocorrendo, tudo indica que viveremos uma ordem internacional na qual as grandes potências seguirão impondo seus interesses.

O Brasil entra nesse jogo com vantagens consideráveis. Possui a segunda maior reserva mundial de terras raras, uma matriz elétrica renovável e recursos agrícolas, minerais e energéticos cobiçados internacionalmente. São ativos que podem adquirir ainda mais valor com a transição energética e a expansão das novas tecnologias.

Nesta reta final da corrida eleitoral, chama a atenção que os dois candidatos dediquem mais tempo na troca de acusações e pouco discutam suas propostas de como inserir o Brasil nesse ambiente com alto grau de incerteza.

De forma sintética, pode ser percebido que as duas propostas são quase antagônicas. Lula aposta na diversificação das relações internacionais e na atuação do Estado para transformar as riquezas naturais em desenvolvimento industrial, enfrentando os desafios da eficiência e das restrições fiscais. Flávio Bolsonaro privilegia a aproximação com os Estados Unidos e o investimento privado, buscando capital e tecnologia, mas com o risco de reduzir a autonomia brasileira e seu poder de negociação diante das grandes potências.

O Brasil precisa de capital, tecnologia e acesso a mercados para transformar suas riquezas naturais em produtos de maior valor agregado. Mas os interesses não são necessariamente coincidentes.

Aos Estados Unidos pode bastar garantir o fornecimento de minerais estratégicos e reduzir sua dependência da China. Ao Brasil interessa também processá-los, desenvolver tecnologia, criar empregos qualificados e preservar outros mercados. Conciliar esses objetivos exige contrapartidas concretas, que não estão asseguradas pela simples aproximação política.

O desafio econômico do próximo governo, portanto, não será apenas atrair investimentos estrangeiros. Será garantir que a nova disputa mundial por recursos estratégicos se traduza em maior produtividade, desenvolvimento tecnológico e renda para os brasileiros.

Lula e Bolsonaro prometem transformar nossas riquezas naturais em prosperidade. Mas ter recursos estratégicos não basta: é preciso saber negociá-los, agregar valor e garantir que os benefícios permaneçam no País. Até agora, entre propostas e políticas anunciadas, faltam demonstrações convincentes de como alcançar esses resultados. O Brasil tem o que o mundo quer. Falta aos candidatos demonstrarem como farão para que essa riqueza trabalhe a nosso favor.

 

 

 

 

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