O Estado de S. Paulo
Lula concebeu o governo “quatro anos em um
mês”. Este mês pujante – revisor de tabus e concentrador de muitas realizações
e promessas – sendo coincidente com o período de campanha eleitoral. Não será
coincidência.
Mês cujo marco disparador do calendário
talvez seja o reajuste do Bolsa Família a 17 dias do primeiro turno. Reajuste ignorado
entre janeiro de 2023 e setembro de 2026. Reajuste que Lula – conforme disse a
Renata Lo Prete – desconhecia não ter sido dado por seu terceiro governo. Ele
não sabia. Ao saber, mandou dar tudo.
Preferiu passar por desinformado sobre sua gestão a admitir o que está fazendo.
A 12 dias do segundo turno, anunciou aos
microempreendedores individuais que lhes perdoará as dívidas com a União e que
pretende lhes comprar àquelas tomadas aos bancos. Prometeu também lhes dar –
Pix na veia – R$ 5 mil. Dinheiro doado mesmo. Condição: só se ganhar a eleição.
Fez lembrar aquele samba da Tradição em homenagem a Silvio Santos: “Quem quer
dinheiro? O aviãozinho vai subir”. Se ganhar a eleição, também garantirá
transporte com tarifa zero nos finais de semana.
Fosse outro o prometente, seria acusado de
compra de votos. Enquanto o TSE de Nunes Marques se dedica a censurar
xandonicamente, os abusos de poder vão sendo chancelados pelo Congresso. Saídos
das urnas no primeiro turno com o rei na barriga, os senadores e deputados
bolsonaristas logo plantaram seus planos de dominação das casas legislativas,
já disputando entre si quem comandaria a Câmara. É a fortaleza de
reação-proteção centrônica contra essa investida – pacto pela manutenção
daquele poder – que Lula escala para aprovar-tratorar geral. Hugo Motta sentiu
que pode assegurar a sua reeleição assim.
É possível que o presidente não soubesse que
a criação do Ministério da Segurança Pública – promessa na campanha de 2022 –
exigiria antes a aprovação de uma emenda à Constituição. PEC remetida à Câmara
somente em 2025 e pela qual, para que aprovada antes de 25 de outubro, ora se
tenta armar uma blitz no Senado. O cronista pensou nisto como provocação: que
não será surpresa o presidente lançar esse ministério ainda antes do segundo
turno.
Não deixa de aliviar que, depois de
correr-ocorrer longamente no Supremo, a campanha eleitoral se tenha deslocado
para o terreno da política – o Parlamento. Não que o surto lulista do Senado
alcolúmbrico, surto pela sobrevivência, não tenha na origem a intervenção
partidária do STF. Foi Alexandre de Moraes o articulador-anfitrião original da
paz entre Lula e o imperador Davi Alcolumbre; Xandão – aquele que condenara
Jair Bolsonaro – sendo o padrinho do arranjo que daria ao candidato à reeleição,
adversário do filho de Jair, o presente almejado, joia da coroa do governo
“quatro anos em um mês”: o fim da jornada de trabalho 6x1.

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