sábado, 17 de outubro de 2026

Os ‘quatro anos em um mês’ de Lula, por Carlos Andreazza

O Estado de S. Paulo

Lula concebeu o governo “quatro anos em um mês”. Este mês pujante – revisor de tabus e concentrador de muitas realizações e promessas – sendo coincidente com o período de campanha eleitoral. Não será coincidência.

Mês cujo marco disparador do calendário talvez seja o reajuste do Bolsa Família a 17 dias do primeiro turno. Reajuste ignorado entre janeiro de 2023 e setembro de 2026. Reajuste que Lula – conforme disse a Renata Lo Prete – desconhecia não ter sido dado por seu terceiro governo. Ele não sabia. Ao saber, mandou dar tudo.

Preferiu passar por desinformado sobre sua gestão a admitir o que está fazendo.

A 12 dias do segundo turno, anunciou aos microempreendedores individuais que lhes perdoará as dívidas com a União e que pretende lhes comprar àquelas tomadas aos bancos. Prometeu também lhes dar – Pix na veia – R$ 5 mil. Dinheiro doado mesmo. Condição: só se ganhar a eleição. Fez lembrar aquele samba da Tradição em homenagem a Silvio Santos: “Quem quer dinheiro? O aviãozinho vai subir”. Se ganhar a eleição, também garantirá transporte com tarifa zero nos finais de semana.

Fosse outro o prometente, seria acusado de compra de votos. Enquanto o TSE de Nunes Marques se dedica a censurar xandonicamente, os abusos de poder vão sendo chancelados pelo Congresso. Saídos das urnas no primeiro turno com o rei na barriga, os senadores e deputados bolsonaristas logo plantaram seus planos de dominação das casas legislativas, já disputando entre si quem comandaria a Câmara. É a fortaleza de reação-proteção centrônica contra essa investida – pacto pela manutenção daquele poder – que Lula escala para aprovar-tratorar geral. Hugo Motta sentiu que pode assegurar a sua reeleição assim.

É possível que o presidente não soubesse que a criação do Ministério da Segurança Pública – promessa na campanha de 2022 – exigiria antes a aprovação de uma emenda à Constituição. PEC remetida à Câmara somente em 2025 e pela qual, para que aprovada antes de 25 de outubro, ora se tenta armar uma blitz no Senado. O cronista pensou nisto como provocação: que não será surpresa o presidente lançar esse ministério ainda antes do segundo turno.

Não deixa de aliviar que, depois de correr-ocorrer longamente no Supremo, a campanha eleitoral se tenha deslocado para o terreno da política – o Parlamento. Não que o surto lulista do Senado alcolúmbrico, surto pela sobrevivência, não tenha na origem a intervenção partidária do STF. Foi Alexandre de Moraes o articulador-anfitrião original da paz entre Lula e o imperador Davi Alcolumbre; Xandão – aquele que condenara Jair Bolsonaro – sendo o padrinho do arranjo que daria ao candidato à reeleição, adversário do filho de Jair, o presente almejado, joia da coroa do governo “quatro anos em um mês”: o fim da jornada de trabalho 6x1.

 

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