Folha de S. Paulo
Nenhum país na história melhorou a segurança
armando a população
Política de liberação de armas aumenta mortes
e moderniza arsenal do crime
Nunca tomei um tiro. Meu irmão, sim, no assento do motorista ao meu lado, o carro na frente de casa. Assalto sem anúncio, irrompido com o estrondo da bala. Entendi quando vi sangue escorrer pelo seu pescoço. Meu primeiro tiro aconteceu na adolescência. Por sorte e privilégio, nunca presenciei um segundo tiro.
Minha anedota pessoal não é mais trágica do que as de milhares de
famílias. Em geral, famílias das periferias onde é mais fácil matar e morrer
sem consequência.
Falo do assunto com carga existencial. Mas
meu trauma não serve para discutir política pública de segurança e de controle
de armas. Não serve para dar à minha opinião e emoção uma autoridade especial.
Qualifica apenas meu respeito ao esforço de pesquisadores que decifram a
multicausalidade da violência
armada que afeta, primeiro, a vida de mulheres, crianças, pretos e pobres.
Sempre primeiro.
É a ciência social, não minha história ou
minha raiva armada, ou a sua, que explica como medidas anunciadas por Flávio
agravam radicalmente a violência letal contra cidadãos em geral.
Há evidências reiteradas para teses
incontroversas. Primeira tese: nenhum país na história moderna melhorou
segurança armando a população. O aumento da circulação de armas na população
civil não só faz crescer o crime violento, mas também o risco de suicídio, de
ser morto, de feminicídio e a morte de crianças.
Estados Unidos e Austrália
oferecem melhor contraste: um facilita cada vez mais o acesso a armas, as taxas
de homicídio crescem astronomicamente; o outro adotou legislação restritiva
após atentado, e teve queda drástica e duradoura. A facilitação do acesso à
arma de fogo não reduz criminalidade e resulta em aumento de mortes.
Segunda tese: flexibilização de controle de armas por Bolsonaro explodiu
o número de aquisições pela população, facilitou desvio, modernizou arsenal do
crime e aumentou letalidade. Bolsonaro vendeu o slogan "arma para o
cidadão de bem" e entregou abastecimento subsidiado para facções.
Terceira tese: marcação de munições é
impressão digital que permite investigar e esclarecer crimes, rastrear
cartuchos da fabricação ao destino final, e desarticular rotas de tráfico nas
fronteiras. Quer implantar a "CNH das armas", sem exigir
"efetiva necessidade" de quem adquire. Quem mais adquire é o crime.
A política defendida pelo governo
Bolsonaro contribuiu para aumento do número de mortes de mulheres e
crianças. Governo Lula preferiu valorizar a polícia ao sancionar as Leis
Orgânicas da Polícia Militar e das Polícias Civis. Preferiu também armar a
polícia. Investiu R$ 261 milhões na compra de novas armas, quase o dobro do
governo anterior.
A desinteligência penal brasileira não é
desinteligência, mas técnica para ganhar voto pela exploração do medo e da
raiva. Uma forma de dominação autoritária.
A técnica financia a industrialização do
crime com recurso público e a legitimidade do voto. Paradoxo cruel: prometo
combater o crime por vias que o tornam cada vez mais forte; me elejo e reelejo.
Tamanho conhecimento empírico lhe dá
consciência antecipada das consequências do seu voto. E das responsabilidades.
Nesse e noutros assuntos. Quando a contabilidade das vidas terminadas pelo tiro
aparecer, só não vai ser aceitável alegar ignorância.

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