Sem liberdade não há debate
Por O Globo
Diante da interferência política da Justiça e das violações à Constituição e à liberdade de imprensa, a TV Globo tomou a única decisão cabível: cancelou o debate entre candidatos à Presidência da República previsto para hoje. Atendendo a uma demanda do PT, a ministra Estela Aranha, do Tribunal Superior Eleitoral (TSE), determinou horas antes do debate que a Globo retirasse do palco o púlpito reservado ao presidente Luiz Inácio Lula da Silva, que havia desistido de participar, e que impedisse os demais candidatos de dirigir perguntas ao púlpito vazio, como determinavam as regras. De acordo com a ata da reunião que estabeleceu tais regras, assinada por representantes de todas as campanhas – inclusive a de Lula –, caso algum candidato decidisse não comparecer, o púlpito ficaria vazio, e os demais teriam direito a dirigir uma pergunta por bloco ao ausente.
Não foi a única decisão da Justiça a intervir no debate. Na última terça-feira, o ministro Kassio Nunes Marques, presidente do TSE, já havia determinado a inclusão do candidato Romeu Zema (Novo), adotando uma interpretação elástica da lei eleitoral, segundo a qual partidos com mais de cinco parlamentares têm direito a participar (o Novo tinha três no início da atual legislatura, mas a decisão considerou os cinco logo antes do início da campanha). Por fim, o ministro Gilmar Mendes determinou, também horas antes do debate, a inclusão do candidato Renan Santos (Missão), ainda que ele não satisfizesse às exigências acordadas previamente.
Indicada ao cargo pelo próprio Lula, a ministra Estela Aranha criou um desequilíbrio em favor do candidato petista, em detrimento dos demais postulantes ao Planalto. Depois da decisão, o candidato Flávio Bolsonaro (PL), cuja presença estava confirmada, também anunciou sua desistência.
Regras prevendo o púlpito vazio também foram adotadas noutros debates na atual campanha e em campanhas anteriores, e não apenas pela Globo. Em todos, foram respeitadas sem queixas. Tanto que, no primeiro debate deste ano, organizado pela Band, Lula e Flávio faltaram, e o espaço reservado a ambos ficou vazio diante das câmeras. No primeiro turno na eleição de 2006, o mesmo Lula deixou de comparecer ao debate da Globo – e perguntas foram dirigidas ao púlpito vazio pelos candidatos adversários. Por que as mesmas regras não deveriam valer nesta eleição?
Em sua liminar, a ministra argumenta que “a medida tem potencial para causar situação de desequilíbrio entre os participantes, conferindo espaço autônomo para referências a candidato ausente sem observância da dinâmica dialética que caracteriza o instituto do debate eleitoral”. Ora, trata-se de uma alegação sem nexo. Para observar a “dinâmica dialética”, bastaria a Lula comparecer ao debate. Sua ausência em nada evitaria citações a seu nome. Quem fez mal a si mesmo foi o próprio Lula.
O debate existe para informar o eleitor sobre ideias e propostas num ambiente jornalístico livre, não numa entrevista controlada. Todos os candidatos deveriam comparecer. Desistir de debater e entrar com o pedido de liminar junto ao TSE demonstra desrespeito não apenas com o documento firmado estabelecendo as regras, mas também com o eleitor. E mancha as até agora limpas credenciais democráticas do próprio Lula. Não há condição de realizar um debate livre se a Justiça intervém horas antes numa afronta à liberdade de imprensa. A politização perniciosa que tem acometido os tribunais superiores no Brasil justifica plenamente a decisão da Globo.
Por O Globo
A dias do pleito, quase três em cinco
brasileiros não sabiam em quem votar para deputado ou senador
A menos de uma semana da eleição, 59% declaram não saber em quem votarão para senador e 57% não definiram seus votos para deputado federal e estadual, segundo pesquisa Datafolha. É compreensível que a atenção do eleitor esteja fixada nas disputas por cargos no Executivo, sobretudo presidente. Mas a indefinição a respeito de candidatos ao Congresso a tão pouco tempo do pleito revela falta de conhecimento sobre a extensão da influência dos parlamentares nos destinos do país. Ela é enorme.
Como em toda eleição presidencial, estarão em
disputa neste ano as 513 cadeiras da Câmara. No Senado, onde os mandatos duram
oito anos, dois terços das vagas (54 das 81) serão definidos. A partir do ano
que vem, os eleitos para o Parlamento decidirão sobre os mais variados temas —
da saúde à segurança, da economia à educação. Parlamentares têm o poder de
mudar e criar regras com reflexos imediatos na vida do cidadão.
Quem não suporta mais a ineficiência dos
serviços públicos pode examinar o que os candidatos já disseram e dizem sobre a
reforma administrativa. Parada no Congresso por falta de consenso, é a proposta
mais abrangente de reestruturação do Estado desde a Constituição de 1988. O
texto combate os supersalários da elite do funcionalismo, institui parâmetros
de progressão de carreira baseados em mérito, obriga os gestores a trabalhar
com metas e defende a digitalização dos serviços públicos.
O eleitor intimidado pela criminalidade deve
pesquisar a opinião dos candidatos a respeito da Proposta de Emenda à
Constituição (PEC) da Segurança. Sofisticadas e gigantes, as principais facções
do crime organizado funcionam como corporações multinacionais. Assim como as
milícias, estão imbricadas na vida econômica e estendem seus tentáculos pela
política. Para as ações criminosas, não há fronteiras. A repressão do Estado é
falha. Forças policiais fragmentadas, organizadas em unidades estaduais com
pouca articulação entre si, como se ainda estivéssemos na década de 1980, não
têm sido eficazes para enfrentar o desafio. A PEC da Segurança estabelece
cooperação maior entre o governo federal e os estados, dá segurança jurídica
para a Polícia Federal combater as facções e aumenta as atribuições da Polícia
Rodoviária Federal.
Deputados e senadores que tomarão posse no
ano que vem também terão a chance de pôr um mínimo de ordem na aberração das
emendas parlamentares. Diferentemente do que acontece no restante do mundo, no
Brasil os congressistas decidem onde mais de 20% das receitas livres do
Orçamento são aplicadas. A lógica paroquial é um empecilho para as tentativas
de melhorar o planejamento e a eficiência do gasto público.
Por fim, os eleitores têm a chance de afastar
do Congresso todos os que buscam reeleição tendo no currículo fortes indícios
de corrupção. São públicos os históricos de condenações, denúncias e
indiciamentos baseados em investigações policiais. Mesmo quem nunca foi
investigado, mas passou a ter sucesso fora do comum em seus negócios depois de
eleito, deveria ser analisado com mais atenção. A qualidade e a lisura da
próxima legislatura dependerão das escolhas que serão feitas no próximo domingo
para os cargos no Legislativo. Passou da hora de o eleitor lhes dar a devida
atenção.
Fracasso do Move Motos expõe limites das
políticas eleitoreiras
Por O Globo
Adesão é baixa, pois interessados encontram
dificuldades que não foram vislumbradas pelo governo
Não é de surpreender o fracasso do programa
do governo federal que facilita o crédito a entregadores e mototaxistas de
aplicativos para compra de veículos novos. O Move Motos, uma das muitas medidas
adotadas para tentar aumentar a popularidade do presidente Luiz Inácio Lula
da Silva, tem frustrado as expectativas. Desde o início, em meados de julho,
17,7 mil entregadores contrataram empréstimos, num valor de R$ 384 milhões,
como mostrou
reportagem do GLOBO. Técnicos esperavam entre 700 mil e 1,2 milhão de
beneficiados.
As limitações do programa já haviam ficado
claras pela baixa adesão das instituições financeiras. Além dos estatais Banco
do Brasil e Caixa Econômica Federal, só aderiram os bancos Yamaha e Honda,
ligados a fabricantes de motos, por interesse na iniciativa.
O programa é destinado a ciclistas e
motociclistas cadastrados em aplicativos há pelo menos seis meses com no mínimo
cem corridas, ou ciclistas, motofretistas ou mototaxistas profissionais com
contratos formais há pelo menos seis meses. As condições são atraentes: juros
de até 0,99% ao mês para homens e 0,91% para mulheres. O parcelamento pode ser
feito em até 48 meses. Houve reserva de R$ 1,25 bilhão do Fundo Garantidor de
Operações para cobrir possíveis calotes.
Apesar das condições favoráveis, os
interessados encontram dificuldades que não foram vislumbradas pelo governo. Um
entregador que trabalha no setor há mais de três anos tentou comprar uma moto
pelo programa, mas não foi aprovado. Ele acredita que tenha sido barrado porque
seu nome está negativado por dívidas não pagas. “Tentei aderir pelo gov.br,
deram prazo para o requerimento e, quando fiz, não foi aceito. Parecia fácil
pela propaganda”, disse. Casos como esse são uma realidade que o governo parece
ignorar.
O Move Motos integra um programa maior, o
Move Brasil, que também enfrenta dificuldades. No início de agosto, pouco mais
de um mês depois de lançado, o financiamento de automóveis para taxistas e
motoristas de aplicativos não havia deslanchado. Dos R$ 30 bilhões reservados,
a demanda atingira R$ 2,2 bilhões, ou 7,3% do total. Entre os principais
empecilhos são apontados a inadimplência, o endividamento alto e a dificuldade
para comprovar renda. Situações previsíveis.
Não há nada de errado em facilitar condições
para que taxistas, mototaxistas, motoristas de aplicativos ou entregadores
renovem seus veículos de trabalho. O problema é esses programas terem surgido
não da demanda legítima das categorias, mas de objetivos puramente
eleitoreiros. Políticas públicas devem ser formatadas de acordo com seus
efeitos na economia e na sociedade, com base em estudos academicamente robustos
— e não nos índices de popularidade, para agradar a este ou àquele público
arredio.
Chega a ser irônico que o governo lance programas, e os potenciais beneficiários não possam participar porque têm dívidas que não conseguem pagar devido ao descontrole fiscal do próprio governo — maior causa dos juros altos que perpetuam o endividamento.
Ataque de juízes prejudica neutralidade da
eleição
Por Folha de S. Paulo
Intervenção de Gilmar e censura de ministra
do TSE para proteger Lula maculam a toga e enfraquecem defesas da democracia
Um patrimônio da democracia brasileira está
ameaçado. As constantes e cada vez mais audaciosas intervenções impróprias e
partidárias de juízes do Supremo Tribunal Federal no processo eleitoral estão
corroendo a autoridade da arbitragem do processo, que deveria ser neutra,
previsível e equidistante.
O que Jair
Bolsonaro (PL)
cogitou fazer pela força, e por isso foi com razão processado e condenado,
algumas autoridades que atuaram no seu julgamento o fazem agora, movidas pelo
desespero da autopreservação. Rasgam a toga, atropelam os ritos e fazem o diabo
para favorecer a candidatura de Luiz Inácio Lula da Silva (PT).
O ministro Gilmar Mendes
acaba de atropelar decisão de sua colega Cármen Lúcia para obrigar
a TV Globo a aceitar a presença do candidato do Missão, Renan Santos,
no debate presidencial que estava marcado para para esta quinta (1). Tomou
atalho processual e monocrático de fazer corar a tradição centenária da corte.
Renan não tem respaldo da lei eleitoral para
receber assento obrigatório no debate. Ganhou o tíquete de presente de Gilmar
porque prometia atazanar Flávio
Bolsonaro (PL) no programa. No pretexto do juiz, de preservar a liberdade
de expressão, acredita apenas quem não assistiu ao festival de censuras
protagonizado pelo Supremo, com o endosso do decano, nos últimos anos.
Mas censura de fato também não faltou nesse
episódio abominável. A magistrada do TSE Estela Aranha,
ligada a Flávio
Dino, do STF,
impediu, numa outra canetada solitária, a
emissora carioca de exibir a cadeira vazia reservada a Lula, que decidira
não comparecer ao evento.
Na agonia para favorecer o incumbente, agora
se decide o que uma emissora pode transmitir ao público num debate. A cadeira
vazia, símbolo do desprezo dos candidatos pela prestação de contas, tem uma longa
tradição no Brasil. Mas a Lula, casuisticamente, não se aplica. O
debate foi cancelado, e só os petistas comemoraram.
Onde a marcha do arbítrio vai parar não se
sabe. Intervir com tal descaramento na mediação do processo em plena disputa
eleitoral seria há pouco tempo impensável, algo associado a repúblicas de
bananas. Não é mais.
Destruir o que a Nova República levou 40 anos
para colocar de pé não pode ser o preço da luta pela sobrevivência individual.
Tudo o que os inimigos da Constituição de 1988 desejam é que o regime se
enfraqueça para que seja mais fácil subvertê-lo com seus projetos tirânicos.
É irônico, mas verdadeiro, que a
autodestruição seja conduzida por quem tem o dever de defender a Carta.
Agências e órgãos reguladores precisam ser
fortalecidos
Por Folha de S. Paulo
É correta proposta do governo Lula de elevar
os recursos para BC, Coaf e CVM, não só devido ao caso Master
Instituições precisam de previsibilidade para
atuar com autonomia; passo importante será aprovar a autonomia financeira do
Banco Central
Merece apoio a decisão do governo Luiz Inácio
Lula
da Silva (PT)
de fortalecer o Banco Central
—nele incluído o Conselho de Controle de Atividades Financeiras (Coaf)— e a
Comissão de Valores Mobiliários (CVM) no projeto de Orçamento para o próximo
ano.
Conforme a Folha noticiou, esses órgãos
reguladores do mercado financeiro foram
contemplados com R$ 6,5 bilhões na proposta enviada ao Congresso
Nacional, o que representa um aumento de 10,7% —mais de 5% acima da
inflação— sobre os pouco menos de R$ 5,9 bilhões disponíveis em 2026.
Nessa base de comparação, o BC terá sua
dotação elevada em 8%, para R$ 5,3 bilhões. Entre as divisões e atividades da
autoridade monetária, o Coaf, unidade de inteligência, recebeu grande reforço,
de menos de R$ 21 milhões para R$ 150 milhões, alta em torno de 630%, e a
supervisão do sistema financeiro teve ganho de 31%, com R$ 359 milhões.
Já a CVM, autarquia responsável por regular e
fiscalizar o mercado de capitais, teve seus recursos aumentados em 23%, para R$
1,2 bilhão em 2027. Na rubrica de supervisão, há salto de 515%, para R$ 122
milhões.
É intuitivo associar o incremento de verbas
ao escândalo do Banco Master,
no qual os órgãos de controle foram incapazes de impedir, por motivos ainda sob
investigação, uma fraude que gerou o rombo recorde de R$ 60 bilhões no sistema
bancário. Esse já seria um bom motivo, mas não deveria ser o único.
Instituições do gênero, que incluem ainda as
agências reguladoras da infraestrutura e de outros setores, precisam de
recursos estáveis para exercer suas tarefas com autonomia ante pressões
políticas e empresariais.
Elas têm enfrentado, no entanto, não apenas a
má vontade de governantes e legisladores, que preferem seu aparelhamento, como
o estrangulamento orçamentário decorrente da expansão desordenada das despesas
públicas de caráter obrigatório.
A CVM é um
exemplo dramático de esvaziamento. Iniciou este ano com apenas duas
de suas cinco diretorias ocupadas —as indicações têm sido objeto de disputa
política com o Senado,
responsável por aprová-las— e ficou cinco meses sem julgamentos.
As agências reguladoras relatam um bloqueio
de R$ 287 milhões em suas verbas em 2026. Segundo a CNN Brasil, as agências
ligadas ao setor de transportes obtiveram um acréscimo de 37% no projeto de
Orçamento de 2027, o que é alvissareiro.
Não por acaso, tramitam no Congresso projetos
para dar maior previsibilidade ao trabalho dessas instituições. O Senado
aprovou texto proibindo o contingenciamento de recursos de 12 reguladoras, que
idealmente deveria ser debatido à luz de reformas fiscais mais amplas.
Passo importante será aprovar a autonomia financeira do BC, que é capaz de gerar suas receitas e precisa se manter a salvo de pressões na definição dos juros e na regulação do mercado.
Professores ensinam melhor com dedicação
exclusiva
Por Folha de S. Paulo
Taxa de docentes do país que estão em mais de
uma escola é uma das mais altas em avaliação da OCDE
Para conter o fenômeno que pode prejudicar a
aprendizagem, pesquisa brasileira indica a expansão do modelo de ensino em
tempo integral
É consenso em pesquisas locais e
internacionais que, quanto mais tempo o professor dedica a uma só escola, maior
a probabilidade de melhorar o desempenho do alunado.
O Brasil enfrenta desafios nesse setor.
Segundo relatório da Fundação Carlos Chagas, em parceria com o Lemann Center e
a organização D3e, com base no Censo Escolar 2023, 19% dos docentes da educação
básica no país trabalhavam em ao menos duas escolas. No ensino médio, a taxa chegou
a 36%, e nos anos finais do ensino fundamental, a 34%.
Os pesquisadores compararam esses dados com os da Pesquisa Internacional sobre Ensino e Aprendizagem (Talis, na sigla em inglês) da OCDE de 2020. Considerando apenas os anos finais do fundamental, 71% dos 48 países avaliados tinham no máximo 5% dos docentes nessa situação.
O relatório aponta causas e propõe recomendações.
É comum que as redes ofereçam cargos de 20 ou
30 horas semanais, não de 40 horas. Assim, o professor tende a buscar
complementação salarial. Ademais, mesmo contratado por 20 ou 30 horas, ele pode
não encontrar aulas suficientes da sua disciplina.
Em 2023, enquanto em língua portuguesa,
matemática, ciências, história e geografia a taxa de docentes em múltiplas
escolas era de quase 20%, em física, química, biologia e sociologia, que têm
menos aulas por semana, ela subia para cerca de 40%.
Nas cinco redes estaduais analisadas, os
professores temporários representavam mais de 30% do quadro do magistério; em
três, superavam 50%. A instabilidade do contrato favorece a busca por trabalho
adicional.
Além disso, o Censo Escolar de 2023 mostra
que 76,5% dos alunos estudavam em tempo parcial (até cinco horas por dia). Por
isso, entre as principais recomendações do relatório, está a expansão do ensino
em tempo integral.
Docentes de disciplinas com menos demanda
podem atuar em laboratórios e projetos acadêmicos. De 2018 a 2023, uma das
redes analisadas reduziu em
15 pontos percentuais a quantidade de professores em múltiplas
escolas após expandir a jornada.
Sobre os temporários, há um desafio
estrutural para reduzir as contratações, que visam conter gastos
permanentes associados ao déficit previdenciário e à estabilidade no emprego.
Apenas elevar salários e realizar mais concursos para efetivos não são políticas sustentáveis sem uma ampla reforma do regime dos servidores. Para manter professores dedicados a uma única escola, são necessárias ações articuladas em várias frentes.
É imperativo reduzir as emendas parlamentares
Por O Estado de S. Paulo
O Congresso tomou para si uma fatia excessiva do Orçamento. É preciso diminuir muito esse volume, acabar com as emendas Pix e devolver ao gasto público planejamento e controle
As emendas parlamentares foram concebidas
para permitir que deputados e senadores participem da elaboração do Orçamento e
atendam a demandas específicas de seus Estados e municípios. Era uma
participação complementar e pontual. O Congresso, porém, tomou gosto pelo
dinheiro. Nos últimos anos, ampliou valores e criou modalidades que lhes deram
crescente influência sobre os gastos federais. O instrumento ganhou dimensões
incompatíveis com sua finalidade e virou figura frequente em investigações
sobre desvio de recursos públicos.
Os números ajudam a entender o problema.
Segundo estudo da FGV, as emendas parlamentares pagas passaram de R$ 3,9 bilhões
em 2015 para R$ 44,8 bilhões em 2024, em valores corrigidos para 2024. Para
2026, foram reservados R$ 49,9 bilhões, o equivalente a cerca de 20% das
despesas discricionárias do governo. Em um país com um Orçamento extremamente
engessado, é dinheiro demais retirado do planejamento de políticas públicas
para ser distribuído segundo escolhas de deputados e senadores.
O Brasil não precisa aceitar essa aberração
como consequência natural da participação do Legislativo no Orçamento. Estudo
de 2024 dos economistas Marcos Mendes e Hélio Tollini comparou o País com 11
integrantes da OCDE e constatou que nenhum deles confere a seus parlamentares
tamanho poder. Mesmo nos Estados Unidos, onde o Congresso pode refazer a
proposta orçamentária do Executivo, as emendas de interesse individual são
limitadas a 1% das despesas discricionárias. Aqui, temos uma jabuticaba muito
cara.
Deputados e senadores respondem que conhecem
melhor as necessidades de suas bases e chamam as emendas de “orçamento
municipalista”. Ora, não parece razoável que as necessidades de uma determinada
cidade sejam medidas pela capacidade de seu prefeito de encontrar um padrinho
em Brasília. Uma ambulância pode ser necessária, assim como uma escola, mas o
problema é saber por que o dinheiro não foi para um município em que a carência
é maior. É justamente para fazer escolhas desse tipo que existe planejamento
público. A soma das prioridades eleitorais de 594 parlamentares não constitui
um planejamento para o País.
O orçamento secreto mostrou até onde essa
deformação poderia chegar, com a distribuição de bilhões de reais sem que o
cidadão soubesse sequer quem havia indicado os recursos. O Supremo declarou o
mecanismo inconstitucional em 2022, mas sua extinção formal não desmontou a
engrenagem que o produziu. Parte do dinheiro migrou para outras modalidades,
com nomes diferentes, e o STF continuou a cobrar do Congresso critérios e
rastreabilidade. Acabou o orçamento secreto no papel, mas sobreviveu a lógica
que o tornou possível.
A distorção alcança também as eleições. Quem
ocupa um mandato dispõe de milhões de reais para enviar a suas bases e associar
seu nome a obras e inaugurações. Essa vantagem dificulta a renovação do
Congresso e ajuda a perpetuar quem já dispõe da máquina do mandato.
Diminuir as emendas resolve apenas parte do
problema. É preciso saber também para onde vai cada real. Investigações,
principalmente sobre emendas Pix, mostram que o dinheiro precisa ser rastreável
desde a indicação até a entrega do serviço ou equipamento. O cidadão deve saber
quem indicou, quem recebeu, em que o recurso foi gasto e o que foi efetivamente
entregue. E quem participa da decisão sobre a destinação do recurso deve
responder por ela. Não é razoável reivindicar a autoria de uma obra quando ela
dá certo e lavar as mãos quando aparecem irregularidades.
A reforma das emendas parlamentares deve
começar pelo tamanho. O volume precisa cair radicalmente. As emendas Pix devem
acabar. As que permanecerem devem estar vinculadas a programas públicos,
obedecer a critérios objetivos de necessidade e ter rastreabilidade do início
ao fim.
O Brasil que queremos precisa de
parlamentares que legislem, fiscalizem e façam das emendas novamente um
instrumento complementar, não um orçamento dentro do Orçamento.
A farra dos precatórios pode ser muito maior
Por O Estado de S. Paulo
STF desconfia de que outros agentes
recorreram ao mesmo artifício de Vorcaro, que viu no mercado secundário e no
conluio com o Judiciário uma chance de multiplicar seu patrimônio
O presidente do Supremo Tribunal Federal
(STF), Edson Fachin, atendeu ao pedido do ministro Gilmar Mendes e encaminhou
uma proposta para fiscalizar todos os precatórios expedidos por tribunais
regionais federais contra a União nos últimos anos. Precatórios são ordens de
pagamento emitidas pelo Judiciário para cobrar de um ente público uma dívida
decorrente de condenação judicial definitiva. A decisão do STF visa a desmontar
o castelo de cartas que o empresário Daniel Vorcaro montou para sustentar o
Banco Master à custa da União, mas a Corte desconfia – com razão – de que esse
mesmo artifício possa ter sido utilizado por outros agentes do mercado.
Foi por meio de “pré-precatórios”, títulos
emitidos por instâncias judiciais inferiores antes que os processos que deram
origem a eles recebessem uma sentença definitiva, que o banqueiro Daniel
Vorcaro inflou artificialmente os ativos do Banco Master e fez com que o
patrimônio da instituição financeira se multiplicasse em poucos anos.
Vorcaro tinha preferência por papéis
vinculados ao setor sucroalcooleiro, que reivindicava indenização por perdas
impostas por planos econômicos das décadas de 1980 e 1990. Como esses
precatórios levavam décadas para se materializar, muitas dessas usinas vendiam
esses direitos creditórios, com desconto, para terceiros no mercado secundário.
A teia de relações que o banqueiro construiu
no Judiciário foi fundamental para apressar os pagamentos. Para isso,
magistrados chegaram ao ponto de ignorar uma tese de repercussão geral,
aprovada pelo STF em 2020, segundo a qual só caberia indenização às usinas que
comprovassem prejuízos por meio de prova pericial.
Ainda que os processos não tivessem
transitado em julgado, Vorcaro contabilizava os papéis em balanço pelo valor de
face e criava lastro para captar dinheiro de outras formas, como por meio de
Certificados de Depósito Bancário (CDBs) que pagavam 140% do CDI, muito acima
da média do mercado. Nas palavras do ministro Gilmar Mendes, o esquema revelou
um modelo de negócios “parasitário” que drenou recursos do Orçamento e as
economias de milhares de investidores.
A questão é que Vorcaro não parece ter sido o
único a se beneficiar desse modelo. O ministro Gilmar Mendes quer aproveitar o
julgamento de um recurso sob sua relatoria no Supremo para definir um
entendimento sobre precatórios relacionados à área da saúde. Nesse caso,
instituições filantrópicas e Santas Casas de Misericórdia querem ser
remuneradas pela Tabela Única Nacional de Equivalência de Procedimentos
(Tunep), referência para planos de saúde, e não pela tabela do Sistema Único de
Saúde (SUS).
Não se tem notícia de que Vorcaro tenha
adquirido esses papéis. No entanto, assim como os precatórios do setor
sucroalcooleiro, a maioria dos processos da área de saúde não está mais nas
mãos dos hospitais, mas de fundos de investimento e escritórios de advocacia
que os adquiriram no mercado secundário. Segundo o Ministério da Saúde, isso
pode consumir R$ 24,5 bilhões anuais do orçamento da União na área de Saúde.
Não é de hoje que o Executivo reclama do peso
cada vez maior dos precatórios nas contas públicas. Tornou-se célebre a frase
do então ministro da Economia, Paulo Guedes, que, ao elaborar a peça
orçamentária de 2022, classificou essas despesas como um “meteoro” e optou pelo
calote, que, obviamente, não resolveu o problema e ainda gerou outro.
Se a venda dos precatórios no mercado
secundário já era uma realidade naquela época, a imposição de um teto para o
pagamento dessas dívidas fez com que esse negócio ganhasse outra dimensão.
Alargar um horizonte de pagamentos que já era excessivamente longo fez a venda
desses papéis disparar e gerou deságios agressivos, entre 10% e 20% do valor de
face.
É no mínimo curioso, no entanto, que a
regularização do fluxo de pagamentos e a quitação dos precatórios atrasados
pelo governo Lula não tenha reduzido o ritmo de emissões e o estoque desses
títulos. Segundo a Instituição Fiscal Independente (IFI), a expedição de
precatórios pelo Judiciário aumentou 36% entre 2022 e 2026 e mais de 300% desde
2010.
Não há dúvida de que Vorcaro enxergou nesse
mercado e no conluio com o Judiciário uma oportunidade. O que o STF quer saber
é se ele não foi o único espertalhão da história.
Congresso se dá folga
Por O Estado de S. Paulo
Parlamentares param de votar por um mês, mas
salários e despesas são regiamente bancados
Nesta semana, o Congresso Nacional vai
completar um mês de férias. Não são férias oficiais, pois não estão previstas
nem na Constituição nem no regimento. Deputados e senadores simplesmente
decidiram que, por causa das eleições, era hora de deixar Brasília para cuidar
das próprias campanhas.
A paralisação foi planejada. Ainda em julho,
os presidentes do Senado, Davi Alcolumbre (União-AP), e da Câmara, Hugo Motta
(Republicanos-PB), acertaram que, depois do recesso parlamentar, haveria apenas
duas semanas de “esforço concentrado” antes das eleições. A última terminou no
início de setembro.
O País, evidentemente, não parou junto com o
Congresso. Prazos continuam correndo, empresas seguem abertas e milhões de
brasileiros cumprem suas jornadas de trabalho. Tampouco desapareceram os
assuntos que caberia ao Legislativo enfrentar. O mandato parlamentar termina em
janeiro de 2027, não quando começa a campanha eleitoral.
Este jornal advertiu, ainda em julho, para o
absurdo de reduzir o segundo semestre legislativo a duas semanas de “esforço
concentrado”. O resultado está aí. Primeiro, Câmara e Senado acumularam
matérias e comprimiram votações importantes em poucos dias. Depois,
simplesmente deixaram de votar. Legislar virou atividade a ser encaixada entre
os compromissos eleitorais.
O dinheiro público, ao contrário dos
parlamentares, não tirou férias. Deputados e senadores continuam recebendo
subsídio de R$ 46.366,19 por mês. As cotas parlamentares e as verbas extras
continuam sendo usadas, gabinetes permanecem abertos e toda a estrutura do
Congresso segue custeada pelos brasileiros. Só em setembro, quando o plenário
da Câmara já estava esvaziado, deputados haviam registrado R$ 2,9 milhões em
despesas da cota parlamentar.
O esvaziamento é tamanho que chegou aos
servidores. A Câmara autorizou que funcionários de alguns setores cumpram
remotamente até 20 das 40 horas semanais enquanto não houver sessões de
plenário. A própria Casa justificou a medida pela necessidade de economizar e
racionalizar o uso de uma estrutura que ficou ociosa. Os servidores mantêm a
jornada integral, mas já não precisam passar todo esse tempo numa Câmara sem
deputados.
Parlamentares candidatos precisam fazer
campanha e percorrer seus Estados, mas isso não lhes dá uma licença coletiva
remunerada. Concorrer a outro mandato foi uma escolha de cada deputado e
senador e não os dispensa da obrigação de cumprir o atual.
Não é a primeira vez que o Congresso inventa
um recesso que não existe. Há os esvaziamentos em feriados e festas juninas. Há
o velho “recesso branco”. Em ano eleitoral, a prática ganha outra dimensão: os
interesses de quem pretende continuar no poder passam à frente do trabalho para
o qual essas pessoas já foram eleitas.
O mínimo que se espera é que deputados e senadores que pretendem permanecer no poder exerçam até o fim o mandato que os brasileiros já lhes deram.
Desaceleração vai dificultar recuo da inadimplência
Por Valor Econômico
O cenário demanda cautela redobrada de
empresas e credores
O endividamento das empresas bateu o recorde
do século, e a de seus consumidores atingiu o maior nível desde que as séries
históricas sobre o assunto começaram a ser feitas. Apesar dos programas de
renegociação de dívidas — os já acelerados para serem anunciados em época de
eleições e os que virão —, a perspectiva de curto prazo não é boa. A economia
está em desaceleração, empurrada a tal situação por uma carga de juros muito
forte, a mesma que tem colocado as dívidas financeiras de companhias e pessoas
físicas distantes da capacidade de pagamento. Em modo eleitoral, o governo Lula
vai comprar R$ 150 bilhões em dívidas de longo prazo dos consumidores e criou
programas para aliviar débitos inadimplentes de MEIs e empresas com faturamento
de até R$ 48 milhões. Os programas passados, como o Desenrola e o Desenrola
2.0, mal terminados, não evitaram o aumento dos atrasos nos pagamentos. A
diminuição do nível de atividades deve dificultar esse objetivo. Não há saída fora
da queda dos juros, o que implica que o maior credor, a União, tem de conter
seus gastos para que os juros caiam para toda a economia.
O endividamento das mil maiores empresas do
país atingiu 72,2% do patrimônio líquido, um nível superior ao registrado em
2015, no auge da mais longa recessão do período republicano (anuário Valor
1000). Parte das dificuldades enfrentadas pelas empresas tem origem na expansão
do crédito em 2020, quando a taxa básica de juros (Selic) caiu a 2% ao ano. No
entanto, com o aumento da inflação, os juros voltaram a subir, chegando a 15%
em 2025. O custo de capital de giro e o de empréstimos para investimentos
subiram muito, enquanto a inflação se desgarrou da meta. A taxa média do
crédito livre para empresas em agosto foi de 24,2% ao ano, mesmo após vários
cortes de juros. Para as pessoas físicas, foi de 61,7%.
A aceleração dos pedidos de recuperação
judicial dimensiona o problema. O levantamento mais recente do Monitor
RGF-BizDoc, parceria entre a Consultoria RGF e a plataforma BizDoc, informa que
no primeiro semestre foram registrados 370 novos pedidos de recuperação
judicial, 6,2% a mais do que no mesmo período de 2025. Em 2025, o quadro já
tinha sido preocupante, com o crescimento de 7,3% dos pedidos no primeiro
semestre e de 14,1% no segundo, sempre comparados ao mesmo período do ano
anterior.
Nesse ritmo, o estoque de empresas em
recuperação judicial foi recorde da série histórica, 6.341 empresas. Desse
total, 1.028 são empresas grandes ou muito grandes que reúnem valores
expressivos, como a Braskem, com R$ 56,5 bilhões em dívidas, e a Casas Bahias,
com R$ 17,3 bilhões. Há ainda gigantes como a Raízen, com R$ 65 bilhões em
dívidas, e o GPA, com R$ 4,6 bilhões, que buscaram a recuperação extrajudicial,
teoricamente por ser mais rápida, mais barata e menos estigmatizada.
No entanto, nenhum caminho é mais fácil. Das
empresas que pediram recuperação judicial desde 2013, apenas 17,5% concluíram o
processo, de acordo com levantamento da RGF Consultoria feito a pedido do Valor
(11/09). Outros 10,7% pediram falência ou fecharam. A imensa maioria, ou 71,8%,
continua em recuperação judicial. Mais da metade delas entrou em recuperação
judicial depois de 2023.
Segundo a Serasa Experien, havia 9,2 milhões
de CNPJs de empresas inadimplentes em julho, novo pico da série histórica; e o
estoque de dívidas em atraso chegou a R$ 238,6 bilhões. Segundo o Banco
Central, a inadimplência das pessoas jurídicas em agosto foi de 3,3% do total
de R$ 2,7 trilhões da carteira de crédito, acima dos 2,8% do mesmo mês de 2025.
Já nos empréstimos em recursos livres, atingia 4,3% da carteira de R$ 1,57
trilhão, superando os 3,8% de um ano antes.
Um número crescente de empresas buscou
recursos também no mercado de capitais nos últimos anos. Somente nos 12 meses
encerrados em junho de 2026 foram levantados R$ 555 bilhões (Valor, 22/9). Mas
o calendário de pagamento dos papéis emitidos até agora é apertado. O total de
vencimentos previstos de setembro até 2030 soma R$ 1,48 trilhão, entre juros e
amortizações, segundo cálculos da Prisma Capital, o que vai ser um bom teste
para a vitalidade do mercado de capitais.
A situação é preocupante diante da
perspectiva de desaceleração da economia. Instituições financeiras já reviram
previsões. O Itaú reduziu a previsão para o PIB deste ano de 1,9% para 1,7%, e
o de 2027, de 1,5% para 1,2%. O Santander manteve a estimativa de 1,8% neste
ano e de 1,7% no próximo. Mas ambas instituições notam a desaceleração do
crédito e das emissões de dívida.
O cenário demanda cautela redobrada de empresas e credores. A combinação de dívidas elevadas, custo ainda alto do dinheiro, desaceleração e maior dificuldade para acessar fontes de financiamento pode prolongar a agonia de companhias já fragilizadas e transformar problemas de liquidez em insolvência. A extensão dos programas de renegociação do governo, que já atingem amplos setores da economia, serão reivindicados pelas empresas urbanas e rurais. Sua concessão aumenta o problema que quer reduzir: o maior credor do país aumenta suas dívidas e paga taxas exorbitantes de juros, que são o piso das cobradas de todos os setores da economia.
O risco de Kaliningrado
Por Correio Braziliense
Nenhum território, por mais estratégico que
seja, vale o custo de um confronto entre a Rússia e a Otan
Pequenino no mapa, Kaliningrado é um
território russo separado do restante da Rússia por território da Lituânia ao
norte e leste, e da Polônia ao sul. Para acessá-lo por terra vindo da Rússia, é
preciso atravessar um ou ambos esses países, que são membros da Otan. O
território fica às margens do Mar Báltico e abriga a sede da Frota do Báltico
da Marinha russa, além de sistemas de mísseis e infraestrutura militar de alto
valor estratégico. É, em outras palavras, um bastião militar russo cercado por
países da aliança ocidental, e essa geografia é, por si só, uma fonte
permanente de fricção.
Ontem, Vladimir Putin voltou a transformar
Kaliningrado em recado. No Fórum Valdai, em Moscou, o presidente russo afirmou
que considera usar "todos os tipos de armas" de seu arsenal em caso
de ameaça ao território e acrescentou que não é possível ter certeza de que
armas de destruição em massa jamais serão utilizadas. A frase não foi
acidental. Dias antes, a Rússia havia enviado à Otan um documento classificado
como "non-paper" — espécie de comunicação informal, mas de conteúdo
explícito — afirmando que estaria "pronta para utilizar todo o arsenal,
incluindo armas nucleares", caso a aliança tentasse isolar Kaliningrado do
restante do país. O secretário-geral da Otan, Mark Rutte, respondeu que a
aliança é defensiva e não ameaça o território. O tom de Moscou sugere que essa
resposta não foi considerada suficiente.
Para entender por que Kaliningrado provoca
esse nível de tensão, é necessário recuar no tempo. O território foi, durante
séculos, parte do Ducado da Prússia e depois do Reino da Prússia, uma região de
maioria alemã, com capital em Königsberg, cidade que deu ao mundo o filósofo
Immanuel Kant e que foi palco de intensas batalhas ao longo da Segunda Guerra
Mundial. Em 1945, após a derrota da Alemanha nazista, a Conferência de Potsdam
redesenhou o mapa europeu: Königsberg e a região ao redor foram cedidas à União
Soviética, sua população alemã foi expulsa e o território foi repovoado por
soviéticos. O nome foi mudado para Kaliningrado. Com o colapso da URSS em 1991,
o território tornou-se um exclave russo — geograficamente separado da Rússia
pelo surgimento de estados independentes no Báltico. A fronteira que antes era
interna, dentro de um mesmo país, tornou-se uma fronteira entre a Rússia e
países que, pouco depois, adeririam à Otan. Kaliningrado sempre esteve em
disputa. Mudaram apenas os disputantes.
Hoje, a região é mais do que um problema
geográfico. É o ponto onde a expansão da Otan em direção ao leste encontra a
mais sensível das instalações militares russas. Quando a Lituânia restringiu
temporariamente o trânsito de mercadorias para Kaliningrado em 2022, Moscou
respondeu com avisos severos. A situação foi parcialmente revertida, mas o
episódio mostrou o quanto o território pode ser usado como gatilho. As recentes
declarações de Putin e o documento enviado à Otan sugerem que esse gatilho está
sendo posicionado com crescente deliberação, num momento em que a guerra na
Ucrânia continua sem solução, as relações entre Moscou e o Ocidente estão no
pior patamar desde a Guerra Fria, e qualquer incidente em solo báltico pode
acionar a cláusula de defesa coletiva do Artigo 5º do Tratado do Atlântico
Norte.
Kaliningrado não é o único ponto de combustão no mapa europeu. Mas é o que reúne, num único território, a presença militar russa, a geografia da Otan, a memória de disputas centenárias e, agora, a ameaça explícita do uso de armas de destruição em massa. O mundo já viu o que acontece quando pontos assim são subestimados. O apelo que se faz — com a consciência de que pedidos do tipo têm pouco peso diante de arsenais — é pela razoabilidade. Pelo diálogo que ainda é possível antes que deixe de ser. E pelo reconhecimento de que nenhum território, por mais estratégico que seja, vale o custo de um confronto entre a Rússia e a Otan. Esse custo, ao contrário dos outros, não tem como ser calculado antecipadamente.
Campanhas têm normas mais rígidas
Por O Povo (CE)
Nesses dois dias que faltam para a votação, é
preciso vigilância redobrada para evitar os crimes próprios desse período, como
a compra de votos e a coação de eleitores
A partir da zero hora desta sexta-feira, as campanhas
eleitorais entram em sua fase final, período decisivo para os candidatos
apresentarem suas propostas, aumentando o esforço para conseguir votos.
A disputa nacional entre o senador Flávio
Bolsonaro (PL) e o presidente Lula da Silva (PT), que tenta a reeleição, está
acirrada a tal ponto que uma quantidade mínima de votos pode fazer diferença no
resultado final.
O mesmo acontece a nível local. Os dois
candidatos mais bem colocados nas pesquisas, o governador do Ceará, Elmano de
Freitas, que busca a reeleição, e o ex-governador Ciro Gomes (PSDB), estão em
uma disputa voto a voto.
Agora, as campanhas terão de lidar com normas
mais rígidas para a propaganda eleitoral, exigindo mais cuidado dos partidos
para evitar desrespeito à legislação eleitoral.
Desde ontem acabou o horário eleitoral
gratuito na rádio e na TV. Também ficam proibidas, a partir de hoje,
propagandas pagas ou impulsionadas em redes sociais da internet, como também
propaganda paga em jornais e revistas. Comícios e debates também estão vetados.
No sábado, ainda são livres atividades de rua até as 22h. Domingo, dia em que o
eleitor comparecerá às urnas, as restrições são ainda mais fortes.
Essa eleição, talvez como nenhuma outra,
transformou-se em verdadeira guerra de liminares, com cada demandante
procurando "escolher" o magistrado para decidir sobre sua queixa. O
Supremo Tribunal Federal (STF) foi arrastado para um protagonismo que deveria
ser do Tribunal Superior Eleitoral (TSE), nos limites das atribuições que lhe
competem. Porém, o desentendimento entre os ministros terminou por levar a uma
sobreposição de funções.
No entanto, nesse preciso momento não é hora
de procurar culpados. Seria importante que os próprios ministros tomassem
consciência do quanto é importante manter a credibilidade das instituições que
se tornaram exemplos para o mundo. O STF, pelo seu trabalho em conter a
tentativa de golpe de Estado, cujo símbolo é o 8 de janeiro de 2023; o TSE como
modelo de organização de eleições rápidas e seguras.
Em momento de tamanha importância, quando os
brasileiros irão às urnas eletrônicas para escolher o presidente do País,
governadores de Estado e legisladores estaduais e federais, os ministros
poderiam, no mínimo, estabelecer uma trégua. Afinal, eles têm uma eleição para
cuidar e precisam de tempo para aumentar a dedicação assuntos mais urgentes.
Entre eles, coordenar os esforços para conter abusos que tenham como objetivo
desequilibrar a disputa eleitoral.
Nesses dois dias que faltam para a votação, é preciso vigilância redobrada para evitar os crimes próprios desse período, como a compra de votos, coação de eleitores ou mesmo conhecida "boca de una". Os brasileiros merecem uma eleição tranquila, na qual possam expressar livremente suas preferências políticas.

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