terça-feira, 20 de outubro de 2026

O que a mídia pensa | Editoriais \ Opiniões

Protestos na França expõem incúria fiscal

Por O Globo

Como Brasil, país enfrenta dificuldade de implementar reformas após anos de descaso com a falência do Estado

Da Queda da Bastilha à Comuna de Paris, de Maio de 1968 aos coletes amarelos já neste século, a História da França está repleta de momentos em que a população vai às ruas na tentativa de mudar o curso dos eventos. Desta vez, mais de 500 mil tomaram conta de praças e avenidas em 110 cidades francesas no último sábado, auge da onda de protestos que começou em setembro como movimento estudantil, mas depois se expandiu para abarcar um sem-número de reivindicações difusas contra o atual governo. A violência resultou em vandalismo e incêndios (como o que destruiu a Prefeitura de Limoges), na depredação de mais de 3 mil estabelecimentos comerciais e na prisão de 2,4 mil pessoas. A raiz dos protestos está na dificuldade da sociedade francesa de lidar com uma crise fiscal crônica — problema em tudo similar ao brasileiro.

Não é de hoje que o Estado de bem-estar social francês dá sinais de esgotamento. O país oferece uma abrangente rede de empregos e proteção, que alcança perto de 30 milhões de cidadãos e custa 57% do PIB. O envelhecimento da população pressiona as generosas aposentadorias e pensões. Em 15 anos, o custo dos programas sociais passou de 1,3% para 2,7% do PIB e, ao lado da Previdência, eles representam 60% dos gastos.

O resultado é um déficit crônico. A França não fecha um Orçamento no azul desde 1974. O buraco fiscal é estimado em 5,4% do PIB neste ano, com a dívida pública alcançando 119%, maior patamar desde 1946. Se nada for feito, esses indicadores chegarão a 6,8% e 128% do PIB em 2030. Não é à toa que o juro que o mercado exige para financiar o rombo fiscal francês subiu de 3% em 2022 para 5%, com prêmio 1,4 ponto acima do que pagam os títulos alemães. A França precisará, pelas contas do próprio governo, emitir US$ 380 bilhões em papéis até o final de 2027 só para manter a solvência.

Diante da situação, foi modesto o pacote de cortes de € 43 bilhões proposto no Orçamento pelo presidente Emmanuel Macron (a necessidade para estabilizar a dívida é quase o dobro). Como o projeto envolvia cortes nas verbas para educação, bastou para fazer explodir os protestos. Macron enfrenta agora reação maior que a despertada pela reforma previdenciária do início de seu governo, que teve de ser desidratada, foi promulgada na marra e não resolveu os desequilíbrios. O fracasso das sucessivas tentativas de estabilização gerou uma situação insólita. A França não tem Orçamento oficial aprovado pelo segundo ano consecutivo. Obviamente o Banco Central Europeu — capitaneado pela Alemanha — jamais aceitará financiar qualquer pacote de socorro na linha dos oferecidos a Grécia, Portugal ou Irlanda se não houver compromisso fiscal sólido. Nesse vácuo, os protestos inflamam as ruas e, a seis meses da eleição do sucessor de Macron, alimentam o extremismo.

Para além da política interna, a situação francesa mostra que em nenhum país pode haver desleixo com o equilíbrio das contas públicas. No Brasil, os candidatos à Presidência mal tratam do assunto e, quando questionados, repudiam recomendações consensuais entre economistas para conter o déficit da Previdência (condição necessária para deter a escalada da dívida), como o reajuste de aposentadorias e benefícios sociais apenas pela inflação. Bastaria isso, com algumas outras medidas de austeridade, para evitar o descontrole.

Recadastramento eleitoral põe democracia indiana sob risco

Por O Globo

Oposição denuncia manipulação para excluir eleitores contrários ao primeiro-ministro Narendra Modi

A Índia, tida como maior democracia do mundo com quase 1 bilhão de eleitores, atravessa um momento de tensão preocupante. O recadastramento eleitoral iniciado em junho de 2025 e ainda inconcluso eliminou até agora, de acordo com levantamentos extraoficiais, pelo menos 133,9 milhões de registros eleitorais. A oposição denunciou manipulação para favorecer o Partido do Povo Indiano (BJP), do primeiro-ministro Narendra Modi. Para o ano que vem, estão programados pleitos em sete dos 28 estados, onde vive um quarto da população indiana. A vitória ajudaria Modi e o BJP na renovação do Parlamento. Modi está há 12 anos no poder e depende do Legislativo para ficar no cargo.

Protestos tomaram conta das ruas, com apoio das manifestações conhecidas como “movimento das baratas” — alusão à crítica do presidente da Suprema Corte que comparou jovens desempregados ao inseto. Líderes oposicionistas têm sido presos.

A Índia é pioneira no uso da tecnologia de identificação digital. Desde 2009, a plataforma Aadhaar armazena informações básicas voluntárias dos cidadãos e se tornou o maior sistema biométrico do planeta. Mas muitos ainda nem têm documento oficial em papel. A certificação dos eleitores, a oitava desde 1950, é promovida pela Comissão Eleitoral da Índia (CEI) em Nova Délhi, uma espécie de TSE indiano. Em setembro, a imprensa revelou que dois integrantes da CEI haviam registrado, ao longo de dez meses, pelo menos 14 objeções formais aos métodos de recadastramento.

“Não é uma simples revisão da lista de eleitores”, afirmou ao jornal britânico Financial Times Yogendra Yadav, ativista de oposição que tem encaminhado reclamações à Suprema Corte. “Estão reescrevendo as regras sobre quem pode ser eleitor na Índia.” De acordo com ele, a cassação de títulos de eleitor tem ocorrido “numa escala desconhecida na História da humanidade”. Na semana passada, veio à tona a estimativa de 134 milhões de eleitores excluídos, a maioria alegadamente por mudança de domicílio ou não localização. Oposicionistas dizem que houve exclusão deliberada de muçulmanos, pobres, idosos e migrantes bengalis (que tendem a votar contra o nacionalismo hindu do BJP). A principal crítica à metodologia de recadastramento é transferir ao eleitor o ônus de comprovar ter direito a voto. Há milhões de títulos em disputa à espera de decisões da CEI ou da Justiça.

É a primeira vez que o recadastramento vai além de checagem da grafia de nomes e divergências para incluir “prova de cidadania” indiana. Críticos estranham a coincidência entre a pressa com que a revisão foi feita em estados como Bihar e Bengala Ocidental, pouco antes de eleições vencidas pelo BJP por larga margem.

Líderes com tendências autocráticas têm lançado mão de vários expedientes mundo afora para tentar permanecer no poder. A revisão deliberada de registros eleitorais é um deles. Por isso o teste enfrentado pela Índia neste momento deve despertar preocupação em qualquer democracia do planeta.

Um debate tardio e agressivo

Por Folha de S. Paulo

Embate direto entre Flávio e Lula privilegiou ataques em detrimento da discussão de ideias

Se parece irrealista esperar discussões programáticas, os debates entre Tarcísio e Haddad em SP mostraram que é possível se aproximar disso

O primeiro —e, provavelmente, penúltimo— debate eleitoral entre os principais candidatos ao Planalto ocorreu com grande atraso, a uma semana do segundo turno, e frustrou quem esperava um confronto de ideias, se é que alguém alimentava tal expectativa.

O eleitor indeciso ou pendular teve, enfim, a oportunidade de assistir a um enfrentamento direto entre o senador Flávio Bolsonaro (PL) e o incumbente, Luiz Inácio Lula da Silva (PT). Os oponentes pareceram mais empenhados em evitar algum deslize grave e produzir trechos a serem divulgados pelas redes sociais, em geral de ataques um ao outro.

Nenhum deles, de fato, foi nocauteado por um erro brutal ou um desempenho pífio, ao estilo do que fez soçobrar a candidatura de Joe Biden após um debate com Donald Trump em 2024.

A crônica política sempre relembra o duelo que derrubou Richard Nixon ante John Kennedy em 1960 —ou, no âmbito brasileiro, o encontro de 1989 entre o mesmo Lula e Fernando Collor, no qual a má apresentação do petista e sua exacerbação na edição televisiva posterior foram apontados como fatores que contribuíram para sua derrota.

A realidade é que, num ambiente em que toda declaração ou atitude é metodicamente ensaiada, tais reveses podem acontecer, porém não são a norma.

Se parece irrealista esperar que debates transcorram como discussões programáticas, os encontros travados entre Tarcísio de Freitas (Republicanos) e Fernando Haddad (PT) na disputa paulista mostraram que é possível ao menos se aproximar disso.

No caso da noite de domingo (18) na Band, o formato que permitia a circulação dos postulantes pelo palco destacou a agressividade cara a cara entre eles.

Treinado na escola Donald Trump de nada responder e repetir mentiras e afirmações que nada tinham a ver com as questões, Flávio encurralou Lula de saída, apoiado numa entrevista concedida na véspera pela lobista Roberta Luchsinger, envolvida com o filho presidencial Lulinha em negociações sob investigação.

O presidente se recuperou um tanto ao longo do embate, jogando no mesmo campo do rival, de resto dono de uma ficha de suspeitas robusta. A grosseria quase física não deixou de refletir a polarização radicalizada da vida política nacional nos últimos anos.

Propostas e promessas foram enunciadas aqui e ali, de forma mecânica —nada capaz de aplacar incertezas que cercam as duas alternativas de poder.

Como mostrou o Datafolha, Flávio e Lula estão em empate técnico, com vantagem numérica do primeiro. No total da amostra, há 6% de eleitores que declaram a intenção de votar em branco ou nulo, mais 2% de indecisos e 7% que admitem mudar de candidato até o dia do pleito.

São todos números modestos, mas que, numa disputa acirrada e num pleito com elevada taxa de abstenção, tendem a ser decisivos nas horas derradeiras.

Meta deve agir com transparência na campanha

Por Folha de S. Paulo

Funcionários constataram impacto na conta de Lula e demora na solução; TSE deu 24 horas para explicações

Mensagens internas da empresa obtidas pela Folha também apontam recomendação algorítmica do perfil de Flávio, prática proibida pelo TSE

A expansão das redes sociais e das tecnologias digitais representa avanço, sem dúvida, tanto para a divulgação das campanhas dos candidatos quanto para o acesso dos cidadãos a diferentes projetos políticos e ao debate público.

Mas tal avanço, dadas a escala e a dinâmica do volume informacional, também representa enorme desafio para que a Justiça Eleitoral faça valer a regulamentação que garante a equidade entre os postulantes.

Por isso as plataformas têm o dever de monitorar e aprimorar seus procedimentos técnicos para minimizar falhas capazes de afetar o processo eleitoral e corrigi-las com transparência do modo mais célere possível.

O caso recente que envolve impacto no alcance da propaganda online de Luiz Inácio Lula da Silva (PT) mostra que a Meta, que controla o Instagram, o Facebook e o WhatsApp, enfrenta dificuldades nessa seara.

Mensagens internas da empresa obtidas pela Folha mostram relatos de funcionários que constatam restrições a contas de Lula no Instagram e recomendação algorítmica do perfil de Flávio Bolsonaro (PL) na plataforma e no WhatsApp —prática vedada pelo Tribunal Superior Eleitoral.

No dia 9, o perfil oficial de Lula não conseguiu impulsionar postagens no feed do Instagram por quase 24 horas. Esse procedimento é fundamental para que políticos ampliem o acesso aos seus conteúdos, já que o TSE proíbe recomendação algorítmica.

O problema foi reportado à Meta, mas funcionários reclamaram da demora na solução por parte de engenheiros nos EUA.

Em nota, a empresa diz que naquele dia ocorreu uma falha global no gerenciador de anúncios que foi revertida no dia 10, mas o comunicado não trata da recomendação algorítmica de Flávio, cuja conta não foi afetada.

Nesta segunda (19), o ministro do TSE Marco Aurélio Bellizze estabeleceu prazo de 24 horas para que a Meta comprove que dá tratamento igualitário às duas candidaturas em seus algoritmos e sistemas de inteligência artificial.

Isso porque, segundo Bellizze, a empresa não cumpriu satisfatoriamente uma decisão da corte que, na sexta (16), ordenou a adoção de medidas nesse sentido.

Espera-se que a empresa aja com transparência, apresentando os dados e documentos necessários, além de redobrar a atenção aos seus protocolos e procedimentos técnicos. É o mínimo que as plataformas devem fazer para não levantar dúvidas sobre sua atuação nesse que é o momento basilar da democracia.

Debate digno da pior campanha da história

Por O Estado de S. Paulo

Band e ‘Estadão’ fizeram sua parte, mas Flávio Bolsonaro e Lula nunca quiseram debater, só explorar a rejeição ao adversário. Foi um show de horror, que desrespeitou os eleitores

A Band e o Estadão fizeram sua parte. No domingo passado, ao reunir no mesmo estúdio os dois candidatos à Presidência da República, os organizadores do primeiro encontro entre Flávio Bolsonaro (PL) e Luiz Inácio Lula da Silva (PT) ofereceram ao eleitor uma chance de comparar biografias, ideias e projetos para o Brasil. Só faltou combinar com os protagonistas, que transformaram o que deveria ser um debate em um show de horror. Nem Flávio nem Lula estavam dispostos a debater coisa alguma, como jamais estiveram ao longo desta que é seguramente a pior campanha presidencial da Nova República, quiçá da história brasileira.

É até o caso de perguntar se aquele espetáculo infame ao qual o País assistiu pode mesmo ser chamado de debate. Um debate pode ser acalorado, e não raro o é. Mas pressupõe argumentos, réplicas e alguma disposição dos debatedores para convencer ou confirmar, com base na contraposição de propostas, tanto quem já decidiu como quem ainda não está certo sobre seu voto. Não houve nada disso.

A miséria da discussão ficou clara desde o primeiro momento. Ao final de uma pergunta sobre o voto de Flávio Bolsonaro contra uma ampliação da licença-maternidade para servidoras públicas, Lula quis saber o que o adversário tinha “contra as mulheres”. Bastaria ao petista ter feito a pergunta, de resto legítima, sobre a posição do senador. Flávio, por sua vez, não respondeu e seguiu no modo provocação, trazendo para o palco o nome da lobista Roberta Luchsinger, amiga de Lulinha, o filho enrolado do presidente. Estava dada a tônica da noite.

Foi um choque de rejeições. Os dois candidatos adotaram a mesma tática: em vez de despertar entusiasmo por si mesmos, esmeraram-se em explorar a rejeição ao adversário. Cada um a seu modo, Flávio e Lula pareceram treinados para inviabilizar o debate. É inacreditável que, a uma semana do segundo turno, este tenha sido o primeiro encontro entre os candidatos e ambos tenham desperdiçado a oportunidade de apresentar ao País o que pretendem fazer nos próximos quatro anos.

Acostumado a discursar em ambientes amistosos, com a claque petista a adulá-lo, Lula, confuso, arrogante e iracundo, reafirmou seu proverbial despreparo para o debate franco com adversários. Já Flávio, em seu primeiro debate nacional, preferiu o deboche e claramente foi treinado para não responder a nenhuma pergunta embaraçosa. Nos dois casos, prevaleceu a lógica dos “cortes” para as redes sociais, e não o debate em si, absolutamente inexistente.

O grande derrotado dessa rinha foi o pobre eleitor que esperava terminar o domingo ouvindo os dois postulantes à Presidência da República discutirem seriamente soluções para os problemas do Brasil. A frustração foi registrada por um grupo de pesquisa qualitativa conduzido pelo cientista político Renato Dorgan, CEO do Instituto Travessia, a pedido deste jornal. “Decepcionante”, “triste” e “vergonhoso” foram alguns dos adjetivos usados pelos participantes da pesquisa. As críticas uniram indecisos, eleitores de Flávio e eleitores de Lula, sem exceção. Nem os apoiadores pouparam seus candidatos. Simpatizantes de Flávio o acharam “vago” – o que, a julgar pelo que se viu, soa quase como elogio. Os de Lula, por sua vez, se ressentiram do fato de o petista se rebaixar a “briguinhas”. Já a maioria dos indecisos saiu do debate como entrou ou pior, vale dizer, cogitando votar nulo.

A esta altura, está claro que o vencedor da eleição será o menos rejeitado, não aquele com o melhor projeto para o País. É um ponto de partida lamentável para quem, a partir de janeiro de 2027, terá o desafio de governar um país cheio de problemas e uma sociedade dividida, combinação para lá de perigosa.

Resta torcer para que Flávio Bolsonaro e Lula ponham a mão na consciência e sejam mais propositivos e respeitosos no derradeiro debate de sexta-feira que vem, na TV Globo. Mas não há razão alguma para otimismo.

Um país mais transparente

Por O Estado de S. Paulo

O Brasil precisa garantir acesso fácil às informações sobre gastos e atos públicos, sem sigilos abusivos e sem depender da boa vontade de governantes para prestar contas à sociedade

Em mais um capítulo opaco da história recente do País, a Força Aérea Brasileira (FAB) negou acesso a informações sobre os voos do jato de Daniel Vorcaro, ex-dono do Banco Master, recorrendo à proteção de dados pessoais prevista na Lei de Acesso à Informação (LAI), que pode restringir informações por até cem anos. Ora, Vorcaro está preso, envolvido em um escândalo financeiro gigantesco, cujas ramificações alcançam figuras poderosas da República. Fica difícil entender a quem, neste momento, interessa manter essas informações longe do conhecimento público.

A FAB, por sua vez, nega ter imposto sigilo sobre listas de passageiros e afirma que nem sequer dispõe desses nomes. Mas, segundo o site Metrópoles, recusou fornecer dados dos planos de voo sob o argumento de que seria possível identificar pessoas a partir do cruzamento de informações. É uma justificativa que merece, no mínimo, explicações mais convincentes. A FAB acabou, por fim, liberando uma parte das informações após a negativa ter sido divulgada.

O problema é que esse episódio está longe de ser uma exceção. Durante seu governo, o ex-presidente Jair Bolsonaro recorreu ao sigilo de cem anos para esconder informações sobre seu cartão de vacinação, em plena pandemia de covid-19. Ele também colocou restrições sobre informações de visitas recebidas por ele no Palácio do Planalto. Já Luiz Inácio Lula da Silva prometeu acabar com essa prática, mas, uma vez no poder, também passou a lançar mão de expedientes semelhantes. Seu governo restringiu, por exemplo, o acesso a informações sobre viagens presidenciais, visitas à primeira-dama Janja da Silva e até à Declaração de Conflito de Interesses do ministro de Minas e Energia, Alexandre Silveira. Mudam os governantes, permanecem os segredos.

A Lei de Acesso à Informação, sancionada em 2011, estabeleceu que a publicidade é a regra, e o sigilo, a exceção. Ainda assim, basta surgir um pedido incômodo para que apareça uma justificativa jurídica capaz de manter documentos longe dos olhos da população, seja lá quem for o governante ou seu partido. Mas o problema não se resume às informações que o Estado se recusa a fornecer. Há também aquelas que o Estado deveria divulgar por iniciativa própria e que o cidadão mal consegue encontrar. É a chamada transparência ativa.

O cidadão deveria conseguir entrar no site de uma prefeitura, por exemplo, e descobrir quanto custou a reforma da escola de seu filho. Em poucos cliques, saber quem executou a obra e por que ela continua inacabada, se for o caso. São informações elementares para quem paga impostos e tem o direito de cobrar explicações sobre o destino desse dinheiro.

A exigência da transparência não é direcionada apenas ao Palácio do Planalto, mas também às Assembleias Legislativas, Câmaras Municipais, tribunais e outros órgãos que ou mantêm suas despesas escondidas em páginas difíceis de consultar ou simplesmente deixam de divulgá-las.

O mesmo vale para as emendas parlamentares, cujo dinheiro precisa ser acompanhado desde a indicação até o destinatário final.

Um estudo da Controladoria-Geral da União analisou os portais de transparência e de dados abertos dos 26 Estados e do Distrito Federal e encontrou grandes diferenças entre eles, sobretudo na oferta de dados abertos. Há governos que parecem considerar cumprida sua obrigação ao colocar uma coleção de arquivos na internet. De que serve uma montanha de planilhas se o cidadão não consegue descobrir o que procura? A informação precisa estar em linguagem compreensível. Publicar dados que ninguém entende é uma maneira bastante conveniente de parecer transparente sem sê-lo.

É preciso estabelecer padrões mínimos de apresentação dos dados para toda a administração pública, fiscalizar seu cumprimento e responsabilizar quem descumpre a lei. Também é necessário exigir justificativas específicas para a imposição de sigilo, em vez de aceitar alegações genéricas de segurança ou privacidade.

A tecnologia para facilitar esse acesso existe. O que falta é assegurar que as informações sejam efetivamente disponibilizadas, independentemente de quem esteja no poder.

O cidadão tem o direito de conhecer a conta que paga. Não deveria precisar de um especialista nem recorrer à Justiça para descobrir como seu dinheiro está sendo gasto.

A ‘malaise’ francesa

Por O Estado de S. Paulo

A insatisfação radicaliza, a radicalização trava reformas e a falta de reformas aprofunda a insatisfação

A disputa eleitoral francesa de 2027 começou nas ruas – e mal. No fim de semana, a prefeitura de Limoges foi incendiada, outros prédios públicos foram atacados e lojas foram saqueadas enquanto centenas de milhares protestavam contra escolas deterioradas, custo de vida e serviços públicos que já não entregam o que prometem. A maioria não depredou nem pilhou nada. Ainda assim, a violência mudou o sentido político da revolta. Ela ofereceu aos extremos um terreno que ambos sabem explorar.

Jean-Luc Mélenchon e seus correligionários da França Insubmissa (LFI), da esquerda radical, fazem do conflito um método: causas dispersas ganham unidade ao serem apresentadas como frentes de uma mesma “luta contra o sistema”. Ainda que não haja provas de que a LFI tenha orquestrado os crimes de sábado, há uma estratégia deliberada de elevar a temperatura do conflito para dominar a oposição. Já Marine Le Pen, do Reagrupamento Nacional, da direita radical, recebe o dividendo inverso. Quanto mais a anarquia se espraia pelas ruas, mais sua promessa de impor a ordem ganha força.

Entre esses polos está um macronismo que perdeu autoridade. O presidente Emmanuel Macron enfrenta um Parlamento fragmentado e restrições que nenhum governante resolveria por decreto. Mas ele ajudou a corroer o crédito do centro com reformas incompletas e uma sucessão de anúncios cuja execução ficou aquém da retórica. Autoridade, afinal, depende da expectativa de que o poder público fará valer suas decisões. A França possui um Estado enorme; os episódios recentes expõem quão limitada pode ser sua capacidade de agir. A erosão desse poder prático abala o respeito pelas próprias regras.

As disfuncionalidades econômicas estreitam ainda mais o caminho. Nos protestos dos coletes amarelos, de 2018, Macron comprou algum sossego com novas concessões. Mas a dívida elevada, o déficit persistente e os juros pesados comprimem essa liberdade. Ao mesmo tempo, uma população envelhecida pressiona por compromissos antigos enquanto os jovens exigem escolas melhores e mais oportunidades. Cada promessa adicional força escolhas que a política francesa adia há anos.

A esquerda populista responde à malaise prometendo ampliar compromissos num país já fiscalmente esgotado. A direita populista promete ordem e proteção, tentando conciliar o ajuste que agora diz defender com seus instintos estatistas. Os mecanismos diferem; a tentação é parecida: poupar o eleitor das escolhas duras que a realidade exige. Elixires eleitoralmente sedutores podem carregar o veneno que acelera a doença.

A França precisa chegar a 2027 com algo melhor que uma disputa entre a revolta e o medo. Uma alternativa democrática de governo terá de reconhecer as causas legítimas da insatisfação, convencendo os eleitores de que é capaz de restaurar a ordem e, ao mesmo tempo, de que remédios amargos são incontornáveis. Se a incapacidade de governar continuar premiando quem promete governar sem enfrentar as patologias do país, as eleições de abril serão apenas a antessala de uma crise mais explosiva.

Queimadas afligem Amazônia e exigem compromisso ambiental

Por Valor Econômico

É preciso cuidar para evitar retrocessos. Importantes medidas na área ambiental estão sendo implementadas e devem ter continuidade

A menos de um mês do aniversário de um ano da COP30, realizada em Belém (PA), a Amazônia está novamente em chamas. Levantamento oficial constatou que o desmatamento na região foi o menor em quase 40 anos, um avanço importante, mesmo se considerado que a derrubada de florestas ainda é muito alta, apenas é menor que os níveis alarmantes de antes. Mas a boa notícia foi em parte ofuscada pelo aumento das queimadas, que encobre há dias Manaus, e paralisou algumas atividades.

O Projeto de Monitoramento do Desmatamento na Amazônia Legal por Satélite (Prodes), do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe), informou que o desmatamento teve queda histórica de 42% na Amazônia Legal e diminuiu 23,8% no Cerrado. O registro é de 1 de agosto de 2025 a 31 de julho de 2026, usado como referência para a mensuração da derrubada de florestas no Brasil. Na Amazônia, o desmatamento somou 3.355 km2, a menor área desde que o levantamento foi iniciado, em 1988. No Cerrado, onde o Código Florestal é menos restrito, foram 5.516 km2 de vegetação nativa perdida, também o valor mais baixo da série histórica, esta iniciada em 2013.

O governo aproveitou para divulgar o balanço positivo da sua atuação na área ambiental. Nos quatro anos de gestão, a queda do desmatamento foi de 71,2% na Amazônia e de 48,4% no Cerrado. O resultado foi atribuído ao aumento da fiscalização, inclusive com o controle por satélite, e à retomada do Plano de Ação para Prevenção e Controle do Desmatamento na Amazônia Legal (PPCDAm), em 2023. Houve ainda a recomposição dos quadros de fiscais e do orçamento.

Chamaram mais atenção, porém, as imagens de Manaus encoberta pela fumaça provocada pelas queimadas, que aumentaram apesar de estarem abaixo da média histórica. O Programa Queimadas de monitoramento por satélite do Inpe, com atualização diária, registrou salto de focos de incêndio na Amazônia neste ano. Em outubro, até o dia 16, foram detectados 9.899 novos focos, 25,6% a mais em comparação com os 7.868 do mesmo período de 2025. No acumulado do ano, foram 39.479 novos focos, 62% acima de 2025, embora inferior aos demais anos desta década. Dos focos verificados neste ano na Amazônia, 45% foram encontrados no Pará, onde dispararam 127%, e 20,5% no Amazonas, onde aumentaram 115%.

Em Manaus, a poluição causada pela fumaça proveniente de queimadas, inclusive de outros municípios como Autazes e Itacoatiara, obrigou a suspensão das aulas e levou a Defesa Civil a recomendar o uso de máscaras por crianças, idosos, gestantes e pessoas com doenças respiratórias. Um total de 36 municípios está em situação de emergência. Depois de algum desencontro com as autoridades locais, a Força Aérea Brasileira (FAB) enviou aviões especializados no transporte de água e reforçou as equipes de terra para ajudar no combate às chamas.

Após sobrevoar a região, o ministro do Meio Ambiente e Mudança do Clima, João Paulo Capobianco, afirmou que a presença de focos no meio da mata reforça a hipótese de os incêndios terem origem criminosa. Especialistas do Greenpeace vão na mesma direção ao afirmar que a maioria dos focos de calor está localizada em áreas sem registro fundiário (36,8%) e em florestas públicas não destinadas (26,6%), o que indica a probabilidade de os incêndios terem sido provocadas para facilitar a grilagem. A ação é facilitada pelo efeito da seca na floresta, causada pelo El Niño, que também está propiciando incêndios em países do Sudeste Asiático como Indonésia e Malásia. O fenômeno climático muda o padrão de circulação dos ventos, o que explica a concentração de fumaça em Manaus. O aumento dos incêndios na floresta amazônica está, porém, 12% abaixo da média histórica da plataforma do Inpe. Também é muito inferior (-67%) aos 23.475 focos registrados no mesmo intervalo de 2024, outro ano de El Niño severo.

Mesmo assim, é preciso cuidar para evitar retrocessos. Importantes medidas na área ambiental estão sendo implementadas e devem ter continuidade. Há ainda outras que dependem do Congresso, cujo futuro já levanta dúvidas diante dos resultados das eleições deste ano na composição das casas legislativas. Análise feita pelo Observatório do Clima (6/10) aponta que a grande maioria dos novos parlamentares eleitos, 68,9%, tem baixa convergência ambiental, o que sugere um cenário pouco favorável a pautas sobre o tema. Está no Congresso um projeto de lei que visa a reduzir o poder de fiscalização do desmatamento com base em imagens de satélite, controle que embasa dois terços de todas as autuações do Ibama e aumenta em 14 vezes a eficiência das fiscalizações. Os parlamentares querem exigir a notificação prévia da ação, o que deve inviabilizar sua eficiência. Também está no Legislativo projeto que elimina a proteção de todos os campos nativos e outras formações não florestais. Os parlamentares, porém, não são alheios ao que se passa no mundo, especialmente às barreira de restrições comerciais com base em regras ambientais. A nova legislatura precisa atuar com mais moderação, cuidado e visão de futuro do que no passado recente.

A França em chamas

Por Correio Braziliense

Uma França alinhada ao trumpismo, hostil ao multilateralismo e com simpatias declaradas por Putin seria uma ruptura sem precedente no projeto da União Europeia

Berço de uma revolução que redesenhou a história do Ocidente, a França está novamente às voltas com uma insurreição. A escalada da violência urbana e o isolamento do presidente Emmanuel Macron expõem o esgotamento do modelo tecnocrata e arrastam a Europa para uma perigosa incerteza geopolítica, que pode acabar mudando o mapa do poder mundial. 

O que começou em meados de setembro com estudantes do ensino médio bloqueando escolas na periferia de Paris se transformou, em cinco semanas, na maior mobilização de rua do país em anos. A alta dos combustíveis desde o início do conflito no Oriente Médio, o custo de vida fora do alcance de boa parte da população e anos de acúmulo de insatisfação convergiram num movimento que une ex-coletes amarelos, sindicalistas, ativistas climáticos e estudantes.

No sábado, cerca de 550 mil pessoas foram às ruas em todo o país, segundo o Ministério do Interior (os sindicatos falam em 800 mil). A prefeitura de Limoges, na região da Nova Aquitânia, inaugurada em 1883 e classificada como patrimônio histórico, foi invadida e incendiada. O campanário desabou durante a noite. Confrontos ocorreram em Paris, Marselha, Rouen, Nantes, Toulouse e dezenas de outras cidades. O balanço foi atualizado neste domingo: 1.800 detidos, mais de 500 policiais feridos, um manifestante morto em Paris após parada cardíaca. 

A resposta do governo foi de repressão e firmeza declarada. O primeiro-ministro Sébastien Lecornu prometeu punir os responsáveis pelos distúrbios e acusou a esquerda radical de Jean-Luc Mélenchon de estar por trás da violência. O estado de emergência foi descartado, mas o tom oficial é de controle.

Personagem central dessa crise, Macron caminha para um fim de mandato melancólico, faltando pouco mais de sete meses para sua saída do cargo. Já no quinto primeiro-ministro em menos de três anos, sem maioria parlamentar e com aprovação em queda, o fim da era Macron abre uma janela perigosa. A extrema-direita de Marine Le Pen e seu partido, o Rassemblement National, observam os distúrbios com atenção. Uma França exausta, raivosa e sem saída institucional clara é o terreno mais fértil para um movimento que promete ordem, fronteiras fechadas e nacionalismo exacerbado como resposta para a crise.

O problema de uma vitória que provoque uma ruptura drástica na política francesa vai muito além da própria França. Ao contrário do Reino Unido, que orbita Washington com consistência e hoje está à deriva fora da União Europeia, e da Alemanha, historicamente atrelada à cautela fiscal e à estrita dependência militar transatlântica, a França foi sempre um contraponto sério e seguro aos Estados Unidos no bloco ocidental na política externa, na cultura, e no modelo econômico. Uma França alinhada ao trumpismo, hostil ao multilateralismo e com simpatias declaradas por Putin seria uma ruptura sem precedente no projeto da União Europeia. O bloco perderia seu principal contrapeso interno. E o mundo ganharia mais uma variável de instabilidade num momento em que já tem variáveis demais.

A Revolução Francesa de 1789 começou nas ruas e terminou mudando o mundo. O que acontece hoje tem escala e natureza diferentes, mas a França sempre foi um país cujas crises internas produzem ecos globais. O mundo observa com apreensão os próximos passos do movimento francês, torcendo por um desfecho que traga alguma estabilidade num cenário internacional já suficientemente caótico e fraturado para suportar mais uma frente aberta.

Os números alarmantes da dengue no Ceará

Por O Povo (CE)

O alerta deve estar ligado e os números disponíveis, a partir do acompanhamento feito pelas instâncisas oficiais especializadas, indicam a necessidade de se adotar uma política mais eficiente no enfrentamento do problema . O acumulado do ano de 2027 registra um total de 27 mortes por dengue no Ceará, um dado assustador considerando-se, para efeito comparativo, que durante o quadro de pandemia da doença registrada em 2024 os registros chegaram a nove, três vezes menos portanto.

É um quadro complexo, que exige uma análise profunda e que os setores públicos responsáveis apresentem explicações mais convincentes. A Secretaria de Saúde estadual (Sesa) aponta como causas determinantes as chuvas que cairam entre fevereiro e maio e uma alta na circulação da doença nas regiões Norte, Sul e Litoral Leste do Ceará. Pode explicar alguma coisa, mas não justifica tudo.

O aumento expressivo deu-se também na quantidade de casos confirmados no ano, superando os 15 mil, o que representa quatro vezes mais do que em 2026, o que até parece em linha com o que aconteceu em termos de perdas de vidas decorrentes da dengue. No entanto, é importante que a busca de respostas vá além do simplismo de atribuir tudo apenas a fenômenos naturais, como as chuvas, e desde agora exista o interesse de descobrir meios de agir de maneira preventiva, investindo em campanhas de esclarecimento e que consigam envolvar a sociedade em ações de combate ao problema ainda a tempo de evitar mortes ou contaminações.

Os números comparativos dizem respeito às primeiras 40 semanas epidemiológicas e o fato de a situação parecer controlada no momento não deve gerar qualquer atitude de acomodação. Pelo contrário, a hora certa de agir é agora, aproveitando-se de um quadro de normalidade aparente, sem a pressão de uma epidemia ou coisa que valha, para planejar medidas a serem adotadas com o sentido de nos fazer mais preparados para quando o pior chegar.

Há necessidade de compreender, por exemplo, as razões de haver circulado com tanta desenvoltura no Estado o soropositivo 2 (Denv-2), constatado em 86% dos casos. Exatamente o tipo considerado mais agressivo e que pode levar a formas de maior gravidade da doença, como a dengue hemorrágica, o que exige uma investigação com o sentido de buscar explicações e a, partir disso, buscar meios de proteger melhor a população de ameaça tão grave.

A área da saúde impõe uma permanente atenção com os desafios que a cercam, especialmente naquelas situações, como é o caso, em que as medidas corretas na hora adequada podem permitir que vidas sejam salvas. Parece claro que algo pode, e precisa, ser feito para melhorarmos as estatísticas fora dos padrões normais que a temporada de 2026, em seu balanço parcial, nos oferece até o momento.

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