Protestos na França expõem incúria fiscal
Por O Globo
Como Brasil, país enfrenta dificuldade de
implementar reformas após anos de descaso com a falência do Estado
Da Queda da Bastilha à Comuna de Paris, de Maio de 1968 aos coletes amarelos já neste século, a História da França está repleta de momentos em que a população vai às ruas na tentativa de mudar o curso dos eventos. Desta vez, mais de 500 mil tomaram conta de praças e avenidas em 110 cidades francesas no último sábado, auge da onda de protestos que começou em setembro como movimento estudantil, mas depois se expandiu para abarcar um sem-número de reivindicações difusas contra o atual governo. A violência resultou em vandalismo e incêndios (como o que destruiu a Prefeitura de Limoges), na depredação de mais de 3 mil estabelecimentos comerciais e na prisão de 2,4 mil pessoas. A raiz dos protestos está na dificuldade da sociedade francesa de lidar com uma crise fiscal crônica — problema em tudo similar ao brasileiro.
Não é de hoje que o Estado de bem-estar
social francês dá sinais de esgotamento. O país oferece uma abrangente rede de
empregos e proteção, que alcança perto de 30 milhões de cidadãos e custa 57% do
PIB. O envelhecimento da população pressiona as generosas aposentadorias e
pensões. Em 15 anos, o custo dos programas sociais passou de 1,3% para 2,7% do
PIB e, ao lado da Previdência, eles representam 60% dos gastos.
O resultado é um déficit crônico. A França
não fecha um Orçamento no azul desde 1974. O buraco fiscal é estimado em 5,4%
do PIB neste ano, com a dívida pública alcançando 119%, maior patamar desde
1946. Se nada for feito, esses indicadores chegarão a 6,8% e 128% do PIB em 2030.
Não é à toa que o juro que o mercado exige para financiar o rombo fiscal
francês subiu de 3% em 2022 para 5%, com prêmio 1,4 ponto acima do que pagam os
títulos alemães. A França precisará, pelas contas do próprio governo, emitir
US$ 380 bilhões em papéis até o final de 2027 só para manter a solvência.
Diante da situação, foi modesto o pacote de
cortes de € 43 bilhões proposto no Orçamento pelo presidente Emmanuel Macron (a
necessidade para estabilizar a dívida é quase o dobro). Como o projeto envolvia
cortes nas verbas para educação, bastou para fazer explodir os protestos.
Macron enfrenta agora reação maior que a despertada pela reforma previdenciária
do início de seu governo, que teve de ser desidratada, foi promulgada na marra
e não resolveu os desequilíbrios. O fracasso das sucessivas tentativas de estabilização
gerou uma situação insólita. A França não tem Orçamento oficial aprovado pelo
segundo ano consecutivo. Obviamente o Banco Central Europeu — capitaneado pela
Alemanha — jamais aceitará financiar qualquer pacote de socorro na linha dos
oferecidos a Grécia, Portugal ou Irlanda se não houver compromisso fiscal
sólido. Nesse vácuo, os protestos inflamam as ruas e, a seis meses da eleição
do sucessor de Macron, alimentam o extremismo.
Para além da política interna, a situação
francesa mostra que em nenhum país pode haver desleixo com o equilíbrio das contas
públicas. No Brasil, os candidatos à Presidência mal tratam do assunto e,
quando questionados, repudiam recomendações consensuais entre economistas para
conter o déficit da Previdência (condição necessária para deter a escalada da
dívida), como o reajuste de aposentadorias e benefícios sociais apenas pela
inflação. Bastaria isso, com algumas outras medidas de austeridade, para evitar
o descontrole.
Recadastramento eleitoral põe democracia
indiana sob risco
Por O Globo
Oposição denuncia manipulação para excluir
eleitores contrários ao primeiro-ministro Narendra Modi
A Índia, tida como
maior democracia do mundo com quase 1 bilhão de eleitores, atravessa um momento
de tensão preocupante. O recadastramento eleitoral iniciado em junho de 2025 e
ainda inconcluso eliminou até agora, de acordo com levantamentos extraoficiais,
pelo menos 133,9 milhões de registros eleitorais. A oposição denunciou
manipulação para favorecer o Partido do Povo Indiano (BJP), do
primeiro-ministro Narendra
Modi. Para o ano que vem, estão programados pleitos em sete dos 28 estados,
onde vive um quarto da população indiana. A vitória ajudaria Modi e o BJP na
renovação do Parlamento. Modi está há 12 anos no poder e depende do Legislativo
para ficar no cargo.
Protestos tomaram conta das ruas, com apoio
das manifestações conhecidas como “movimento das baratas” — alusão à crítica do
presidente da Suprema Corte que comparou jovens desempregados ao inseto.
Líderes oposicionistas têm sido presos.
A Índia é pioneira no uso da tecnologia de
identificação digital. Desde 2009, a plataforma Aadhaar armazena informações
básicas voluntárias dos cidadãos e se tornou o maior sistema biométrico do
planeta. Mas muitos ainda nem têm documento oficial em papel. A certificação
dos eleitores, a oitava desde 1950, é promovida pela Comissão Eleitoral da
Índia (CEI) em Nova Délhi, uma espécie de TSE indiano. Em setembro, a imprensa
revelou que dois integrantes da CEI haviam registrado, ao longo de dez meses,
pelo menos 14 objeções formais aos métodos de recadastramento.
“Não é uma simples revisão da lista de
eleitores”, afirmou ao jornal britânico Financial Times Yogendra Yadav, ativista
de oposição que tem encaminhado reclamações à Suprema Corte. “Estão
reescrevendo as regras sobre quem pode ser eleitor na Índia.” De acordo com
ele, a cassação de títulos de eleitor tem ocorrido “numa escala desconhecida na
História da humanidade”. Na semana passada, veio à tona a estimativa de 134
milhões de eleitores excluídos, a maioria alegadamente por mudança de domicílio
ou não localização. Oposicionistas dizem que houve exclusão deliberada de
muçulmanos, pobres, idosos e migrantes bengalis (que tendem a votar contra o
nacionalismo hindu do BJP). A principal crítica à metodologia de
recadastramento é transferir ao eleitor o ônus de comprovar ter direito a voto.
Há milhões de títulos em disputa à espera de decisões da CEI ou da Justiça.
É a primeira vez que o recadastramento vai
além de checagem da grafia de nomes e divergências para incluir “prova de
cidadania” indiana. Críticos estranham a coincidência entre a pressa com que a
revisão foi feita em estados como Bihar e Bengala Ocidental, pouco antes de
eleições vencidas pelo BJP por larga margem.
Líderes com tendências autocráticas têm lançado mão de vários expedientes mundo afora para tentar permanecer no poder. A revisão deliberada de registros eleitorais é um deles. Por isso o teste enfrentado pela Índia neste momento deve despertar preocupação em qualquer democracia do planeta.
Um debate tardio e agressivo
Por Folha de S. Paulo
Embate direto entre Flávio e Lula privilegiou
ataques em detrimento da discussão de ideias
Se parece irrealista esperar discussões
programáticas, os debates entre Tarcísio e Haddad em SP mostraram que é
possível se aproximar disso
O primeiro —e, provavelmente, penúltimo— debate
eleitoral entre os principais candidatos ao Planalto ocorreu com grande
atraso, a uma semana do segundo turno, e frustrou
quem esperava um confronto de ideias, se é que alguém alimentava tal
expectativa.
O eleitor indeciso ou pendular teve, enfim, a
oportunidade de assistir a um enfrentamento direto entre o senador Flávio
Bolsonaro (PL)
e o incumbente, Luiz Inácio Lula da Silva (PT). Os oponentes
pareceram mais empenhados em evitar algum deslize grave e produzir trechos a
serem divulgados pelas redes sociais, em geral de ataques um ao outro.
Nenhum deles, de fato, foi nocauteado por um
erro brutal ou um desempenho pífio, ao estilo do que fez soçobrar
a candidatura de Joe Biden após um debate com Donald Trump
em 2024.
A crônica política sempre relembra o duelo
que derrubou Richard Nixon ante John Kennedy em 1960 —ou, no âmbito brasileiro,
o encontro de 1989 entre o mesmo Lula e Fernando Collor, no qual a má
apresentação do petista e sua exacerbação na edição televisiva posterior foram
apontados como fatores que contribuíram para sua derrota.
A realidade é que, num ambiente em que toda
declaração ou atitude é metodicamente ensaiada, tais reveses podem acontecer,
porém não são a norma.
Se parece irrealista esperar que debates
transcorram como discussões programáticas, os
encontros travados entre Tarcísio
de Freitas (Republicanos) e Fernando
Haddad (PT) na disputa paulista mostraram que é possível ao menos se
aproximar disso.
No caso da noite de domingo (18) na Band, o
formato que permitia a circulação dos postulantes pelo palco destacou a
agressividade cara a cara entre eles.
Treinado na escola Donald Trump de nada
responder e repetir mentiras e afirmações que nada tinham a ver com as
questões, Flávio encurralou Lula de saída, apoiado numa entrevista concedida na
véspera pela lobista Roberta Luchsinger, envolvida com o filho presidencial
Lulinha em negociações sob investigação.
O presidente se recuperou um tanto ao longo
do embate, jogando no mesmo campo do rival, de resto dono de uma ficha de
suspeitas robusta. A grosseria quase física não deixou de refletir a
polarização radicalizada da vida política nacional nos últimos anos.
Propostas e promessas foram enunciadas aqui e
ali, de forma mecânica —nada capaz de aplacar incertezas que cercam as duas
alternativas de poder.
Como mostrou o Datafolha,
Flávio e Lula estão em empate técnico, com vantagem numérica do primeiro. No
total da amostra, há 6% de eleitores que declaram a intenção de votar em branco
ou nulo, mais 2% de indecisos e 7% que admitem mudar de candidato até o dia do
pleito.
São todos números modestos, mas que, numa
disputa acirrada e num pleito com elevada taxa de abstenção, tendem a ser
decisivos nas horas derradeiras.
Meta deve agir com transparência na campanha
Por Folha de S. Paulo
Funcionários constataram impacto na conta de
Lula e demora na solução; TSE deu 24 horas para explicações
Mensagens internas da empresa obtidas pela
Folha também apontam recomendação algorítmica do perfil de Flávio, prática
proibida pelo TSE
A expansão das redes sociais e das
tecnologias digitais representa avanço, sem dúvida, tanto para a divulgação das
campanhas dos candidatos quanto para o acesso dos cidadãos a diferentes
projetos políticos e ao debate público.
Mas tal avanço, dadas a escala e a dinâmica
do volume informacional, também representa enorme desafio para que a Justiça
Eleitoral faça valer a regulamentação que garante a equidade entre os
postulantes.
Por isso as plataformas têm o dever de
monitorar e aprimorar seus procedimentos técnicos para minimizar falhas capazes
de afetar o processo eleitoral e corrigi-las com transparência do modo mais
célere possível.
O caso recente que envolve impacto no alcance
da propaganda online de Luiz Inácio Lula da Silva (PT) mostra que a Meta, que controla
o Instagram,
o Facebook
e o WhatsApp,
enfrenta dificuldades nessa seara.
Mensagens
internas da empresa obtidas pela Folha
mostram relatos de funcionários que constatam restrições a contas de Lula no
Instagram e recomendação algorítmica do perfil de Flávio
Bolsonaro (PL)
na plataforma e no WhatsApp —prática vedada pelo Tribunal Superior Eleitoral.
No dia 9, o perfil oficial de Lula não
conseguiu impulsionar postagens no feed do Instagram por quase 24 horas. Esse
procedimento é fundamental para que políticos ampliem o acesso aos seus
conteúdos, já que o TSE
proíbe recomendação algorítmica.
O problema foi reportado à Meta, mas
funcionários reclamaram da demora na solução por parte de engenheiros nos EUA.
Em nota, a empresa diz que naquele dia ocorreu
uma falha global no gerenciador de anúncios que foi revertida no dia 10,
mas o comunicado não trata da recomendação algorítmica de Flávio, cuja conta
não foi afetada.
Nesta segunda (19), o ministro do TSE Marco
Aurélio Bellizze estabeleceu
prazo de 24 horas para que a Meta comprove que dá tratamento igualitário às
duas candidaturas em seus algoritmos e sistemas de inteligência artificial.
Isso porque, segundo Bellizze, a empresa não
cumpriu satisfatoriamente uma decisão da corte que, na sexta (16), ordenou a
adoção de medidas nesse sentido.
Espera-se que a empresa aja com transparência, apresentando os dados e documentos necessários, além de redobrar a atenção aos seus protocolos e procedimentos técnicos. É o mínimo que as plataformas devem fazer para não levantar dúvidas sobre sua atuação nesse que é o momento basilar da democracia.
Debate digno da pior campanha da história
Por O Estado de S. Paulo
Band e ‘Estadão’ fizeram sua parte, mas
Flávio Bolsonaro e Lula nunca quiseram debater, só explorar a rejeição ao
adversário. Foi um show de horror, que desrespeitou os eleitores
A Band e o Estadão fizeram sua parte. No domingo passado, ao
reunir no mesmo estúdio os dois candidatos à Presidência da República, os
organizadores do primeiro encontro entre Flávio Bolsonaro (PL) e Luiz Inácio
Lula da Silva (PT) ofereceram ao eleitor uma chance de comparar biografias,
ideias e projetos para o Brasil. Só faltou combinar com os protagonistas, que
transformaram o que deveria ser um debate em um show de horror. Nem Flávio nem
Lula estavam dispostos a debater coisa alguma, como jamais estiveram ao longo
desta que é seguramente a pior campanha presidencial da Nova República, quiçá
da história brasileira.
É até o caso de perguntar se aquele
espetáculo infame ao qual o País assistiu pode mesmo ser chamado de debate. Um
debate pode ser acalorado, e não raro o é. Mas pressupõe argumentos, réplicas e
alguma disposição dos debatedores para convencer ou confirmar, com base na
contraposição de propostas, tanto quem já decidiu como quem ainda não está
certo sobre seu voto. Não houve nada disso.
A miséria da discussão ficou clara desde o
primeiro momento. Ao final de uma pergunta sobre o voto de Flávio Bolsonaro
contra uma ampliação da licença-maternidade para servidoras públicas, Lula quis
saber o que o adversário tinha “contra as mulheres”. Bastaria ao petista ter
feito a pergunta, de resto legítima, sobre a posição do senador. Flávio, por
sua vez, não respondeu e seguiu no modo provocação, trazendo para o palco o
nome da lobista Roberta Luchsinger, amiga de Lulinha, o filho enrolado do
presidente. Estava dada a tônica da noite.
Foi um choque de rejeições. Os dois
candidatos adotaram a mesma tática: em vez de despertar entusiasmo por si
mesmos, esmeraram-se em explorar a rejeição ao adversário. Cada um a seu modo,
Flávio e Lula pareceram treinados para inviabilizar o debate. É inacreditável
que, a uma semana do segundo turno, este tenha sido o primeiro encontro entre
os candidatos e ambos tenham desperdiçado a oportunidade de apresentar ao País
o que pretendem fazer nos próximos quatro anos.
Acostumado a discursar em ambientes
amistosos, com a claque petista a adulá-lo, Lula, confuso, arrogante e
iracundo, reafirmou seu proverbial despreparo para o debate franco com
adversários. Já Flávio, em seu primeiro debate nacional, preferiu o deboche e
claramente foi treinado para não responder a nenhuma pergunta embaraçosa. Nos
dois casos, prevaleceu a lógica dos “cortes” para as redes sociais, e não o
debate em si, absolutamente inexistente.
O grande derrotado dessa rinha foi o pobre
eleitor que esperava terminar o domingo ouvindo os dois postulantes à
Presidência da República discutirem seriamente soluções para os problemas do
Brasil. A frustração foi registrada por um grupo de pesquisa qualitativa
conduzido pelo cientista político Renato Dorgan, CEO do Instituto Travessia, a
pedido deste jornal. “Decepcionante”, “triste” e “vergonhoso” foram alguns dos
adjetivos usados pelos participantes da pesquisa. As críticas uniram indecisos,
eleitores de Flávio e eleitores de Lula, sem exceção. Nem os apoiadores pouparam
seus candidatos. Simpatizantes de Flávio o acharam “vago” – o que, a julgar
pelo que se viu, soa quase como elogio. Os de Lula, por sua vez, se ressentiram
do fato de o petista se rebaixar a “briguinhas”. Já a maioria dos indecisos
saiu do debate como entrou ou pior, vale dizer, cogitando votar nulo.
A esta altura, está claro que o vencedor da
eleição será o menos rejeitado, não aquele com o melhor projeto para o País. É
um ponto de partida lamentável para quem, a partir de janeiro de 2027, terá o
desafio de governar um país cheio de problemas e uma sociedade dividida,
combinação para lá de perigosa.
Resta torcer para que Flávio Bolsonaro e Lula
ponham a mão na consciência e sejam mais propositivos e respeitosos no
derradeiro debate de sexta-feira que vem, na TV Globo. Mas não há razão alguma
para otimismo.
Um país mais transparente
Por O Estado de S. Paulo
O Brasil precisa garantir acesso fácil às
informações sobre gastos e atos públicos, sem sigilos abusivos e sem depender
da boa vontade de governantes para prestar contas à sociedade
Em mais um capítulo opaco da história recente
do País, a Força Aérea Brasileira (FAB) negou acesso a informações sobre os
voos do jato de Daniel Vorcaro, ex-dono do Banco Master, recorrendo à proteção
de dados pessoais prevista na Lei de Acesso à Informação (LAI), que pode
restringir informações por até cem anos. Ora, Vorcaro está preso, envolvido em
um escândalo financeiro gigantesco, cujas ramificações alcançam figuras
poderosas da República. Fica difícil entender a quem, neste momento, interessa
manter essas informações longe do conhecimento público.
A FAB, por sua vez, nega ter imposto sigilo
sobre listas de passageiros e afirma que nem sequer dispõe desses nomes. Mas,
segundo o site Metrópoles, recusou fornecer dados dos planos de voo sob o
argumento de que seria possível identificar pessoas a partir do cruzamento de
informações. É uma justificativa que merece, no mínimo, explicações mais
convincentes. A FAB acabou, por fim, liberando uma parte das informações após a
negativa ter sido divulgada.
O problema é que esse episódio está longe de
ser uma exceção. Durante seu governo, o ex-presidente Jair Bolsonaro recorreu
ao sigilo de cem anos para esconder informações sobre seu cartão de vacinação,
em plena pandemia de covid-19. Ele também colocou restrições sobre informações
de visitas recebidas por ele no Palácio do Planalto. Já Luiz Inácio Lula da
Silva prometeu acabar com essa prática, mas, uma vez no poder, também passou a
lançar mão de expedientes semelhantes. Seu governo restringiu, por exemplo, o
acesso a informações sobre viagens presidenciais, visitas à primeira-dama Janja
da Silva e até à Declaração de Conflito de Interesses do ministro de Minas e
Energia, Alexandre Silveira. Mudam os governantes, permanecem os segredos.
A Lei de Acesso à Informação, sancionada em
2011, estabeleceu que a publicidade é a regra, e o sigilo, a exceção. Ainda
assim, basta surgir um pedido incômodo para que apareça uma justificativa
jurídica capaz de manter documentos longe dos olhos da população, seja lá quem
for o governante ou seu partido. Mas o problema não se resume às informações
que o Estado se recusa a fornecer. Há também aquelas que o Estado deveria
divulgar por iniciativa própria e que o cidadão mal consegue encontrar. É a
chamada transparência ativa.
O cidadão deveria conseguir entrar no site de
uma prefeitura, por exemplo, e descobrir quanto custou a reforma da escola de
seu filho. Em poucos cliques, saber quem executou a obra e por que ela continua
inacabada, se for o caso. São informações elementares para quem paga impostos e
tem o direito de cobrar explicações sobre o destino desse dinheiro.
A exigência da transparência não é
direcionada apenas ao Palácio do Planalto, mas também às Assembleias
Legislativas, Câmaras Municipais, tribunais e outros órgãos que ou mantêm suas
despesas escondidas em páginas difíceis de consultar ou simplesmente deixam de
divulgá-las.
O mesmo vale para as emendas parlamentares,
cujo dinheiro precisa ser acompanhado desde a indicação até o destinatário
final.
Um estudo da Controladoria-Geral da União
analisou os portais de transparência e de dados abertos dos 26 Estados e do
Distrito Federal e encontrou grandes diferenças entre eles, sobretudo na oferta
de dados abertos. Há governos que parecem considerar cumprida sua obrigação ao
colocar uma coleção de arquivos na internet. De que serve uma montanha de
planilhas se o cidadão não consegue descobrir o que procura? A informação
precisa estar em linguagem compreensível. Publicar dados que ninguém entende é
uma maneira bastante conveniente de parecer transparente sem sê-lo.
É preciso estabelecer padrões mínimos de
apresentação dos dados para toda a administração pública, fiscalizar seu
cumprimento e responsabilizar quem descumpre a lei. Também é necessário exigir
justificativas específicas para a imposição de sigilo, em vez de aceitar
alegações genéricas de segurança ou privacidade.
A tecnologia para facilitar esse acesso
existe. O que falta é assegurar que as informações sejam efetivamente
disponibilizadas, independentemente de quem esteja no poder.
O cidadão tem o direito de conhecer a conta
que paga. Não deveria precisar de um especialista nem recorrer à Justiça para
descobrir como seu dinheiro está sendo gasto.
A ‘malaise’ francesa
Por O Estado de S. Paulo
A insatisfação radicaliza, a radicalização
trava reformas e a falta de reformas aprofunda a insatisfação
A disputa eleitoral francesa de 2027 começou
nas ruas – e mal. No fim de semana, a prefeitura de Limoges foi incendiada,
outros prédios públicos foram atacados e lojas foram saqueadas enquanto
centenas de milhares protestavam contra escolas deterioradas, custo de vida e
serviços públicos que já não entregam o que prometem. A maioria não depredou
nem pilhou nada. Ainda assim, a violência mudou o sentido político da revolta.
Ela ofereceu aos extremos um terreno que ambos sabem explorar.
Jean-Luc Mélenchon e seus correligionários da
França Insubmissa (LFI), da esquerda radical, fazem do conflito um método:
causas dispersas ganham unidade ao serem apresentadas como frentes de uma mesma
“luta contra o sistema”. Ainda que não haja provas de que a LFI tenha
orquestrado os crimes de sábado, há uma estratégia deliberada de elevar a
temperatura do conflito para dominar a oposição. Já Marine Le Pen, do
Reagrupamento Nacional, da direita radical, recebe o dividendo inverso. Quanto
mais a anarquia se espraia pelas ruas, mais sua promessa de impor a ordem ganha
força.
Entre esses polos está um macronismo que
perdeu autoridade. O presidente Emmanuel Macron enfrenta um Parlamento
fragmentado e restrições que nenhum governante resolveria por decreto. Mas ele
ajudou a corroer o crédito do centro com reformas incompletas e uma sucessão de
anúncios cuja execução ficou aquém da retórica. Autoridade, afinal, depende da
expectativa de que o poder público fará valer suas decisões. A França possui um
Estado enorme; os episódios recentes expõem quão limitada pode ser sua
capacidade de agir. A erosão desse poder prático abala o respeito pelas
próprias regras.
As disfuncionalidades econômicas estreitam
ainda mais o caminho. Nos protestos dos coletes amarelos, de 2018, Macron
comprou algum sossego com novas concessões. Mas a dívida elevada, o déficit
persistente e os juros pesados comprimem essa liberdade. Ao mesmo tempo, uma
população envelhecida pressiona por compromissos antigos enquanto os jovens
exigem escolas melhores e mais oportunidades. Cada promessa adicional força
escolhas que a política francesa adia há anos.
A esquerda populista responde à malaise prometendo ampliar
compromissos num país já fiscalmente esgotado. A direita populista promete
ordem e proteção, tentando conciliar o ajuste que agora diz defender com seus
instintos estatistas. Os mecanismos diferem; a tentação é parecida: poupar o
eleitor das escolhas duras que a realidade exige. Elixires eleitoralmente
sedutores podem carregar o veneno que acelera a doença.
A França precisa chegar a 2027 com algo melhor que uma disputa entre a revolta e o medo. Uma alternativa democrática de governo terá de reconhecer as causas legítimas da insatisfação, convencendo os eleitores de que é capaz de restaurar a ordem e, ao mesmo tempo, de que remédios amargos são incontornáveis. Se a incapacidade de governar continuar premiando quem promete governar sem enfrentar as patologias do país, as eleições de abril serão apenas a antessala de uma crise mais explosiva.
Queimadas afligem Amazônia e exigem
compromisso ambiental
Por Valor Econômico
É preciso cuidar para evitar retrocessos. Importantes medidas na área ambiental estão sendo implementadas e devem ter continuidade
A menos de um mês do aniversário de um ano da
COP30, realizada em Belém (PA), a Amazônia está novamente em chamas.
Levantamento oficial constatou que o desmatamento na região foi o menor em
quase 40 anos, um avanço importante, mesmo se considerado que a derrubada de
florestas ainda é muito alta, apenas é menor que os níveis alarmantes de antes.
Mas a boa notícia foi em parte ofuscada pelo aumento das queimadas, que encobre
há dias Manaus, e paralisou algumas atividades.
O Projeto de Monitoramento do Desmatamento na
Amazônia Legal por Satélite (Prodes), do Instituto Nacional de Pesquisas
Espaciais (Inpe), informou que o desmatamento teve queda histórica de 42% na
Amazônia Legal e diminuiu 23,8% no Cerrado. O registro é de 1 de agosto de 2025
a 31 de julho de 2026, usado como referência para a mensuração da derrubada de
florestas no Brasil. Na Amazônia, o desmatamento somou 3.355 km2, a menor área
desde que o levantamento foi iniciado, em 1988. No Cerrado, onde o Código
Florestal é menos restrito, foram 5.516 km2 de vegetação nativa perdida, também
o valor mais baixo da série histórica, esta iniciada em 2013.
O governo aproveitou para divulgar o balanço
positivo da sua atuação na área ambiental. Nos quatro anos de gestão, a queda
do desmatamento foi de 71,2% na Amazônia e de 48,4% no Cerrado. O resultado foi
atribuído ao aumento da fiscalização, inclusive com o controle por satélite, e
à retomada do Plano de Ação para Prevenção e Controle do Desmatamento na
Amazônia Legal (PPCDAm), em 2023. Houve ainda a recomposição dos quadros de
fiscais e do orçamento.
Chamaram mais atenção, porém, as imagens de
Manaus encoberta pela fumaça provocada pelas queimadas, que aumentaram apesar
de estarem abaixo da média histórica. O Programa Queimadas de monitoramento por
satélite do Inpe, com atualização diária, registrou salto de focos de incêndio
na Amazônia neste ano. Em outubro, até o dia 16, foram detectados 9.899 novos
focos, 25,6% a mais em comparação com os 7.868 do mesmo período de 2025. No
acumulado do ano, foram 39.479 novos focos, 62% acima de 2025, embora inferior
aos demais anos desta década. Dos focos verificados neste ano na Amazônia, 45%
foram encontrados no Pará, onde dispararam 127%, e 20,5% no Amazonas, onde
aumentaram 115%.
Em Manaus, a poluição causada pela fumaça
proveniente de queimadas, inclusive de outros municípios como Autazes e
Itacoatiara, obrigou a suspensão das aulas e levou a Defesa Civil a recomendar
o uso de máscaras por crianças, idosos, gestantes e pessoas com doenças
respiratórias. Um total de 36 municípios está em situação de emergência. Depois
de algum desencontro com as autoridades locais, a Força Aérea Brasileira (FAB)
enviou aviões especializados no transporte de água e reforçou as equipes de
terra para ajudar no combate às chamas.
Após sobrevoar a região, o ministro do Meio
Ambiente e Mudança do Clima, João Paulo Capobianco, afirmou que a presença de
focos no meio da mata reforça a hipótese de os incêndios terem origem
criminosa. Especialistas do Greenpeace vão na mesma direção ao afirmar que a
maioria dos focos de calor está localizada em áreas sem registro fundiário
(36,8%) e em florestas públicas não destinadas (26,6%), o que indica a
probabilidade de os incêndios terem sido provocadas para facilitar a grilagem.
A ação é facilitada pelo efeito da seca na floresta, causada pelo El Niño, que
também está propiciando incêndios em países do Sudeste Asiático como Indonésia
e Malásia. O fenômeno climático muda o padrão de circulação dos ventos, o que
explica a concentração de fumaça em Manaus. O aumento dos incêndios na floresta
amazônica está, porém, 12% abaixo da média histórica da plataforma do Inpe.
Também é muito inferior (-67%) aos 23.475 focos registrados no mesmo intervalo
de 2024, outro ano de El Niño severo.
Mesmo assim, é preciso cuidar para evitar retrocessos. Importantes medidas na área ambiental estão sendo implementadas e devem ter continuidade. Há ainda outras que dependem do Congresso, cujo futuro já levanta dúvidas diante dos resultados das eleições deste ano na composição das casas legislativas. Análise feita pelo Observatório do Clima (6/10) aponta que a grande maioria dos novos parlamentares eleitos, 68,9%, tem baixa convergência ambiental, o que sugere um cenário pouco favorável a pautas sobre o tema. Está no Congresso um projeto de lei que visa a reduzir o poder de fiscalização do desmatamento com base em imagens de satélite, controle que embasa dois terços de todas as autuações do Ibama e aumenta em 14 vezes a eficiência das fiscalizações. Os parlamentares querem exigir a notificação prévia da ação, o que deve inviabilizar sua eficiência. Também está no Legislativo projeto que elimina a proteção de todos os campos nativos e outras formações não florestais. Os parlamentares, porém, não são alheios ao que se passa no mundo, especialmente às barreira de restrições comerciais com base em regras ambientais. A nova legislatura precisa atuar com mais moderação, cuidado e visão de futuro do que no passado recente.
A França em chamas
Por Correio Braziliense
Uma França alinhada ao trumpismo, hostil ao
multilateralismo e com simpatias declaradas por Putin seria uma ruptura sem
precedente no projeto da União Europeia
Berço de uma revolução que redesenhou a
história do Ocidente, a França está novamente às voltas com uma insurreição. A
escalada da violência urbana e o isolamento do presidente Emmanuel Macron
expõem o esgotamento do modelo tecnocrata e arrastam a Europa para uma perigosa
incerteza geopolítica, que pode acabar mudando o mapa do poder mundial.
O que começou em meados de setembro com
estudantes do ensino médio bloqueando escolas na periferia de Paris se
transformou, em cinco semanas, na maior mobilização de rua do país em anos. A
alta dos combustíveis desde o início do conflito no Oriente Médio, o custo de
vida fora do alcance de boa parte da população e anos de acúmulo de
insatisfação convergiram num movimento que une ex-coletes amarelos,
sindicalistas, ativistas climáticos e estudantes.
No sábado, cerca de 550 mil pessoas foram às
ruas em todo o país, segundo o Ministério do Interior (os sindicatos falam em
800 mil). A prefeitura de Limoges, na região da Nova Aquitânia, inaugurada em
1883 e classificada como patrimônio histórico, foi invadida e incendiada. O
campanário desabou durante a noite. Confrontos ocorreram em Paris, Marselha,
Rouen, Nantes, Toulouse e dezenas de outras cidades. O balanço foi atualizado
neste domingo: 1.800 detidos, mais de 500 policiais feridos, um manifestante
morto em Paris após parada cardíaca.
A resposta do governo foi de repressão e
firmeza declarada. O primeiro-ministro Sébastien Lecornu prometeu punir os
responsáveis pelos distúrbios e acusou a esquerda radical de Jean-Luc Mélenchon
de estar por trás da violência. O estado de emergência foi descartado, mas o
tom oficial é de controle.
Personagem central dessa crise, Macron
caminha para um fim de mandato melancólico, faltando pouco mais de sete meses
para sua saída do cargo. Já no quinto primeiro-ministro em menos de três anos,
sem maioria parlamentar e com aprovação em queda, o fim da era Macron abre uma
janela perigosa. A extrema-direita de Marine Le Pen e seu partido, o
Rassemblement National, observam os distúrbios com atenção. Uma França exausta,
raivosa e sem saída institucional clara é o terreno mais fértil para um
movimento que promete ordem, fronteiras fechadas e nacionalismo exacerbado como
resposta para a crise.
O problema de uma vitória que provoque uma
ruptura drástica na política francesa vai muito além da própria França. Ao
contrário do Reino Unido, que orbita Washington com consistência e hoje está à
deriva fora da União Europeia, e da Alemanha, historicamente atrelada à cautela
fiscal e à estrita dependência militar transatlântica, a França foi sempre um
contraponto sério e seguro aos Estados Unidos no bloco ocidental na política
externa, na cultura, e no modelo econômico. Uma França alinhada ao trumpismo,
hostil ao multilateralismo e com simpatias declaradas por Putin seria uma
ruptura sem precedente no projeto da União Europeia. O bloco perderia seu
principal contrapeso interno. E o mundo ganharia mais uma variável de
instabilidade num momento em que já tem variáveis demais.
A Revolução Francesa de 1789 começou nas ruas e terminou mudando o mundo. O que acontece hoje tem escala e natureza diferentes, mas a França sempre foi um país cujas crises internas produzem ecos globais. O mundo observa com apreensão os próximos passos do movimento francês, torcendo por um desfecho que traga alguma estabilidade num cenário internacional já suficientemente caótico e fraturado para suportar mais uma frente aberta.
Os números alarmantes da dengue no Ceará
Por O Povo (CE)
O alerta deve estar ligado e os números
disponíveis, a partir do acompanhamento feito pelas instâncisas oficiais
especializadas, indicam a necessidade de se adotar uma política mais eficiente
no enfrentamento do problema . O acumulado do ano de 2027 registra um total de
27 mortes por dengue no Ceará, um dado assustador considerando-se, para efeito
comparativo, que durante o quadro de pandemia da doença registrada em 2024 os
registros chegaram a nove, três vezes menos portanto.
É um quadro complexo, que exige uma análise
profunda e que os setores públicos responsáveis apresentem explicações mais
convincentes. A Secretaria de Saúde estadual (Sesa) aponta como causas
determinantes as chuvas que cairam entre fevereiro e maio e uma alta na
circulação da doença nas regiões Norte, Sul e Litoral Leste do Ceará. Pode
explicar alguma coisa, mas não justifica tudo.
O aumento expressivo deu-se também na
quantidade de casos confirmados no ano, superando os 15 mil, o que representa
quatro vezes mais do que em 2026, o que até parece em linha com o que aconteceu
em termos de perdas de vidas decorrentes da dengue. No entanto, é importante
que a busca de respostas vá além do simplismo de atribuir tudo apenas a
fenômenos naturais, como as chuvas, e desde agora exista o interesse de
descobrir meios de agir de maneira preventiva, investindo em campanhas de
esclarecimento e que consigam envolvar a sociedade em ações de combate ao
problema ainda a tempo de evitar mortes ou contaminações.
Os números comparativos dizem respeito às
primeiras 40 semanas epidemiológicas e o fato de a situação parecer controlada
no momento não deve gerar qualquer atitude de acomodação. Pelo contrário, a
hora certa de agir é agora, aproveitando-se de um quadro de normalidade
aparente, sem a pressão de uma epidemia ou coisa que valha, para planejar
medidas a serem adotadas com o sentido de nos fazer mais preparados para quando
o pior chegar.
Há necessidade de compreender, por exemplo,
as razões de haver circulado com tanta desenvoltura no Estado o soropositivo 2
(Denv-2), constatado em 86% dos casos. Exatamente o tipo considerado mais
agressivo e que pode levar a formas de maior gravidade da doença, como a dengue
hemorrágica, o que exige uma investigação com o sentido de buscar explicações e
a, partir disso, buscar meios de proteger melhor a população de ameaça tão
grave.
A área da saúde impõe uma permanente atenção com os desafios que a cercam, especialmente naquelas situações, como é o caso, em que as medidas corretas na hora adequada podem permitir que vidas sejam salvas. Parece claro que algo pode, e precisa, ser feito para melhorarmos as estatísticas fora dos padrões normais que a temporada de 2026, em seu balanço parcial, nos oferece até o momento.

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