Folha de S. Paulo
Ninguém se enganará; Flávio Bolsonaro já está
antecipando seu programa de governo
O chicote descerá sobre militares,
diplomatas, juízes, estudantes, educadores e artistas
Que bom que, para Flávio Bolsonaro, Flávio Bolsonaro já ganhou a eleição. Com isso podemos conhecer de antemão seu programa de governo, permitindo a cada setor da sociedade se preparar. Uma amostra pode estar simbolizada na caminhada de uma deputada catarinense pelas ruas de Florianópolis, comemorando a própria vitória estalando um chicote no asfalto. O chicote é um instrumento usado nos costados de mulas e de escravizados, para pô-los na linha ou castigá-los por insubordinação —você escolhe.
Assim que subida a rampa, o chicote
presidencial vibrará firme sobre todos que impediram o golpe tentado por Jair
Bolsonaro em 2022-23. Há uma dúvida sobre quais serão os primeiros
atingidos, se três ou quatro ministros do STF ou se os militares que se puseram
ao lado da democracia e ainda foram trabalhar no governo Lula.
O ataque ao Supremo talvez exija um arremedo
legal, encenado pelo novo Congresso, mas a demissão, reforma ou até prisão dos
atuais titulares das Forças só dependerá de uma canetada. O brigadeiro Carlos
Baptista Junior, comandante da Aeronáutica sob Bolsonaro e autor do
livro "Eu Disse Não! – Uma Trincheira Antigolpista", responderá pela
ousadia. Em troca, as grades se abrirão e voltaremos a ter a alegre companhia
dos generais Augusto Heleno, Braga Netto, Mário Fernandes —este, autor do plano
"Punhal
Verde e Amarelo", que previa o assassinato de autoridades— e
demais anistiados.
A vingança contra o Itamaraty
já foi anunciada pelo futuro chanceler Eduardo
Bolsonaro, com a varrição de diplomatas de carreira e sua
substituição por parças de clubes de tiro e de churrascos nos condomínios. Os
órgãos de educação e pesquisa, dados a produzir saberes contrários aos
negacionismos, conhecerão a mão pesada dos bolsonaristas —o recente incêndio numa
universidade e iguais ameaças podem ser um indício. As artes e a cultura
passarão a pão e água e os meios de comunicação serão reapresentados à censura.
Não são palpites. Historicamente, o segundo
mandato é o da vingança.

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