quinta-feira, 15 de outubro de 2026

O segundo mandato é o da vingança, por Ruy Castro

Folha de S. Paulo

Ninguém se enganará; Flávio Bolsonaro já está antecipando seu programa de governo

O chicote descerá sobre militares, diplomatas, juízes, estudantes, educadores e artistas

Que bom que, para Flávio Bolsonaro, Flávio Bolsonaro já ganhou a eleição. Com isso podemos conhecer de antemão seu programa de governo, permitindo a cada setor da sociedade se preparar. Uma amostra pode estar simbolizada na caminhada de uma deputada catarinense pelas ruas de Florianópolis, comemorando a própria vitória estalando um chicote no asfalto. O chicote é um instrumento usado nos costados de mulas e de escravizados, para pô-los na linha ou castigá-los por insubordinação —você escolhe.

Assim que subida a rampa, o chicote presidencial vibrará firme sobre todos que impediram o golpe tentado por Jair Bolsonaro em 2022-23. Há uma dúvida sobre quais serão os primeiros atingidos, se três ou quatro ministros do STF ou se os militares que se puseram ao lado da democracia e ainda foram trabalhar no governo Lula.

O ataque ao Supremo talvez exija um arremedo legal, encenado pelo novo Congresso, mas a demissão, reforma ou até prisão dos atuais titulares das Forças só dependerá de uma canetada. O brigadeiro Carlos Baptista Junior, comandante da Aeronáutica sob Bolsonaro e autor do livro "Eu Disse Não! – Uma Trincheira Antigolpista", responderá pela ousadia. Em troca, as grades se abrirão e voltaremos a ter a alegre companhia dos generais Augusto Heleno, Braga Netto, Mário Fernandes —este, autor do plano "Punhal Verde e Amarelo", que previa o assassinato de autoridades— e demais anistiados.

A vingança contra o Itamaraty já foi anunciada pelo futuro chanceler Eduardo Bolsonaro, com a varrição de diplomatas de carreira e sua substituição por parças de clubes de tiro e de churrascos nos condomínios. Os órgãos de educação e pesquisa, dados a produzir saberes contrários aos negacionismos, conhecerão a mão pesada dos bolsonaristas —o recente incêndio numa universidade e iguais ameaças podem ser um indício. As artes e a cultura passarão a pão e água e os meios de comunicação serão reapresentados à censura.

Não são palpites. Historicamente, o segundo mandato é o da vingança.

 

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