terça-feira, 6 de outubro de 2026

Para entender a euforia do mercado com Flávio Bolsonaro, por Vinicius Torres Freire

Folha de S. Paulo

Mera expectativa de 'ajuste' incerto derruba juros, maior queda em quase 20 anos

Queda de juros revela custo que país paga quando não há nem promessa de ajuste econômico

Dólar e Bolsa são os sinais mais "pop" da euforia de "o mercado" com a possibilidade agora muito maior da vitória de Flávio Bolsonaro (PL). Presta-se menos atenção ao que se passa no mercado de juros. Isto é, onde grosso modo se definem taxas de empréstimos para o governo federal, em vários prazos, mercado de títulos da dívida pública, em geral o piso das taxas para a economia inteira. Na manhã desta segunda (5), as taxas caíam para todos os prazos, em particular para títulos de prazo de dois anos ou mais. As baixas mereciam aquele clichê jornalístico, "despencam", com quedas de mais de 1 ponto percentual para negócios de cinco anos, uma brutalidade. Caíam tanto que a B3 teve de ampliar limites máximos de variação diária. Estourou a boca do balão.

Antes de continuar, duas questões para manter em mente. Um, os preços das ações de bancos e empresas financeiras brasileiras negociadas no mercado americano (ADRs) eram os que mais aumentavam na manhã desta segunda (5), com altas de 15% a 30%. Mas os juros não estavam caindo? Como fica a "Faria Lima"? Dois: isso quer dizer que a maioria do pessoal da praça tem certeza de que um eventual governo Flávio Bolsonaro "vai dar certo" ou "quer ajudar" seu candidato de extrema direita?

Essa baixa das taxas de juros é uma medida do custo de não se fazer um conserto econômico qualquer e crível. Isto é, um plano que resulte, em algum momento, em redução dos déficits do governo federal e em contenção do aumento da dívida pública. No caso, trata-se do custo extra em juros que o governo e o resto do país estão pagando porque Lula 3 não deu a mínima para a dívida pública, entre outros problemas, e porque Lula quer se tornar Lula 4 dizendo que "ajuste fiscal" é "babaquice", o cúmulo de quatro anos de tiros no pé. De resto, tudo mais constante, taxas de juros menores contribuem para crescimento maior da economia, com ganhos para todo mundo, não necessariamente distribuídos de modo igualitário. Ações de varejo subiam bem nesta segunda.

Esse erro ou incompreensão contraproducente de Lula começou ainda antes da posse de Lula 3. Então, "o mercado" acreditava na moderação fiscal do governo e até derrubava taxas de juros.

Em 10 de novembro de 2022, Luiz Inácio Lula da Silva fez discurso duro contra a contenção (não corte) de gastos —deu besteira e daria muito mais, a partir de meados de 2024. Foi o chamado "Lula Day". Em 18 de maio de 2017, houvera o "Joesley Day", depois que se soubera na noite de 17 de maio da conversa entre Michel Temer e Joesley "JBS" Batista, o "tem de manter isso aí, viu" (propina para evitar delações do pessoal do MDB que iria para a cadeia). Deu paniquito no mercado.

As taxas de juros ora caem por causa da expectativa de que, com a vitória dos Bolsonaros, haveria conserto nas contas do governo (de resto sem aumento de imposto stricto sensu). Um "ajuste" derrubaria as taxas de juros no futuro, por vários motivos: demanda menor de empréstimos por parte do governo, contenção inicial da atividade econômica, dólar mais barato, menos inflação (se tudo mais constante). Taxas de juros em queda elevam o preço dos títulos (é a mesma coisa). Grosso modo, sem entrar em complicações, esse é o negócio.

É preciso ganhar com a mudança, para baixo ou para cima, o que faz quem negocia dinheiro de modo contínuo, a cada segundo. Considerem-se as aplicações do fundo de renda fixa em que a leitora talvez tenha um dinheirinho. O gestor do fundo vive o dia inteiro a negociar títulos a fim de evitar perdas em caso de alta ou baixa de juros (baixa e alta de preços de títulos), assim como o fazem tesourarias de bancos e de outras instituições financeiras, como seguradoras, fundos de previdência etc.

Bancos ganham com taxas de juros mais altas? Não necessariamente. Ganham com a diferença entre o custo de pegar dinheiro ("tomar emprestado") e a taxa pela qual o emprestam (e ganham ainda mais com um monte de serviços, nada a ver com juros). As taxas podem cair e o ganho dos bancos, no curto, no médio ou no longo prazo, pode aumentar, por vários motivos (até por mais crescimento econômico).
Supondo que Flávio Bolsonaro (PL) seja eleito presidente, quer dizer que "vai dar certo"? Sabe-se lá. Ele não entende nada do assunto e não apresentou indício de plano ou equipe. Mas a mera expectativa de conserto macroeconômico QUALQUER provoca a expectativa de queda de juros. Outra parte de "o mercado" vai atrás, seguindo a manada ou por medo de ser pego (muito) no contrapé, qualquer que seja sua crença a respeito do governo dos Bolsonaros.

Pode ser que os Bolsonaros não apresentem plano sensato ou crível em caso de vitória ou o façam tardiamente ou o avacalhem rapidamente. A turma econômica de Flávio Bolsonaro está dividida em ao menos dois grupos que não se falam muito. Mas dizem lá que têm planos, até de "PEC de Transição" (medidas constitucionais ou outras para antes da posse), "quase tudo pronto".

Pode ser que criem crise política logo de cara ao tentar tirar Jair Bolsonaro da cadeia ou metendo mão pesada no Supremo. Talvez Eduardo Bolsonaro, que tem mandado de prisão, desembarque no Brasil e peite a Justiça. Podem fazer outra besteira qualquer. Talvez comecem a tramar golpes, quem sabe mais sutis, venenos de ação lenta.

Talvez a equipe econômica de um governo Bolsonaro 2 seja muito ruim (ou não). Jair Bolsonaro nomeou ministros na maioria ineptos, mentalmente perturbados ou de franca incompetência perversa para quase todas as áreas. Mesmo que se nomeie equipe mercadista puro-sangue, mas de alta competência, não resolve. Não resolve porque falta a política. Há o Congresso. O lobby de empresas e ricos em geral na defesa de seus interesses (subsídios e regulamentações protetoras). Porque podem variar o grau de esfolamento do povo e o grau de paciência popular com o "ajuste". Talvez a demagogia de base do bolsonarismo resulte em plano ou execução capengas, ao menos na avaliação de "o mercado". Jair Bolsonaro era contra a reforma da Previdência.

 

Pode ocorrer um "Bolsonaro Day". Isto é, uma bandalheira nova, corrupção ou outra coisa, ou a ressuscitação de um escândalo antigo de Flávio ou família, um rolo que tenha impacto político (enfraquecimento do governo no Congresso, impopularidade).

Pode ser que o governo seja inerte ou estúpido em outros aspectos da administração econômica. De início, um plano crível qualquer, de qualquer governo, deve diminuir ainda mais o crescimento econômico em 2027. O povo, como de costume, vai sofrer mais, ao menos de início. Pode haver mal-estar social com implicação política —ou não. Javier Milei teve apoio nos primeiros dois anos de seu governo, com um programa econômico atroz. Não tem mais.

 

Nenhum comentário:

Postar um comentário