Folha de S. Paulo
Mera expectativa de 'ajuste' incerto derruba
juros, maior queda em quase 20 anos
Queda de juros revela custo que país paga
quando não há nem promessa de ajuste econômico
Dólar e Bolsa são os sinais mais "pop" da euforia de "o mercado" com a possibilidade agora muito maior da vitória de Flávio Bolsonaro (PL). Presta-se menos atenção ao que se passa no mercado de juros. Isto é, onde grosso modo se definem taxas de empréstimos para o governo federal, em vários prazos, mercado de títulos da dívida pública, em geral o piso das taxas para a economia inteira. Na manhã desta segunda (5), as taxas caíam para todos os prazos, em particular para títulos de prazo de dois anos ou mais. As baixas mereciam aquele clichê jornalístico, "despencam", com quedas de mais de 1 ponto percentual para negócios de cinco anos, uma brutalidade. Caíam tanto que a B3 teve de ampliar limites máximos de variação diária. Estourou a boca do balão.
Antes de continuar, duas questões para manter
em mente. Um, os preços das ações de bancos e empresas financeiras brasileiras
negociadas no mercado americano (ADRs) eram os que mais aumentavam na manhã
desta segunda (5), com altas de 15% a 30%. Mas os juros não estavam
caindo? Como
fica a "Faria Lima"? Dois: isso quer dizer que a maioria do
pessoal da praça tem certeza de que um eventual governo Flávio
Bolsonaro "vai dar certo" ou "quer ajudar" seu
candidato de extrema direita?
Essa baixa das taxas de juros é uma medida do
custo de não se fazer um conserto
econômico qualquer e crível. Isto é, um plano que resulte, em algum
momento, em redução dos déficits do governo federal e em contenção do aumento
da dívida pública. No caso, trata-se do custo extra em juros que o governo e o
resto do país estão pagando porque Lula 3 não
deu a mínima para a dívida pública, entre outros problemas, e porque Lula
quer se tornar Lula 4 dizendo que "ajuste fiscal" é
"babaquice", o cúmulo de quatro anos de tiros no pé. De resto, tudo
mais constante, taxas de juros menores contribuem para crescimento maior da
economia, com ganhos para todo mundo, não necessariamente distribuídos de modo
igualitário. Ações de varejo subiam bem nesta segunda.
Esse erro ou incompreensão contraproducente
de Lula começou ainda antes da posse de Lula 3. Então, "o mercado"
acreditava na moderação fiscal do governo e até derrubava taxas de juros.
Em
10 de novembro de 2022, Luiz Inácio Lula da Silva fez discurso duro contra a
contenção (não corte) de gastos —deu besteira e daria muito mais, a partir
de meados de 2024. Foi o chamado "Lula Day". Em 18 de maio de 2017,
houvera o
"Joesley Day", depois que se soubera na noite de 17 de maio da
conversa entre Michel Temer e Joesley "JBS" Batista, o "tem de
manter isso aí, viu" (propina para evitar delações do pessoal do MDB que
iria para a cadeia). Deu paniquito no mercado.
As taxas de juros ora caem por causa da
expectativa de que, com a vitória dos Bolsonaros, haveria conserto nas contas
do governo (de resto sem aumento de imposto stricto sensu). Um
"ajuste" derrubaria as taxas de juros no futuro, por vários motivos:
demanda menor de empréstimos por parte do governo, contenção inicial da
atividade econômica, dólar mais barato, menos inflação (se tudo mais
constante). Taxas de juros em queda elevam o preço dos títulos (é a mesma
coisa). Grosso modo, sem entrar em complicações, esse é o negócio.
É preciso ganhar com a mudança, para baixo ou
para cima, o que faz quem negocia dinheiro de modo contínuo, a cada segundo.
Considerem-se as aplicações do fundo
de renda fixa em que a leitora talvez tenha um dinheirinho. O gestor do
fundo vive o dia inteiro a negociar títulos a fim de evitar perdas em caso de
alta ou baixa de juros (baixa e alta de preços de títulos), assim como o fazem
tesourarias de bancos e de outras instituições financeiras, como seguradoras,
fundos de previdência etc.
Bancos ganham com taxas de juros mais altas?
Não necessariamente. Ganham com a diferença entre o custo de pegar dinheiro
("tomar emprestado") e a taxa pela qual o emprestam (e ganham ainda
mais com um monte de serviços, nada a ver com juros). As taxas podem cair e o
ganho dos bancos, no curto, no médio ou no longo prazo, pode aumentar, por
vários motivos (até por mais crescimento econômico).
Supondo que Flávio Bolsonaro (PL) seja eleito
presidente, quer dizer que "vai dar certo"? Sabe-se lá. Ele não
entende nada do assunto e não apresentou indício de plano ou equipe. Mas a mera
expectativa de conserto macroeconômico QUALQUER provoca a expectativa de queda
de juros. Outra parte de "o mercado" vai atrás, seguindo a manada ou
por medo de ser pego (muito) no contrapé, qualquer que seja sua crença a respeito
do governo dos Bolsonaros.
Pode ser que os Bolsonaros não apresentem
plano sensato ou crível em caso de vitória ou o façam tardiamente ou o
avacalhem rapidamente. A turma econômica de Flávio Bolsonaro está dividida em
ao menos dois grupos que não se falam muito. Mas dizem lá que têm planos, até
de "PEC de Transição" (medidas constitucionais ou outras para antes
da posse), "quase tudo pronto".
Pode ser que criem crise política logo de
cara ao tentar tirar Jair Bolsonaro da cadeia ou metendo mão pesada no Supremo.
Talvez Eduardo
Bolsonaro, que tem mandado de prisão, desembarque no Brasil e peite a
Justiça. Podem fazer outra besteira qualquer. Talvez comecem a tramar golpes,
quem sabe mais sutis, venenos de ação lenta.
Talvez a equipe econômica de um governo
Bolsonaro 2 seja muito ruim (ou não). Jair Bolsonaro nomeou ministros na
maioria ineptos, mentalmente perturbados ou de franca incompetência perversa
para quase todas as áreas. Mesmo que se nomeie equipe mercadista puro-sangue,
mas de alta competência, não resolve. Não resolve porque falta a política. Há o
Congresso. O lobby de empresas e ricos em geral na defesa de seus interesses
(subsídios e regulamentações protetoras). Porque podem variar o grau de
esfolamento do povo e o grau de paciência popular com o "ajuste".
Talvez a demagogia de base do bolsonarismo resulte em plano ou execução
capengas, ao menos na avaliação de "o mercado". Jair Bolsonaro era
contra a reforma da Previdência.
Pode ocorrer um "Bolsonaro Day". Isto
é, uma bandalheira nova, corrupção ou outra coisa, ou a ressuscitação de um
escândalo antigo de Flávio ou família, um rolo que tenha impacto político
(enfraquecimento do governo no Congresso, impopularidade).
Pode ser que o governo seja inerte ou
estúpido em outros aspectos da administração econômica. De início, um plano
crível qualquer, de qualquer governo, deve diminuir ainda mais o crescimento
econômico em 2027. O povo, como de costume, vai sofrer mais, ao menos de
início. Pode haver mal-estar social com implicação política —ou não. Javier
Milei teve apoio nos primeiros dois anos de seu governo, com um programa
econômico atroz. Não tem mais.
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