sexta-feira, 9 de outubro de 2026

Para uma nova esquerda - 1, por Pablo Ortellado

O Globo

É necessário fugir daquelas posições que levam à radicalização da direita

A vantagem de Flávio Bolsonaro no primeiro turno colocou a esquerda em modo desespero. Mais uma vez, vemos a difusão de campanhas para virar voto e tentar reverter em duas semanas o que deveria ter sido construído em oito anos.

A esquerda tem duas tarefas diferentes e concomitantes: para o bem do país, precisa fugir daquelas posições que levam à radicalização da direita e, para sua própria identidade e sobrevivência, se colocar de maneira distinta — responder aos problemas colocados pela direita, mas sem se descaracterizar caminhando para o centro. A partir desta semana, farei uma série de colunas sobre o que é preciso para construir uma nova esquerda.

Começo falando da necessidade de abandonar o progressismo moral que defende lutar pelos direitos das mulheres, dos negros e da população LGBT+ por meio da normatização da linguagem, da condenação moral, da exclusão social e da coerção institucional. Obviamente, a esquerda não deve deixar de lutar por esses direitos, mas precisa inventar novas formas de lutar por eles.

O progressismo moral é tão claramente impopular que a campanha de Lula optou por deixá-lo de lado, passando a enfatizar as políticas materiais que favorecem a classe trabalhadora. Mas sua centralidade na agenda cotidiana da esquerda é tamanha que dois meses de campanha são incapazes de dissociar uma coisa da outra.

Ele tenta impor à sociedade regras de linguagem e convívio social esotéricas, que só vigoram de fato em pequenos círculos progressistas e são amplamente desconhecidas fora deles — coisas como linguagem inclusiva, figuras de linguagem consideradas racistas ou formas de tratamento consideradas opressivas. Mesmo sendo esotéricas, quem viola essas normas é condenado moralmente como misógino, racista ou homofóbico e tratado como pária que deveria ser excluído do convívio social. Embora tenham sido gestadas na pequena ilha progressista, elas são ditadas para a sociedade por meio de poderosas instituições como os meios de comunicação, o entretenimento e as artes, as escolas e as universidades.

Mais recentemente, essas regras foram também incorporadas ao Direito, e o progressismo moral quer agora pôr na cadeia e retirar das redes sociais quem manifeste comportamentos ou discursos desviantes. Em resumo, o progressismo moral desistiu de persuadir a sociedade de suas causas e quer impor sua posição pela coerção. Temas sobre os quais a opinião pública ainda está longe de ter chegado a consenso — como o acesso a banheiros por pessoas trans — deixam de ser tratados como controvérsias públicas em curso e passam a ser enquadrados como exigências fundamentais de direitos humanos, com sanções institucionais e penais para quem desafiá-las.

Qualquer um que acompanha a direita sabe que o ódio à “cultura do cancelamento” e ao “politicamente correto” está entre os principais motores da radicalização conservadora. O progressismo moral, porém, prefere não escutar a sociedade que diz rechaçar racismo, machismo e homofobia e que gostaria de melhorar suas condutas e instituições, mas que não aceita ser tratada com estigma, censura e cadeia. Ele ignora essa boa vontade declarada e trata a resistência a seus métodos como expressão da persistência do racismo e do patriarcado — uma confirmação da força subjacente do mal que precisa ser combatido com o dobro do mesmo remédio.

Desamparada, a sociedade passa a dar atenção e voto ao único grupo que se dispõe a escutar as suas queixas e a oferecer respostas. Quando os Pavanatos, os Nikolas e os Paulos Figueiredos começam a ganhar audiência e voto, a esquerda começa a achar não apenas que misoginia e racismo são estruturas persistentes, mas que a sociedade vai se revelando como realmente é: fascista. A esquerda então declara guerra contra o povo comum — o mesmo povo com quem, agora, diz querer conversar para virar voto.

 

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