domingo, 18 de outubro de 2026

Paulinho e Verinha em perigo, por Ruy Castro

Folha de S. Paulo

O jabuti Jonathan, 194 anos, ser mais idoso do mundo, está preocupado com a situação

Se vier o pior, um casal de jovens jabutis brasileiros poderá esperar pela salvação; nós, não

Fui apresentado outro dia a um casal de jabutis. Chamam-se Paulinho e Verinha. Não entendi como seus tutores sabem quem é quem —jabutis são tímidos, não gostam de botar nem a cabeça para fora, quanto mais as partes. Só sei que têm menos de um ano e, pelo amor com que são tratados, uma bela vida pela frente. Ao observá-los, concluí que não fazem nada sem pensar —não importa onde sejam colocados, permanecem estáticos, avaliando a situação. Pode acontecer de só se decidirem muito depois de você, temendo morrer de velhice, ter desistido de esperar para ver.

Ao mesmo tempo, fiquei sabendo de um jabuti gigante chamado Jonathan, morador da ilha de Santa Helena, possessão britânica no Atlântico, nascido em 1832, o que faz dele um senhor de 194 anos. É talvez o ser mais idoso do planeta —e em plena forma. Jabutis são longevos, mas Jonathan parece infenso a doenças, desgaste do material e outros fatores que levam à morte. Só se aborrece quando o confundem com uma tartaruga— os jabutis, sóbrios cidadãos terrestres, esnobam as tartarugas, essencialmente aquáticas.

Se Jonathan tivesse nascido no Brasil, pegaria D. Pedro 2º ainda garoto, acompanharia todo o seu longo reinado e, depois, as atribulações da República. Sua vida sofreria os sobressaltos de 12 golpes de estado —1889, 91, 1922, 24, 30, 37, 45, 55, 61, 64, 68 e 2023, incluindo golpes vitoriosos, golpes dentro de golpes e tentativas abortadas, além da agrura de duas ditaduras e a alegria de duas redemocratizações.

Teria conhecido um país que, apesar de tudo, permitia conviver com Machado de Assis, José do Patrocínio, Santos-Dumont, Villa-Lobos, Carmen Miranda, Graciliano Ramos, Anísio Teixeira, Clarice Lispector, Nelson Rodrigues, Garrincha, Pelé, Fernanda Montenegro, Tom Jobim.

Jonathan não é brasileiro, mas, pelos perrengues que já passou, deve estar preocupado. Uma sombra neofascista paira sobre o mundo, com a intenção de eternizar-se. A preocupação de Jonathan não seria por Paulinho e Verinha. Eles poderão esperar. Nós, não.

 

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