Folha de S. Paulo
É precipitada e incorreta a conclusão de que
houve, agora, um avanço inédito da direita no Parlamento
A diferença é o desempenho dos radicais, que,
no fim, se alinham sob o guarda-chuva pragmático do centrão
O Congresso
Nacional eleito para os próximos quatro anos não será mais nem menos
conservador do que sempre foi se olharmos o perfil geral pela predominância de
representação do centro à direita.
No quadro mais amplo, a Câmara dos Deputados, isso se vê melhor: dos 57% atuais, esse campo vai para 59% dos deputados. A esquerda segue minoritária como sempre, com os mesmos 24%, considerando o PT e agregados.
A diferença está no avanço da
direita de cores mais nítidas e atuação incisiva sobre a turma da ambiguidade pragmática
do centrão, sob cujo guarda-chuva todos se abrigam na defesa dos
interesses corporativos.
Visto do alto, o cenário da chegada de Flávio
Bolsonaro (PL)
à frente de Luiz Inácio da Silva (PT), a eleição de ao menos 10 governadores do
campo dele no primeiro turno e o êxito do PL no Parlamento se presta à
conclusão de que o Brasil fez uma virada à direita —quando na verdade ficou
onde sempre esteve. Na Câmara e no Senado,
o PL assume a hegemonia que foi do MDB no tempo em
que o partido não era mais o antagonista da ditadura e já havia incorporado
personagens oriundos do antigo regime.
Nessa condição e sob o governo de um
personagem (José Sarney)
vindo da Arena, deu-se a Assembleia Constituinte, cujo fruto resultou de um
embate de forças diversas, criticado pelo desenho progressista —condescendente
nos direitos e leniente quanto aos deveres.
Sim, era outro momento, havia um ímpeto
diferente na sociedade e podíamos contar com políticos de outra estatura e
qualidade. À direita, ao centro e à esquerda.
Houve mudanças, dentre as quais o aumento
disfuncional de poder do Congresso, que faz e acontece de acordo com suas
conveniências. Acaba com sessões plenárias, elimina a votação nominal, atropela
comissões, extingue prazos regimentais, abusa dos regimes de urgência e, assim,
degenera o Legislativo.
A permanência dessa situação anômala é o que
unirá o Parlamento em seu rebaixamento qualitativo. À direita, ao centro e à
esquerda, sem fronteiras nem domínio ideológico.

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