quarta-feira, 7 de outubro de 2026

Perfil do Congresso será conservador como sempre foi, por Dora Kramer

Folha de S. Paulo

É precipitada e incorreta a conclusão de que houve, agora, um avanço inédito da direita no Parlamento

A diferença é o desempenho dos radicais, que, no fim, se alinham sob o guarda-chuva pragmático do centrão

O Congresso Nacional eleito para os próximos quatro anos não será mais nem menos conservador do que sempre foi se olharmos o perfil geral pela predominância de representação do centro à direita.

No quadro mais amplo, a Câmara dos Deputados, isso se vê melhor: dos 57% atuais, esse campo vai para 59% dos deputados. A esquerda segue minoritária como sempre, com os mesmos 24%, considerando o PT e agregados.

A diferença está no avanço da direita de cores mais nítidas e atuação incisiva sobre a turma da ambiguidade pragmática do centrão, sob cujo guarda-chuva todos se abrigam na defesa dos interesses corporativos.

Visto do alto, o cenário da chegada de Flávio Bolsonaro (PL) à frente de Luiz Inácio da Silva (PT), a eleição de ao menos 10 governadores do campo dele no primeiro turno e o êxito do PL no Parlamento se presta à conclusão de que o Brasil fez uma virada à direita —quando na verdade ficou onde sempre esteve. Na Câmara e no Senado, o PL assume a hegemonia que foi do MDB no tempo em que o partido não era mais o antagonista da ditadura e já havia incorporado personagens oriundos do antigo regime.

Nessa condição e sob o governo de um personagem (José Sarney) vindo da Arena, deu-se a Assembleia Constituinte, cujo fruto resultou de um embate de forças diversas, criticado pelo desenho progressista —condescendente nos direitos e leniente quanto aos deveres.

Sim, era outro momento, havia um ímpeto diferente na sociedade e podíamos contar com políticos de outra estatura e qualidade. À direita, ao centro e à esquerda.

Houve mudanças, dentre as quais o aumento disfuncional de poder do Congresso, que faz e acontece de acordo com suas conveniências. Acaba com sessões plenárias, elimina a votação nominal, atropela comissões, extingue prazos regimentais, abusa dos regimes de urgência e, assim, degenera o Legislativo.

A permanência dessa situação anômala é o que unirá o Parlamento em seu rebaixamento qualitativo. À direita, ao centro e à esquerda, sem fronteiras nem domínio ideológico.

 

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