O progresso social brasileiro, incluindo a
democracia política que lhe é fundamental, exige que o segundo turno
presidencial ocasione o que ainda não foi feito, durante o governo atual ou ao
menos, não suficientemente: distinguir conservadores tradicionais de
reacionários atuais que advieram da emergência bolsonarista, separando-os ao
máximo possível dentro da maioria conservadora brasileira. Como tenho insistido
(10 pontos para dialogar com o conservadorismo sem ceder princípios em Carta
Capital de 2/4/2026), desprezar temas morais dos costumes sociais não evita sua
relevância política pela ultradireita nacional-identitária, que neles se ancora
como crítica da diversidade populacional caracteristicamente brasileira, nem
eles são um campo minado que não possa ser percorrido pelos progressistas
brasileiros e suas esquerdas.
De fato, o conservadorismo brasileiro tradicional
se posiciona contra a opção individual pelo aborto, prioriza a segurança
pública sobre demais aspectos sociais, destaca a família como grupo acima de
qualquer outra coletividade, se escandaliza perante a visibilidade de afetos
LGBTQIAPN+ e (desde a ascensão estadunidense durante o século XX) carreia sua
admiração internacional aos EUA. Mas o reacionarismo bolsonarista difere da
maioria conservadora ao contrariar o aborto até por mulheres estupradas;
desconsidera o entorno habitacional próximo (e socialmente precário) das máfias
territoriais durante seu combate; despreza a integração familiar quando ela
colide com a valorizada sobrecarga de trabalho; criminaliza as relações
afetivas que não sejam heterossexuais cisgênero; é leniente com discriminações
negativas contra mulheres e a negritude em geral; e considera EUA como parceiro
internacional preferencial ou até exclusivo.
Neste sentido, a candidatura de Lula à
reeleição presidencial pode e deve ser defendida como sendo objetivamente a
única via alternativa ao retrocesso nacional, portado pela candidatura
adversária, cuja essência reacionária será totalmente desvelada à medida que
Lula proponha um pacto democrático amplo, com seu governo como fiador. Um pacto
político pelo não-retrocesso nacional ao qual sua Presidência, a reeleger,
convide todos os segmentos da nação para definirmos um desenvolvimento
brasileiro a partir dum compromisso mínimo:
- pelo arquivamento parlamentar da
criminalização do aborto por mulheres estupradas, previsto em projeto de lei
cuja decisão somente continua suspensa pela Câmara dos Deputados;
- definindo ocupação policial permanente, em
áreas socialmente vulneráveis sob atual domínio paramilitar criminoso de
facções, como opção preferencial de sua retomada territorial progressiva;
- cumprindo a projeção ulterior de
substituição da escala 6X1, através de seus desdobramentos legais já previstos
na emenda constitucional à carga semanal de trabalho subordinado;
- ampliando “pé de meia”, progressivamente,
aos vários cursos certificados pós-ensino médio, universitários ou não
- generalizando pontos de apoio assistencial
aos trabalhadores individuais associados a aplicativos de transporte rotativo e
se prontificando à negociação doutros tópicos, especialmente cooperativistas,
com essas categorias;
- fornecendo assistência psicológica
especializada para indivíduos LGBTQIAPN+;
- mantendo a proibição das BETs, recentemente
decretada;
- assegurando regularidade ulterior aos
programas de renegociação assistida de dívidas financeiras volumosas;
- disponibilizando a negociação permanente
com microempreendedorismo em geral, a partir da aplicação das novas condições
institucionalizadas para MEIs;
- mediante abertura soberana internacional
para quaisquer investimentos estrangeiros mais vantajosos, sob filtro econômico
transparente, à nação brasileira
Com tais ingredientes políticos e
socioeconômicos, cuja especificação interpela o conservadorismo brasileiro ou
somente evita colidir com temas nos quais reacionários sequer cogitariam e
neles se distinguem de conservadores, a campanha pela reeleição presidencial se
posicionaria pela justificação nacional ampla o suficiente para incluir
orientações progressistas abertas às questões atualmente candentes da população
brasileira. Sua execução é básica para o Brasil comportar outros avanços
futuros, podem ser adotados por setores políticos de centro, centro-direita e
mesmo alguns à direita, mas seu exercício governamental depende que Lula 4 seja
o próximo mandato presidencial.
*Julio Aurelio Lopes é Cientista Político na Casa de Rui Barbosa e autor de “A Carta da Democracia: o processo constituinte da ordem de 1988”, dentre outros livros sobre cidadania

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